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Diante dos olhos está um copo:
Até meio encontra-se preenchido com um líquido verde. Seguimos a experiência descrita no ponto 80 do livro Teoria das Cores (Zur Farbenlehren), de Johann Wolfgang von Goethe, com o intuito de a replicar o efeito das “sombras coloridas”. Neste gesto de revisitar e reproduzir as experiências do livro, surgiu a ideia de procurar igualar os resultados obtidos por Goethe e propor um diálogo entre arte e ciência, em que experimentação serviria de ponte entre a perceção sensível e a investigação empírica.
O livro Teoria das Cores expõe o desejo de Goethe em compreender o fenómeno da luz e a manifestação das cores. Nesta obra – composta por três volumes: a Didática, a Polémica e a Histórica –, Goethe questiona o modelo científico de Newton e propõe uma abordagem de estudo e compreensão do fenómeno que privilegie a experiência e a perceção. Esta obra de Goethe foi mal recebida pela comunidade científica aquando da sua publicação. Um dos pontos de discórdia diz respeito ao confronto com o modelo científico promovido por Newton e os resultados das suas experiências em torno da propagação da luz branca publicados no livro Opticks.
Em Opticks, Newton descreve detalhadamente como a luz branca do sol, ao atravessar um prisma, numa câmara escura, decompõem-se no espectro visível de cores, seguindo uma sequência ordenada: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul e violeta. Newton considera a cor uma propriedade intrínseca da luz – cada cor tem um diferente ângulo de refração na superfície de separação entre o ar e a face do prisma. Esta experiência de Newton estabeleceu a base da física moderna por demonstrar que o comprimento de onda (ou da frequência) pode ser mensurável. Descreveu, no seu livro, a posição dos prismas e as distâncias dos elementos para que a experiência pudesse ser replicada e o espectro visível da cor revelado.
Goethe, porém, ao replicar as experiências de Opticks não viu o mesmo que Newton. Concluiu então que a experiência estaria errada. Em Goethe, as cores não são o resultado da decomposição da luz branca, emergem da interação entre luz e sombra, especialmente nas suas zonas de transição, nos "espaços-fronteira" – a que classificou de "bordos" e "limites”. Considera as cores como "half-lights, as half-shadows" por atribuir à sombra o valor de fenómeno oposto à luz e não consequência da interação da luz com a matéria. A manifestação da cor em Goethe depende da quantidade de luz derramada sobre uma superfície, do posicionamento do observador e da sua "intuição primeira".
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Círculo cromático de Goethe em Theory of Colours
Entre a Física e a Fisiologia para a manifestação da cor
Com a descoberta do espectro não visível da radiação da luz do sol – no início do século XIX ao se encontrar a frequência junto à do vermelho (o infravermelho) –, consolida-se a intuição de Newton e fica evidente que a cor detetada pelo olho humano é uma pequena parte do espectro eletromagnético, em que as diferentes cores correspondem a diferentes comprimentos de onda (ou de frequência) das ondas eletromagnéticas. Quando a luz branca atravessa um prisma, os diferentes comprimentos de onda são refratados em ângulos ligeiramente distintos, separando-se no espetro que Newton observou.
Contudo, cem anos após a publicação de Opticks, Goethe insiste num outro modelo para o estudo da luz, não se focando apenas nos fenómenos físicos, mas introduzindo a importância das "cores fisiológicas" – aquelas que "pertencem ao olho". O fenómeno do aparecimento das cores através de um meio prismático, pode ser observado objetivamente, seguindo as leis da natureza, e subjetivamente, pela perceção das cores conforme surgem à vista.
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Secção lateral do olho humano, ilustração © Joana Bruno
As conclusões sobre a fisiologia do olhar mostram-se em linha com o que atualmente se percebe da mecânica da visão. A retina humana possui células fotorreceptoras (cones e bastonetes) sensíveis a diferentes comprimentos de onda de luz: sensível ao azul, ao verde e ao vermelho. Os olhos não são o ponto de chegada. A viagem é bem mais longa. A receção de estímulos, provocados pelo encontro entre luz e matéria, é convertida em sinais elétricos que são transmitidos ao córtex visual, podendo ser aqui o derradeiro local para a descodificação da imagem ou da cor.
A combinação de sinais dos três tipos de cones permite ao cérebro construir a amplitude de cores que vemos. O sistema RGB, fundamental para televisores e computadores, é um reconhecimento prático desta compreensão da perceção da cor, espoletada por Teoria das Cores.
A visão da cor é um processo complexo. Não existe uma só disciplina para a estudar, analisar, interpretar. Não pertence à física, à química, às artes, nem à antropologia ou neurociência. A luz é matéria interdisciplinar e transdisciplinar. Ver cores é um processo em constante devir.
A Morfologia de Goethe e a Performance
Teoria das Cores de Goethe não é um manual de física no sentido moderno, mas uma extensão dos conceitos e do pensamento de Goethe, tratando do desenvolvimento das formas, da Morfologia – como as formas surgem, transformam-se e manifestam-se. Maria Filomena Molder em O Pensamento Morfológico de Goethe, destaca que a morfologia goethiana explora "o jogo entre o visível e o invisível, que constitui a estruturação viva de uma forma". É uma busca pelo "princípio mais elevado" ou fenómeno arquétipo. A cor, neste contexto, é uma manifestação em constante devir que emerge da polaridade fundamental entre luz e sombra, entre "cima e baixo, antes e depois", onde os limites e as "manifestações aparecem".
É nesta exploração da morfologia de Goethe que a performance-instalação Quarto Escuro de Goethe encontra a sua materialização artística. O processo de criação teve como principal objetivo explorar a dinâmica visível/invisível, o esconder-se e o revelar-se e desta forma desenvolvermos uma dramaturgia do espalhamento da luz, em que a luz passa a sua função de iluminação de cena e é o elemento de tensão, simultaneamente revelando e ocultando a matéria.
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Beatriz Boleto e Gonçalo Silva em Quarto Escuro de Goethe, de Eunice Gonçalves Duarte
Os corpos em cena formam um coro em diálogo metamorfoseado com o espaço, a luz e o público. Os performers (Beatriz Boleto e Gonçalo Silva), através dos seus movimentos e posicionamentos, criam e desfazem formas, projetam sombras, interagem com a luz dispersa e refletida, transformando o espaço e a perceção do público. Os seus corpos simulam os "bordos" e "limites" goethianos, as fronteiras onde a cor e a forma emergem ou se dissolvem.
Ao se manipular a luz para revelar ou ocultar as formas, a performance-instalação convida o público a construir múltiplos significados que vão além das narrativas lineares da dramaturgia da performance. O ambiente sonoro de Nick Rothwell cria diálogos com os performers, enquanto intensifica a imersão sensorial, por revelar imagens e cores de som, não subordinadas ao que é mostrado. No Quarto Escuro de Goethe, luz e som envolvem-se em criar a experiência estética além do estritamente visual, sublinhando a natureza holística da perceção.
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Beatriz Boleto e Gonçalo Silva em Quarto Escuro de Goethe, de Eunice Gonçalves Duarte
O Observador Singular e a singularidade do fenómeno
Em Teoria das Cores é acentuado o argumentou de que a cor é uma experiência que surge da interação entre a luz, o objeto e o olho do observador, moldada por aspetos fisiológicos. A subjetividade percetual e sensorial que a performance explora, juntamente com a variação de posicionamento, transição e metamorfose, amplifica esta ideia: a compreensão do mundo (e das cores) é construída numa relação dinâmica e morfológica.
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Beatriz Boleto e Gonçalo Silva em Quarto Escuro de Goethe, de Eunice Gonçalves Duarte
A performance-instalação Quarto Escuro de Goethe realça a unicidade da experiência performativa, onde cada observação é singular. A dificuldade em replicar as experiências de Goethe, como tentado no início deste processo criativo, reside neste ponto de impossibilidade de replicação das mesmas condições em que a experiência foi feita, logo, os resultados não podem ser semelhantes aos descritos no livro.
Em contextos do método científico, o não se conseguir replicar uma experiência pode ser uma limitação incontornável. Contudo, na arte e, em particular, na performance, é a matéria com que se constrói a criação sem se perder a investigação empírica, a experimentação e a observação. Haverá espaço para um diálogo entre arte e ciência, sem que arte se torne instrumento de comunicação da ciência? Pode-se, à semelhança de Goethe, estudar um fenómeno natural, como a luz, partindo de uma perspetiva da arte?
Goethe esboça o dicionário de uma linguagem em que o olho se liga à coisa através da experiência intuitiva. A experiência é o meio que permite reconhecer a coisa (mesmo não sabendo nomeá-la) por se colocar na pele dela, revelando-a, tornando-a visível. Conjuga-se aqui a interação circular entre interior e exterior; a referência da coisa gera contornos vindos do imaginário e da parte visível, só depois se desenham as linhas do que a coisa poderá tornar-se. O contrário também é possível. É um movimento circular entre dentro/fora ou fora/dentro.
Maria Filomena Molder propõe que Teoria das Cores restitui a chave de acesso à linguagem da natureza cuja gramática se constrói com o olhar atento, disposto a colocar-se no lugar da coisa e a perceber que as suas manifestações se expressam além dos limites da razão humana – podendo até ser inacessível. Esta proposta é uma alternativa ao método científico que se caracterizou no século XIX pela catalogação de coisas e fenómenos. Ao se circundarem as coisas a uma terminologia revela-se apenas aquilo que já é percebido e não o que as coisas nos querem mostrar.
A singularidade de cada performance, a importância do lugar do observador (tanto dos performers, como do público) e a exploração das polaridades luz-sombra e visível-invisível, introduzem a proposta da experiência de um fenómeno (observação de fenómenos baseados na experimentação, no sentir) como forma de pesquisa empírica. Quarto Escuro de Goethe incentiva o diálogo entre arte e ciência, desafiando a premissa de que os fenómenos naturais podem ser plenamente conhecidos e replicáveis. Sugerimos que a compreensão desse fenómeno surge da variação de posicionamento, transição e metamorfose, permitindo um olhar profundo sobre as suas partes e sobre a totalidade em constante devir.
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Eunice Gonçalves Duarte é doutoranda em Estudos Artísticos, FLUC. Graduada em Teatro Contemporâneo pela University College, Dublin. O seu trabalho centra-se na investigação artística sobre o cruzamento das artes performativas com a tecnologia low tech e na construção de instalações artísticas que favoreçam a experiência sensorial da performance. Tem apresentado o seu trabalho artístico sobretudo na Europa, mas também nos Estados Unidos e México.
Benilde Costa é docente de Física na Universidade de Coimbra. Com quase 40 anos de experiência em ensino e investigação na UC, especializou-se em Física da Matéria Condensada, nomeadamente em materiais nanoestruturados, óxidos e minerais, bem como em Património Cultural, com foco em cerâmica e pintura. Para além do seu trabalho científico, está empenhada em atividades de divulgação, promovendo a ciência na sociedade através de seminários e workshops.
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Performance-Instalação: 12 e 13 de março das 17h às 20h (em loop de 20m) no Goethe-Institut Lisboa
Visitas à Instalação: 12 e 13 de março das 10h às 16h
Gravação de podcast com Vitor Cardoso ,"Cores Físicas": 20 de março às 18h30
Gravação de podcast com Maria Filomena, "Efeito da Cor Associado a Valores Morais": 9 de abril às 19h
Mais informação sobre o projecto: Quarto Escuro de Goethe