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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Mark Bradford, Ágora. Vista da instalação, Fundação de Serralves - Museu de Arte Contemporânea. © Filipe Braga


Mark Bradford, Ágora. Vista da instalação, Fundação de Serralves - Museu de Arte Contemporânea. © Filipe Braga


Mark Bradford, Ágora. Vista da instalação, Fundação de Serralves - Museu de Arte Contemporânea. © Filipe Braga


Mark Bradford, 2019. © Mark Bradford / Fotografia: Sim Canetty-Clarke. Cortesia do artista e Hauser & Wirth

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ARQUIVO:


MARK BRADFORD

ÁGORA




MUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA
Rua D. João de Castro, 210
4150-417 Porto

26 NOV - 19 JUN 2022

Mark Bradford, para além da pintura

 

 

To accept one’s past - one’s history - is not the same thing as drowning in it;
it is learning how to use it.

James Baldwin, The Fire Next Time

 

 

 

Mark Bradford (Los Angeles, 1961) tem vindo a afirmar-se enquanto um dos artistas mais relevantes de hoje. Tendo já exposto em algumas das maiores instituições culturais à escala mundial, inaugura, agora, uma nova exposição no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, com curadoria de Philippe Vergne. Bradford é um dos nomes que melhor definem a pintura das últimas duas décadas, prática cujas formas e possibilidades plásticas já se coadunam com as amplas heterogeneidade e pluralidade artísticas contemporâneas. A obra do artista não só é vanguardista e impressionante a nível estético, formal, visual, perceptivo e experiencial, como também o seu conteúdo e temáticas a situam no centro da atualidade social e política.

Com efeito, Bradford foi distinguido pela Time Magazine como uma das 100 personalidades mais influentes de 2021. Como a revista americana assinala, o artista trata as principais crises que marcam a sociedade e o espaço público contemporâneos, caso como a epidemia da SIDA, os refugiados, ou as grandes quebras do mercado capitalista. Mais recentemente, a sua preocupação tende, sobretudo, para as minorias, o que, no seu trabalho, se reflete em temas tais como a identidade queer e homossexual e o racismo sistémico, sobretudo nos Estados Unidos da América. No último ano, Bradford tem-se debruçado, também, sobre a atual pandemia, com especial atenção às repercussões do isolamento a nível psicológico, tais como a depressão e a violência.

Bradford é, ainda, conhecido por uma dedicada ação filantrópica, da qual se destaca a criação de programas de suporte a jovens de contextos desfavorecidos. Procura incentivar a redefinição das estruturas sociais e a distribuição do poder na sociedade, considerando que, para tal, é fundamental aproximar a comunidade da arte. Nesse sentido, incita ao diálogo e à discussão nas comunidades, bem como entre estas e as instituições culturais. Tal discurso político assertivo expressa-se sob a forma de uma valiosa linguagem pictórica abstrata, como se testemunha na sua recente exposição em Serralves.

Intitulada Ágora, a mostra não só se dirige ao presente, ao agora, como recupera o conceito grego original de espaço comum de ação e de discussão de assuntos do domínio público. Aliás, é na Grécia que se situa grande parte da inspiração criativa de Bradford, mais concretamente, na mitologia da Antiguidade. Do conjunto de trabalhos que neste momento se apresenta, uma série de pinturas são inspiradas em Cérbero, o cão de três cabeças que guarda a entrada para o Inferno. Outras obras, partem de uma narrativa da Idade Média, A caça ao Unicórnio, ilustrada em inúmeras tapeçarias medievais. A época medieval é evocada como metáfora de tensões e conflitos sociais atuais, nomeadamente entre a peste negra e a presente pandemia.

A representação da sociedade e do quotidiano é também expressa a nível material, pois o artista compreende que todos os materiais e técnicas estão pautados por um significado que antecede o seu aproveitamento artístico. Daqui emerge uma plasticidade variada, desenvolvida num notável progresso de experimentação formal. Apesar da utilização do papel ser contínua, e já definidora da sua obra, a mesma tem vindo a desenvolver-se. Se as primeiras experimentações foram com o tipo de papel utilizado no cabeleireiro da sua mãe, seguiu-se o uso de outros pequenos formatos de materialidade translúcida e, depois, livros de banda desenhada e mapas e ainda, mais recentemente, grandes formatos, como outdoors, anúncios publicitários e cartazes de cinema. O papel é, por certo, o seu suporte de escolha, pois permite a sua sobreposição em múltiplas layers, as quais, por fim, rasga parcialmente para, de novo, as revelar. Como nos explica, como que numa metáfora para a vida, “mesmo cobrindo as coisas, nunca as apagamos, elas continuam lá”.

O resultado deste sublime trabalho artístico, agora revelado por uma exímia curadoria, é uma linha estética coesa, sólida e singular, embora desdobrada num conjunto amplo e diversificado. Se, na primeira sala, com o conjunto de obras A caça ao Unicórnio, encontramos a “sala das tapeçarias”, como indica Vergne, na segunda, temos a “sala dos mapas”. Ora, tal como os mapas se tratam de elementos comuns a todos nós, neles contendo o mundo, a partir deles se constroem The Quarantine Paintings. Tais pinturas dissociam-se de um lugar ou tempo concretos e tratam a abstração da vida individual por relação à social, duas esferas que, no contexto pandémico, se tornaram ambíguas, tão entrecruzadas quanto dissociadas. A série foi desenvolvida durante o período de isolamento do artista, no seu estúdio em Los Angeles, cidade que é também palco de um trabalho distinto, Dancing in the Street (2019), instalação de vídeo que apresenta outro tipo de tecido, o urbano. Outras peças distribuem-se ao longo da exposição, sendo que, enquanto um todo, motivam um forte impacto visual e perceptivo. Trata-se, pois, de um artista que nos inquieta e agita de modo invulgar, com uma rara capacidade de a todos interpelar. A obra de Bradford é, sem dúvida, tanto múltipla e única, quanto universal e atemporal.

Ágora é a primeira exposição de Mark Bradford em Portugal, sendo comissariada por Phillipe Vergne, com a valiosa assistência de Filipa Loureiro. Inaugurada no passado dia 26 de novembro, encontra-se passível de ser visitada até ao dia 19 de junho de 2022.

 

 

Constança Babo
É doutoranda em Arte dos Média na Universidade Lusófona do Porto e bolseira da FCT, tendo como área de investigação o objeto artístico dos novos média e os seus modelos expositivos. É mestre em Estudos Artísticos - Teoria e Crítica de Arte pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto e licenciada em Artes Visuais - Fotografia pela Escola Superior Artística do Porto. Tem publicado artigos científicos e textos críticos de arte.

 

 



CONSTANÇA BABO