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ANA PINTO COELHO
27/05/2026
Inês Ferreira-Norman entrevista Ana Pinto Coelho, Diretora e Curadora do Festival Mental – Festival da Saúde Mental – cinema, artes e informação.
O Festival Mental é uma produção da Safe Space Portugal, uma associação sem fins lucrativos, que nasceu em 2017 para combater a iliteracia sobre a saúde mental. Conta com a co-produção da Coordenação Nacional das Políticas de Saúde Mental. Escolheram a cultura, e as artes em particular, por serem veículos extraordinários para o combate ao estigma, vergonha e falta de informação pública e geral.
[Esta entrevista aborda temas sensíveis]
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Inês Ferreira-Norman: Ana, queria começar por perguntar sobre a sua formação. Já percebi que tem muitos anos de experiência em produção cultural, mas depois houve aqui um virar da página para o ‘Addiction Counseling’. Queria perguntar-lhe qual foi o diploma especifico e em que consiste ser ‘Addiction Counselor’?
Ana Pinto Coelho: Counseling é uma vertente mais técnica e mais comportamental da psicologia. Mas é muito diferente da psicologia. Embora cá em Portugal ainda hoje não haja profissão. Andei a fazer recolhas de como tentar tornar isso numa profissão na Assembleia da República, mas como éramos um grupo grande no início e as pessoas foram desistindo, de repente eu já estava sozinha a carregar a carroça.
O ‘counseling’ está ligado a várias coisas; no meu caso específico é só uma: tem a ver com as adições, ‘Addiction Counseling’. Adições, sejam elas químicas ou comportamentais. Enquanto o psicólogo vai fazendo a pessoa fazer o seu próprio trabalho interior, através das perguntas que faz e dos enquadramentos, faz o desenvolvimento da pessoa e faz com que ela chegue às conclusões, o conselheiro pode e deve fazer exatamente o oposto. É sugerir, dar sugestões, dizer: "deves fazer isto, deves fazer aquilo, não deves fazer isto". Nenhum psicólogo pode fazer este tipo de trabalho, nem dizer este tipo de coisas. O conselheiro deve: aconselha. Seja com o jogo, tenha a ver com as drogas, tenha a ver com o álcool, tenha a ver com o sexo, seja o que for que seja um comportamento aditivo, o que nós queremos trabalhar é que, o mais depressa possível, a pessoa mude, por questões de saúde, seja de bem-estar psicológico, seja físico. E, além disso, das próprias famílias, não é? Porque qualquer doença aditiva abrange sempre uma família inteira.
IFN: E a Ana chegou a exercer mesmo esta profissão?
APC: Sim. Primeiro tive um consultório. Depois veio a pandemia, comecei a dar muito mais consultas ‘online’. Depois as consultas ‘online’ começaram a crescer e, portanto, a questão do consultório físico deixou de fazer sentido.
Cá… Quando estava a trabalhar em assessoria de imprensa e preenchia a folha das finanças, havia só uma opção, mais ou menos parecida, que se chamava Publicidade. Dentro da publicidade havia o último quadradinho que dizia "Outros". E era aí que eu punha a cruzinha. Está a acontecer o mesmo com a saúde mental em relação a esta profissão. A minha vida é ser "Outro".
Ah, e a prática engloba os familiares, sendo a doença que é, é transversal à família toda, porque de variadíssimos motivos, dependendo do tipo de adição – nós temos um nome para isto que é codependente – o codependente tem uma doença muito semelhante à do adicto. E isso também tem tratamento.
IFN: Como vê a situação geral em Portugal? No tecido social português, o que acha que são as piores adições?
APC: Não consigo responder-lhe a isso. São todas péssimas. Eu sinto e sei, mas nem é por mim, é por ouvir falar colegas e os próprios centros de tratamento que posso referir-lhe, que o que andam a receber mais, o que está a crescer é o jogo. O jogo é um problema gravíssimo a acontecer, e sim, devia ser falado, devia ser proibido, devia ser para já. É a divulgação e a promoção constante a práticas de jogo que nós temos acesso. A qualquer idade, em qualquer lugar, na comunicação social, no futebol, toda a gente gosta de futebol, lá está o Placard, lá está a aposta. A própria Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, a fazer publicidade ao jogo. Houve um surto também com a pandemia, pois passávamos mais tempo online. O jogador não tem de sair de casa para ir jogar. Já não tem de estar cara a cara nos casinos, já não tem que aparecer no Panda e no Bingo. E mesmo assim, em casos muito graves, eu assisti a adictos a chorarem, a pedir encarecidamente aos porteiros dos casinos: "Amanhã não me deixem entrar." Mas claro, no dia seguinte estavam lá outra vez, e claro que o porteiro tem que deixar entrar. O jogo, além disto tudo, dá cabo de tudo o que tem a ver com a parte financeira de uma pessoa e da família inteira. Há histórias absolutamente desastrosas. É uma adição muito difícil de combater e lá está, eles estão rodeados de estímulos constantes. Porque o acesso é facilitado, não é?
IFN: Falámos um pouco das adições mais prevalentes, e as mais estigmatizadas?
APC: Eu penso que as pessoas têm algum embaraço em dizer que têm adição ao sexo. Até porque não é falado, e comportamentos compulsivos nesse aspeto, eu acho que ninguém reconhece. Pode ser confundido com virilidade, pode ser confundido com ninfomania, pode ser confundido com a própria pessoa não perceber a compulsão. Em termos bioquímicos desperta no cérebro a descarga de adrenalina. E isso é igual em qualquer coisa. Com o álcool e com as drogas todas. Eu não considero que haja drogas leves e pesadas, portanto, aí tenho pena, mas droga é droga, desde que altere o estado. Daí que, por exemplo, a adição às redes sociais, a adição a tudo o que são coisas digitais, tudo isso, é exatamente a mesma coisa. E o crescimento e o tratamento é igual.
IFN: Gostava que elaborasse um pouco essa temática dos jovens e das redes sociais. Que preocupações é que, em particular, tem em relação às redes sociais e aos jovens?
APC: Eu não estou preocupada, absolutamente. Zero.
IFN: Porquê?
APC: Porque a partir do momento em que nós temos uma coisa que é dada como adquirida e com a qual nós sabemos que não vamos conseguir fazer face, nem alterar, nem mudar, nem absolutamente nada, gosto mais de me sentir numa posição em que simplesmente aceito: é o que é. E agora vamos lidar com isso. Com prevenção e literacia. Porque proibição é uma asneirada: a história é antiga, nós já a conhecemos. Proibir coisas faz inicialmente crescer, aliás, nós vimos o resultado prático da descriminalização das drogas em Portugal, em como elas baixaram. O fruto proibido é sempre o mais apetecido. E, portanto, cresce a partir da proibição. Portanto, prevenção e literacia. Talvez no passado eu estivesse preocupada, mas agora a atenção disto das redes sociais devia estar neste momento é nos velhotes. Quando se fala de redes sociais e digital, só associar a miúdos e a jovens, está erradíssimo. Isso já era. Agora, são as pessoas mais velhas que estão cada vez mais online, porque sentem companhia, porque há cada vez menos paciência para a televisão. A gente cada vez vai deixando mais de a ligar, porque não tem conteúdos. O telefone tem absolutamente tudo. Incluindo jogos.
IFN: Tem contato com pacientes com doenças mentais que sejam diretamente ligadas à adição ou não? Qual é a gravidade do panorama em Portugal?
APC: Pois, não é só a parte dos comportamentos aditivos, mas também o que agora chamamos de doença mental associada. Todos sabemos que o álcool é um depressor. Depressões, ansiedades, ataques de pânico e ter que lidar com esse tipo de situações de desequilíbrio literal ao mesmo tempo que a adição em si. Há muita coisa que está associada. Sabemos, como resultado do nosso trabalho ativo em articulação com a Coordenação Nacional das Políticas de Saúde Mental, que é co-produtora do Festival Mental e com quem nós trabalhamos o ano inteiro e conversamos, sabemos muito bem, sobretudo no interior, do problema do isolamento, o problema das demências e do Alzheimer em grande crescimento. Tanto assim é que a demência foi o único tema no Festival Mental que foi repetido. E quando nós vamos fazer as nossas itinerâncias, pedem-nos bastante isso. A questão das demências, do envelhecimento, da solidão. Até que ponto é que a solidão pode vir a tornar-se uma doença, uma patologia, certo?
IFN: E como é que funciona, quando é que passa a ser patologia?
APC: Passa a ser uma patologia quando uma pessoa perde a noção disso, deixa de ter a capacidade de sentir e, portanto, reagir, pedir ajuda. Ir ter com alguém, agarrar um telefone, fazer qualquer coisa. Essa linha começa lentamente a desaparecer, e depois esvanece-se completamente. Já não vês o que estás a sentir, já não sentes o que estás a sentir. E depois é o isolamento, é a solidão, o estar sozinho. É tudo junto.
IFN: Então e o Festival Mental, como é que conseguiram apoio da Coordenação Nacional das Políticas de Saúde Mental? Conseguir este apoio estatal, esta parceria, e mais ainda eles serem tão ativos, é raro. Para elaborar um festival de cinema, tendo sido essa a ideia original – agora sei que já está mais expandido a outras artes também – como é que conseguiu que o Estado embarcasse numa viagem dessas?
APC: Com perspetiva e com acreditar muito. Acredito mesmo muito desde o início no que estou a fazer. E quando uma pessoa acredita mesmo muito, consegue fazer. É assim que eu vejo as coisas, é assim que me tem acontecido. Acreditar e atuar honesta e genuinamente, e querer trabalhar no duro e bem feito. Eu acho que a partir daí não é assim tão difícil. De qualquer maneira, quero mencionar o falecido doutor Álvaro Carvalho, o diretor do Programa Nacional das Políticas de Saúde Mental, que foi quem recebeu o projecto com a doutora Paula Domingos que ainda hoje nos acompanha. Fui eu a puxá-la para campos de trabalho que ela não conhecia, a regrar as minhas expectativas, mas fomo-nos adaptando e este jogo de equilíbrio revelou-se muito bom. E foi-se mantendo. Foi-se mantendo também pelos próprios resultados do festival. Se não houvesse resultados é possível que já não estivéssemos aqui. Estamos a fazer 10 anos por algum motivo. Sem qualidade, sem inovação, sem capacidade de mudança constante, estar sempre atento, sempre a mudar, a programar, a receber coisas, a ouvir, a ouvir muito, a ler muito, a conhecer outros festivais congéneres, a internacionalização, tudo isso, significa uma proatividade constante.
IFN: E já agora, falando também do crescimento do festival, como é que caracteriza o público que visita e participa. Há os visitantes e depois os participantes, não é? Têm workshops, atividades...? Ao longo dos 10 anos, como é que vê a evolução do público? Que tipo de públicos é que foram no princípio e quais os que agora estão a ser moldados?
APC: A ideia sempre foi a de entrar numa sala de cinema. E devagarinho foi-se conseguindo. Portanto estar no Cinema São Jorge – que é onde estão os festivais normais de cinema a acontecer (a catedral dos festivais de cinema!) – foi o caminho. Um caminho difícil. No início, em 2017, nem sala tínhamos para trabalhar. Foi o Auditório Orlando Ribeiro a primeira sala que nos abriu as portas. Na sala de cinema, queríamos apanhar o público que gosta de festivais de cinema até por termos uma programação de nicho. Tenho pena que ainda seja nicho, porque os filmes da Mostra Internacional de Curtas-Metragens são muito bons. Todos os anos são diferentes, obviamente, mas uma coisa é verdade: é que contam histórias que dizem respeito a todos. O festival é de saúde mental e não de doença mental, o que é uma diferença enorme. São histórias de vida muito bonitas. Ou não! Não queremos estar a fugir dos assuntos. Há filmes que incomodam à sua maneira, por isto ou por aquilo, e se há coisa mais odiosa ainda do que falar de uma experiência, de um episódio de doença mental, acho que é a guerra, por exemplo, e a violência. No entanto, isso é comum e toda a gente vai e enche salas e está tudo maravilhado com tiros, com mortes…
O festival também foi-se modificando porque fomos acrescentando os ‘targets’: o facto de aumentar o júnior, os mais pequeninos, onde falamos e trabalhamos emoções. Há atividades próprias para despertar e falar sobre as emoções, mostrar um bocadinho como as coisas estão. São todas boas, são todas humanas.
IFN: Há alguma maneira de conseguir perceber que impacto é que isso, e o Festival de forma geral, tem na vida real das pessoas?
APC: Não propriamente, até porque nos workshops e atividades, nós não estamos a dar propriamente workshops de ensinar a fazer coisas ou virar outra vez para o lado da doença e dizer como tratar uma doença. Não é esse o nosso papel. Há outros projetos que fazem essas coisas. O festival trabalha especificamente para a promoção, prevenção, combate ao estigma e à iliteracia, sempre através da cultura. Tenho casos muito práticos, sobretudo na mostra de cinema, de pessoas a saírem a chorar, mas a confortarem-se e contarem "afinal isto não sou só eu". Muitas vezes isso já tem acontecido com as histórias: "afinal pensava que era só eu que sentia isto", ou "pensava que só a mim é que me acontecia isto". E isso é muito bonito, porque aí nós estamos a quebrar o estigma, efetivamente, a dizer às pessoas, ‘Não, aquilo que tu sentes é OK. Não estás sozinha. Há muita gente a sentir a mesma coisa. Há solução para as coisas’. Isso também é muitíssimo importante. E esse é um bocado o poder do cinema: é conseguirmos identificar ou, mesmo que não nos identifiquemos, conseguir perceber o que é, e pormo-nos no lugar da outra pessoa.
IFN: Imagino que em 2017 as coisas não estavam tão más, mas imagino que o cinema tenha sido uma proposta com um certo nível de risco, no sentido em que as salas de cinema estão a definhar. Achou que nessa altura, em 2017, estava a correr um risco ao fazer um festival de cinema ou nem sequer pensou nisso e ‘vamos para a frente’? Como é que foi este enquadramento de escolher ser um festival de cinema?
APC: Era um risco, mas foi um risco mais ou menos calculado. Eu conheci esta ideia na Escócia e o festival escocês já existia há mais de uma década. Quando conheci a ideia e decidi ir em frente, a primeira coisa que fiz foi voar para Glasgow para ter uma reunião na ‘Mental Health Foundation’, com o curador, na altura o Richard Varden, que entretanto regressou ao Canadá, e com a Gail Aldam. Mas uma conversa muito tranquila, a dizer: "adorei isto, é brutal o que vocês estão a fazer, juntar cultura e cinema para a promoção da saúde mental, eu estou apaixonadíssima por isto". O festival chamava-se ‘Scotland's Mental Health Arts and Film Festival’, mas agora deixaram cair a parte do ‘Film Festival’. E sim, fui muito inspirada por eles. Na altura eu até queria que fosse uma parceria. A minha primeira ideia foi que o Mental fosse uma extensão, mas eles declinaram porque teriam de implementar muitas estratégias de controlo de processos. Tenho muito orgulho da inspiração e sou honesta para com isso, a própria Gail já cá esteve, mas não podia estar mais distanciado hoje: o nosso Festival Mental tem ADN português a 100% neste momento. Eles foram-se focando mais na doença mental, na integração de doentes, e com projetos com doença. ‘Disabilities’, em inglês, enquadra muita coisa. Nós aqui, em termos de terminologia, temos o produto fracionado. Só para dar um exemplo, a Coordenação Nacional de Saúde Mental (CNSM) não tem a área das adições. É a Divisão de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (DICAD) agora que tem. Portanto, quando nós tocamos na área das adições dentro do festival tem de ter uma categoria própria, dotação própria, orçamento, autonomia e nada a ver com a CNSM.
IFN: Então e a programação, como é que funciona de ano para ano?
ACP: Todos os anos há temas no festival, dois ou três. Todos menos este ano, porque este ano fizemos 10 anos, e este ano festejámos. Fizemos algumas alterações a nível dos horários, mas mantivemos um protocolo não explicitamente pedagógico, em que a curadoria da Mostra Internacional de Curtas Metragens – com o Dinis Costa – e as pessoas que estiveram na curadoria das Longas, escolheram um bloco, que teve um tema predominante. Nós não falamos de temas só porque é um tema, tem de estar ligado a um filme, então isso já faz as mesas redondas, as nossas M-Talks. A M-Talk é antes do filme, para elucidar as pessoas sobre o tema e depois vão ver o filme já com o ‘mindset’, já com a cabeça aberta: "OK, era isto que estavam a dizer, OK, faz sentido esta cena". Aí estamos a quebrar estigma. É toda uma estrutura, de certa forma, porque existe esta preocupação em preparar a pessoa. Depois há a apresentação do testemunho, e depois há a discussão de como é que as coisas realmente se passam. O ano passado foi a guerra e conflito e foi o ‘ciberbullying’ também. Porquê? Porque nós já atravessámos praticamente tudo o que são as, entre aspas, "doenças mentais do grande público em geral". Nos últimos anos temos desviado também bastante para a área das ciências sociais e humanas, porque faz sentido ter mais coisas nessas áreas, e não focar sempre só na ansiedade, na depressão, na demência, no ‘burnout’, o FOMO, ciberdependência, alcoolismo, tudo isto, acho que escutámos tudo e então começámos a abrir para outras coisas.
IFN: Já agora que falou em ciências, eu li uma entrevista sua em 2018 onde falava da relevância científica do evento. Pergunto se existe alguma literatura científica a ser produzida ou apresentada durante o festival?
ACP: A relevância científica tem a ver com o facto de todas as pessoas que ali estão e tudo aquilo que está a ouvir, é certo, é validado pela própria Coordenação Nacional das Políticas de Saúde Mental. Através do nosso canal, pode ter a certeza que tudo o que lá vir, é serviço público. É através do facto das pessoas convidadas, dos oradores, terem uma profissão associada aos temas. E é a atitude de uma profissão. Nós queremos mesmo firmemente destacar-nos do que no pós-pandemia começou a acontecer, por exemplo, com as redes sociais e com a proliferação de falar mal de saúde mental. Falar muito não é falar bem. Se no início em 2017 nós queríamos falar, porque ninguém falava, a partir da pandemia sabemos que se começou a falar muito mais de saúde mental. E nós observávamos: "boa, mas e isto tem servido para alguma coisa?". Até que resvalou. Rapidamente. Qualquer pessoa que fosse figura pública a falar disto... É uma loucura! Que validação científica têm essas pessoas para falar de saúde mental? É nesse aspeto que eu quero dizer validação científica. Quem quiser, logo à noite, se se está a sentir mais ansiosa ou qualquer coisa, vai ao canal do Festival Mental e procura uma M-Talk sobre a ansiedade. Tenho a certeza absoluta de que o que vai ouvir é cientificamente válido.
IFN: Nessa mesma entrevista, e passo a citar, disse também: "além de que a associação entre criatividade e saúde mental é mais do que reconhecida. No entanto, não é aplicada. Especialmente em Portugal". No Reino Unido por exemplo, existem as Receitas Sociais, já há médicos a receitar as pessoas irem a uma galeria de arte ou, por exemplo, a fazer uma caminhada na natureza. Em Portugal eu não conheço absolutamente instância nenhuma. Antes, pelo contrário, é ainda tudo muito à base da medicação. Para quando é que acha que se poderia pensar que o sistema vai começar a ver, a reconhecer verdadeiramente a associação entre criatividade e saúde mental, e o que é que está a acontecer nesse sentido em Portugal?
ACP: ‘Que las hay, hay!’ Isso está a acontecer. Agora, a pergunta não é essa. A pergunta é quando é que oficialmente, em termos de Ministério, isso será validado. Eu acho que há uma geração de psiquiatras no ativo que quando desaparecer pode ser que haja outra visão. Está a haver uma certa resistência para com esse tipo de coisas, quer seja a criatividade ou a natureza. Obviamente que o divórcio com a natureza está-nos a matar. E nós estamos a matar a natureza. Portanto, isto está tudo errado. E cada vez pior. Isto é um tema – a eco ansiedade – que está a matar jovens pelo suicídio de uma forma brutal. As estatísticas… Ninguém fala disto. Dever-se-ia falar quando há cheias e incêndios em Leiria, porque é que isto está a acontecer? Não é só dar a notícia de que está o incêndio. É o porquê também e não, não estou a falar de se foi fogo-posto. O que temos de perceber é o que é que está a mudar no mundo, porque estas coisas são fenómenos a acontecer no nosso dia-a-dia. Não se dá uma notícia destas sem aproveitar e explicar porquê!? Porque é que há as alterações climáticas? Tem que se aproveitar para informar: consumismo, capitalismo, tudo mais, mais, mais... Isso está tudo a destruir-nos e isto tem tudo a ver com saúde mental: absolutamente tudo.
E vou incluir aqui também os psicadélicos. Também ainda ninguém está a falar ou apostar nisso. Já há países a avançar de forma controlada, médica e terapêutica, porque há muita coisa à volta dos psicadélicos que está mais do que provado que ajuda a doença mental. A doença mental mesmo. E eu trabalho nas adições! Podia ser a primeira a dizer ‘ui, não’. Mas não. Portanto, é esperar. Só que, as pessoas quando estão em determinadas posições, começam a virar: são médicos, mas começam a transformar-se em políticos também. Portanto, que ‘las hay, las hay’, mas no sentido que isto acabará por ser feito, mas acho que vai demorar muito tempo.
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