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COMPLEXO BRASIL: MULTIDÕES, MULTITUDES E O MISTÉRIO DO TEMPOMARIANA VARELA2026-01-13
Também por isso, a História, como o Tempo, nada tem a ver com o Progresso. Do ponto de vista da experiência do vivo, são talvez experiência, maturidade – e tantas vezes deformação! – as palavras mais precisas para definir as metamorfoses que o tempo produz em nós. Ao mesmo tempo positivista e desenvolvimentista, a ideia de Progresso foi largamente utilizada para justificar a destruição e, sobretudo, a aceleração do tempo por meio da transformação do espaço. É Progresso a palavra que está na bandeira brasileira, colada como ideia para forçar um tipo específico de crescimento. O Progresso são as grandes rodovias, ainda que não levem a parte alguma; os aviões e os autocarros que já nos dirigem a nós; os drones, os smart-phones. Toda essa panaceia de lítio e aço que é hoje a segunda pele da terra é devedora, do ponto de vista das ideias, do progresso; e do ponto de vista material, da destruição das matas, dos rios, dos montes e dos povos. Ao contrário de outros exemplos quiçá mais equilibrados, o Brasil nasce de uma morte terrível e rapidamente é acelerado e progredido contra a sua vontade. Haver no seu nascimento tantas mortes, tantos povos desterritorializados e desumanizados, faz do Brasil uma ambiguidade ambulante: ao mesmo tempo início e fim; semente e fruto; vida e morte. O Brasil é casa de antigos e velhos povos. Indígenas, culturas afro-diaspóricas, velhas nações ocidentais e orientais fizeram do Brasil a casa de japoneses, italianos, portugueses, alemães, nordestinos, africanos, tubinambás, guaranis kayowas, caiubis, nortistas, paraenses, paulistanos, goianos, alagoanos, sulistas, mineiros…e mais. O Brasil contém o mundo em um grande caldeirão. Dizer Brasil é dizer Brasis.
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E nesse sentido, complexo brasil, exposição inaugurada na Gulbenkian em Novembro de 2025 com a curadoria de José Miguel Wisnik, Milena Britto, Guilherme Wisnik e projeto expositivo de Daniela Thomas, acerta na dissolução da unidade para revelar a vastidão e diversidade de um país que, valha a contagem oficial, é novo, e conta, com a sua história, uma história que é maior que ele mesmo. Ambiciosa e representativa daquilo que busca convocar, a exposição de 1600 m2 na Fundação Gulbenkian abarca (ou pretende abarcar) a quase totalidade da história e da cultura brasileira por meio de um panorama culturalista de diferentes regiões e fases. Na esteira dos diálogos transatlânticos cuja exposição de Paula Rego e Adriana Varejão é um exemplo, a Gulbenkian dedica dois pisos à tarefa que os curadores se propuseram: narrar o Brasil / os Brasis por meio de uma escolha de obras expressivas. O formato expositivo remete a uma estética antropológica de exposição dos povos: dividido por regiões e/ou culturas, a exposição resvala em um carácter pedagógico e histórico, também porque dotado de um viés culturalista. A imensidão do acervo é impressionante e deve-se também à sua diversidade: pintura, fotografia, instalação, vídeo, literatura, poesia – estão todas lá. De Cláudia Andujar a Clarice Lispector, de Pedro Américo a Denilson Baniwa, Bispo do Rosário a Oscar Niemayer, o Brasil é apresentado pelos melhores espíritos que já passaram por esta terra, revelando uma amplitude marcante de obras e temas. É atravessado, também por isso, pela implicação do passado no presente e dotado de um forte espírito decolonial, sublinhando nas ruínas da história colonial o aspecto bárbaro que existe na suposta civilização. É em uma arquitetura livre e ampla, que convoca o tempo e o caos organizado, que o complexo brasil revela ao mesmo tempo a riqueza e a exuberância da cultura brasileira e sublinha a inscrição e os efeitos do colonialismo nos povos africanos e indígenas, na estrutura sócio-económica do país e na sua psique nacional. Linha norteadora da exposição, a cultura brasileira é apresentada como inextricavelmente produzida/destruída pela violência colonial, pela inscrição material do racismo e pelo abatimento de culturas ricas e complexas por meio da demonização de práticas e povos. Fá-lo por meio de obras às vezes duras e às vezes fantásticas, dividindo sua energia entre a expressão de identidades solapadas pelo colonialismo e a reconfiguração do passado durante o processo histórico. Um exemplo emblemático são os quadros históricos que retratam práticas canibais e que acompanham a consequente apropriação modernista desse imaginário, na década de 20, no campo da cultura. A obra no início da exposição é emblemática do que pretende convocar. Uma árvore/madeira retorcida, obra de Henrique Oliveira, recebe os visitantes à entrada: chama-se O Retorno. O tempo tem caminhos misteriosos e aquilo que fazemos sempre está connosco onde quer que estejamos. A obra, que antecede a primeira parte da exposição, dedicada às culturas indígenas, funciona como uma mensagem a respeito das fleurs du mal plantadas pela cultura colonial no país – e as árvores, plantas, obras, músicas, esculturas, arquiteturas, violências e fracturas que daí surgiram. As obras aparecem, nesse sentido, ora como representações narrativas de uma história, ora como expressões do atravessamento sensível da história e da violência nos corpos artísticos, revelando a constante desconfiguração e reconfiguração linguística, psicológica e física necessária para lidar com a violência que marca a história do país. É o caso por exemplo do Manto de Arthur Bispo do Rosário, peça belissimamente exposta no primeiro piso da exposição. Bordado com palavras, símbolos e números, feito de uma bricolage de tecidos desfiados, o Manto é uma tentativa de reconciliar o eu ao uno, registrando memórias e emblemas em um manto que é continuidade e testemunha de um eu psicótico ou mágico, atravessado por tensões históricas. Foi confeccionado para ser usado, segundo ele, diante de Deus no dia da sua passagem. Tendo vivido anos de sua vida em instituições psiquiátricas, o trabalho de Bispo do Rosário revela não só o atravessamento da religião no seu trabalho, como questiona as fronteiras entre desorganização psíquica, misticismo e violência institucional em um objeto que funciona ao mesmo tempo como proteção e como emblema. De facto, no Brasil, o extraordinário e o cotidiano, a fé e a mendicância, a violência e a cegueira, o canibalismo e a antropofagia configuram uma encruzilhada constante, em que há sempre uma história de histórias, uma estrada de estradas e um tempo cheio de contradições onde pulsa o coração do país. Próximo de fotografias de Claudia Andujar, das histórias do cangaço brasileiro, de cabeças decepadas, do anúncio documental de escravos fugidos e dos esforços ‘progressistas’ de destruição da Amazónia, a exposição é uma panóplia de arte e história, sublinhando a violência estruturante da experiência nacional, bem como a exuberante pluralidade de formas estéticas que se inscrevem na cultura brasileira. Como sintoma, como vingança ou como simples ímpeto criador, as obras apresentadas aparecem sobretudo como uma expressão da história nacional, registro do movimento de dominação, contradição, transformação e metamorfose que atravessou as suas geografias e povos. No meio disto tudo encontram-se também as vanguardas estéticas que se dedicaram a pensar, pintar e construir esteticamente o país – seja o modernismo arquitetónico brasileiro, sejam as vanguardas concretistas e neo concretistas, expostas como poesia e como design – e que revelam as mudanças materiais advindas da segunda metade do século XX bem como o projeto político de dar contorno à identidade nacional por meio de projetos culturais mais amplos. Estão apresentadas, nesse sentido, no final do primeiro piso um conjunto de obras marcadas pelo minimalismo, pelas linhas retas e pelas formas fixas, da qual se destacam obras de Augusto de Campos, Mira Schendel, Hélio Oiticica e Oscar Niemayer, com a sua obra mais fundamental que é a própria cidade de Brasília, capital do país e uma das mais importantes expressões do modernismo arquitetónico brasileiro. Além de obras de Niemayer, estão na exposição documentos, vídeos e fotos relacionados com a construção da capital do país na década de 50, bem como uma breve discussão das questões urbanísticas que atravessam a história do país. A apresentação de obras de minimalismo e equilíbrio estético é feita sem afastar o vórtex de desigualdade social que dá carne à vida das cidades, bem como às manifestações políticas mais recentes da extrema-direita no palácio do planalto e sua parcial destruição. Mostra, nesse sentido, que o esforço equilibrado do modernismo e das vanguardas estéticas, bem como as saídas encontradas para lidar com a ausência de espaços públicos no país, não pára de ser constantemente engolida pelo excesso de complexidade que atravessa a sua história e a sua estrutura sócio-económica.
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Assim, indo do máximo ao mínimo, em uma constante tensão entre passado e presente, minimalismo e excesso, complexo brasil busca abarcar a cultura e a história do país, criando um espaço não só de apreciação estética, mas de experiência histórico-sensível. Reorganiza, por meio dessa proposta, a identidade fraturada de um país, buscando ajudá-lo a encontrar a sua própria voz, saída, fiel mas autonomamente, dos escombros da sua história. Dada a potência e qualidade das obras, misturada à história avassaladora do país, a exposição fornece uma experiência impactante, deixando clara a multidão e a multiplicidade que habita no seu interior. Na Fundação Gulbenkian, até fevereiro de 2026, pode-se portanto aproximar da experiência e da visceralidade da história de um país. Tratando-se ainda de uma aterrissagem na cidade de Lisboa, a mesma cidade de onde partiram as primeiras caravelas que dariam na costa brasileira, as questões ainda são mais prementes. E é precisamente aí que se pode perceber como História do Progresso esconde a verdadeira movimentação do Tempo. Espiralar, o Tempo é este que faz parar, no centro da cidade de Lisboa, muitos anos depois, a melodia que Portugal julgou iniciar. Repetição e diferença, o antigo volta a aparecer em novas vestes, modificando observado e observador. Subverte posições e revela as metamorfoses inevitáveis que o tempo forja, mesmo a partir das mais dolorosas histórias. Às vezes, daí, precisamente, a beleza. Às vezes aí, precisamente, implicação e testemunha. Em um tempo em que o novo tarda a nascer e o velho custa a morrer —a hora dos monstros — o complexo brasil é uma ode aos labirintos do tempo e a evidência de que estamos todos implicados na sua misteriosa e surpreendente tecitura.
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