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HABITAR A CONTRADIÇÃO - CORPO E ESPAÇO EM ENERGIA CONTÃNUA. CARLOS BUNGA NO CAMFILIPA BOSSUET2026-01-14
Ao Habitar a Contradição foi possível ver os maquinários, tubos de ensaio, colunas e arestas do Centro de Arte Moderna (CAM). A exposição incorpora as continuidades nomeadas por Casa, Bosque, Nómadas, Maternidade, Casa nº17 e Convite. Uma das primeiras chamadas à exposição foi com a obra A Minha Primeira Casa Foi Uma Mulher, 1975 [2018].Trata-se de um desenho de um corpo: a cabeça representada por uma kubata, mãos e braços descansando sobre uma barriga grávida. Desenhada a lápis e tinta sobre pedaços de papel vegetal colados com fita adesiva, a figura existe em camadas. Nenhuma camada é central. O corpo constitui-se em tempos diferentes, que podem combater entre si, identificar-se, recuar ou unificar-se. Ainda em A Minha Primeira Casa Foi Uma Mulher, 1975 [2018], endereçado na zona do ventre, um selo, representado pela fisionomia de um corpo aparentemente na lavra, com o título “Portugal Colonial”. O título do selo coloca em tensão aquilo que se vê e aquilo que se sabe. Não é possível identificar em que camada o selo se encontra, mas as linhas que compõem o corpo grávido existem perante essa realidade aberta às interpretações que o olhar dita. A visita para a comunicação social leva-nos ao jardim do CAM. Em solo cultivado por Calouste Sarkis Gulbenkian – um imigrante – encontra-se a obra Beijódromo. Bunga descreve-a como “um espaço para namorar, para amar, estar juntos, para a empatia”. “Num mundo polarizado e digital”, diz o artista, “é importante aprender a estarmos juntos”. É uma peça em pedra sedimentada, anterior ao regresso de Bunga a Portugal para a realização da exposição. O nome evoca imediatamente a vontade de levar alguém, levar-se a si próprio, disponibilizar o próprio tempo para observar e sentir. A natureza é tudo isso. As simbologias estão também no modo como se sente e como se convive. Por este jardim passa também o remanescente da quinta da família Eugénio de Almeida. Bunga incorpora no seu discurso o contexto histórico do terreno que pisa, com a memória da existência de uma feira popular, um jardim zoológico e da influência da migração.
Quando o espaço se aproxima As cadeiras espalhadas pelo jardim – usadas por quem lê, conversa ou apenas frui o espaço – tornam-se parte do objetivo da exposição: estar aberto ao que nos une.?O artista reconhece estas dimensões e transforma as cadeiras verdes do jardim em elemento artístico, trazendo-as para dentro. Desta dança de cadeiras, surge o elemento vivo destas movimentações que evocam o museu como casa que acolhe, espaço de vivências e reflexões: as pessoas. Logo à entrada do edifício do CAM – a nave – o espaço de passagem obrigatória que entre muitos motivos, tais como a arquitetura que traz a luz do jardim e interliga os vários locais de passagem, convoca o espírito numa desconstrução permanente da fronteira entre interior e exterior. É também por isso que a nave é tantas vezes requisitada pelos artistas convidados. A exposição incorpora desde o balcão de informações/bilheteira ao restaurante do CAM. Com o reconhecimento do papel social de cada elemento, Bunga expõe mobiliário doméstico – mesas, candeeiros, poltronas, tábua de engomar, escadote, cadeiras, bancos, armários e tapetes. Os objetos por vezes empilhados, com sobreposições que criam caixas de Pandora que desenvolvem novos caminhos, coexistem com colunas de cartão que parecem vir do invisível – pela forma como recusam limites puramente estéticos e utilitários. Estes objetos parecem trazer a materialização dos sentidos e das memórias presentes no mobiliário, que também sobrevive no backstage da fundação.
Casa (2022-25), Carlos Bunga (pormenor) - Habitar a Contradição, FCG. @ Filipa Bossuet
A técnica de intervenção de Bunga pintando o mobiliário – que já foi uniforme e/ou que é uniforme – cria camadas craqueladas e rachadas. Marcam a passagem do tempo e revelam vulnerabilidade. Um movimento também eternizado pelos filmes que são projetados em duas televisões sobre o histórico Ballet Gulbenkian, chamando a atenção o trabalho de Madalena Azeredo Perdigão, criadora do departamento de música e de ballet da Fundação Gulbenkian; e Benvindo Fonseca enquanto um dos bailarinos mais emblemáticos, pensando, também, no contexto em que se vive. Ao longo da exposição é possível observar os gestos de Trisha Brown, no filme Water Motor, realizado por Babette Magolte. Percebe-se que a dança está ao nível da música no processo criativo de muitos artistas. Para muitos, a música, o movimento corporal, é essencial, imprescindível e convoca a algo que vai para além da inspiração ou do estado de espírito.
Aqui, onde a matéria se suspende para deixar o gesto respirar “É um movimento de liberdade, de rebeldia, um auto de grito” declara Carlos Bunga. Toda a exposição é uma performance. Anda-se, gira-se. O catálogo da exposição é um exemplo da potencialidade de fragmentação da exposição.
Antes de seguir adiante Carlos Bunga reconhece a sua mente como o seu atelier. O espaço expositivo é o seu atelier – trabalha in situ. A presença de outros artistas e das suas obras traz uma riqueza imensurável à exposição. Carrie Mae, uma artista americana que tem a comunicação como um dos elementos da sua criação artística, imagina nas suas palestras, para falar através do seu trabalho, como é radiante entender que os artistas estão conectados. Atenção a isso não é ingenuidade, é reconhecer simbolismos fortes: nada é por acaso e a arte é sempre um espaço de imaginação intencionada.
The Place Where We Daily Abandon the World (2021), Carlos Bunga - Habitar a Contradição, FCG. @ Filipa Bossuet
Assim, encontramos a oportunidade de conhecer Túlia Saldanha na obra Sala de Descontração [1975], ao mesmo tempo que Bunga apresenta The Place Where We Daily Abandon the World [2021], que ecoa com Picnique [1972–1977], também de Túlia. Há também Estudos para Trajecto de um Corpo [1976–77] de Alberto Carneiro; Tela Habitada [1976] de Helena Almeida; e Metamorphose [2000] de Bunga — obras em que o corpo é o próprio elemento artístico.
Plegaria Muda (2008–10), Doris Salcedo (pormenor) - Habitar a Contradição, FCG. @ Filipa Bossuet
Bunga apresenta ainda obras da sua juventude, criadas dentro e fora da Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha.
Todas as Exposições Verdadeiramente Intencionadas São Coletivas A partir de quem escreve, surge um questionamento sobre a palavra Nómada, usada por Bunga como figura do futuro — fora das convencionalidades dos termos migrante ou exilado. Questiona-se, porém, como o contexto português — da figura romantizada do “hippie” aos recentes ódios dirigidos aos nómadas digitais e às políticas associadas — irá receber as esculturas espalhadas entre o interior e o exterior. São esculturas que nascem de desenhos do artista. O impacto da humanidade destas esculturas mostra, uma vez mais, que Carlos Bunga sabe o que faz. A sua prática artística é transversal, transnacional e ancestral. Bunga explica que estes são corpos de criança: seres em crescimento, ainda não formados. A sua mãe é homenageada em toda a exposição. A mãe trouxe consigo um saco de fotografias de entes queridos, que Bunga agora partilha na casa Maternidade [2001], que engloba a grande casa que é Habitar a Contradição, através da ampliação de fotografias da mãe.
Maternidade (2001), Carlos Bunga - Habitar a Contradição, FCG. @ Filipa Bossuet
Carlos Bunga descreve a mãe como uma Madonna contemporânea. Em Habitar a Contradição, o mulherismo é basilar. Bunga traz a ideia de exposição através da energia mais bonita da criação artística: a criação coletiva, tendo em conta todos os que fizeram para que tudo acontecesse. Carlos Bunga promete-nos que nada do que vimos em Habitar a Contradição permanecerá igual, assim o amor, a desconstrução, o contraditório, continuam.
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Filipa Bossuet |




































