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ARTES PERFORMATIVAS


O FUTURO EM MODO SILENCIOSO. SOBRE HUMANIDADE E TECNOLOGIA EM SILENT RUNNING (1972)

LIZ VAHIA

2022-08-01



 

Still do filme Silent Running (1972): Freeman Lowell (Bruce Dern) com dois dos drones, numa das estufas-cúpula.

 

 

Silent Running (1972) é um filme de ficção científica realizado por Douglas Trumbull, conhecido por ter sido o responsável pelos efeitos especiais de 2001 – A Space Odyssey (1968). A Cinemateca Portuguesa incluiu-o no seu recente ciclo “Revisitar os Grandes Géneros: A Ficção Científica [II parte]”, dedicado a propostas onde se intui um “discurso de autor” dentro do género.

Silent Running foi o primeiro filme de Douglas Trumbull e decorre num futuro em que a vida vegetal na Terra se encontra praticamente extinta, tendo sido preservadas várias espécies de plantas e animais em estufas em forma de cúpula que viajam agora acopladas a uma nave orbitando Saturno. Todo o filme decorre no interior da nave e nas estufas, tendo apenas como personagens os quatro tripulantes e três robots/drones ajudantes (Huey, Dewey e Louie). Entre esses tripulantes está Freeman Lowell, o botânico que cuida das plantas e dos animais, com vista a uma possível reflorestação da Terra, se isso for possível. A tripulação recebe, entretanto, ordens para fazer implodir as estufas e regressar com a nave, pois aquelas deixaram de ser uma prioridade. Após a implosão da maior parte das estufas, Lowell, que não aceita a decisão, assassina os seus colegas e desvia a nave do seu curso. Sozinho no espaço, na sua estufa preferida e tendo apenas os drones como companhia, Lowell ensina-os a jogar poker e a cuidar das plantas e dos animais. Quando outra nave se aproxima e Lowell percebe que desta vez não conseguirá escapar, ejecta a estufa com Dewey, o último drone sobrevivente, e auto-destrói a nave onde está, consigo lá dentro. Na última cena do filme do filme vemos Dewey com um regador de criança amachucado a regar uma planta, seguido de um plano geral da estufa-cúpula, qual pequeno planeta verde, à deriva no espaço.

 

Still do filme Silent Running (1972): Dewey rega uma planta.

 

Silent Running é um filme com assumidas preocupações ambientalistas, que curiosamente faz muito mais sentido hoje que em 1972, quando foi lançado. A chamada “ética ambiental” só viria a tomar consistência depois da crise ambiental dos anos 1970. O impacto do humano na Natureza só vai ter uma correspondência moral nessa altura e o desenvolvimento sustentável e as políticas ambientais são temas posteriores. Silent Running era uma espécie de virtual que esperava pela sua plena actualização, a imaginação de um futuro aparentemente longínquo, mas que falava ao agora.

 

Caspar David Friedrich, Caminhante sobre o mar de névoa (1818) e still do filme Silent Running (1972).

 

Quem quer que tenha visto o filme recorda certamente a cena final como uma imagem de um futuro para a “Terra” onde o humano está ausente. Há, no filme, um progressivo apagamento do humano, primeiro dos “outros” humanos, depois do “único” humano. No entanto, o filme mostra-nos que um “humano sem forma de humano” é possível. A proposta de Silent Running dá-nos um futuro que é uma extensão no espaço e no tempo de um sistema autopoiético, uma combinação equilibrada e interdependente entre tecnologia e natureza.

A narrativa do filme centra-se quase inteiramente na relação entre o botânico e os drones, uma relação não entre humano e máquina, mas entre entidades-sujeitos que estão juntas e participam da mesma força vital do espaço que habitam. Numa entrevista, o realizador Douglas Trumbull resume a história de Silent Running:

“I wanted to elaborate the story of that relationship [between Lowell and the drones] showing how the machines changed from simply doing their job to their anthropomorphization into real characters. I wanted to show what a dead end it is but also what a wonderful thing it is because of the output of emotion.” [1]

Há afecto e sentido de comunidade relacional e ambiental, uma ideia de pertença àquele ambiente que torna a eventualidade da sua destruição numa ideia impossível de pensar. Freeman Lowell (o “homem livre”, como o nome indica) aparece como um deus criador no seu jardim, preparando as suas criaturas para o mundo que lhes vai entregar. A velha humanidade, na figura de Freeman Lowell, capaz de acções tanto condenáveis como altruístas, implodiu e novos seres se levantam.

O “homem livre” é necessariamente um homem sozinho, que tem que devir outra coisa para continuar. Um outro “humano” e uma outra natureza se propõem em Silent Running, co-extensivas com a tecnologia, um organismo colectivo e interdependente. Um sistema horizontal que abarca o natural e o tecnológico, que habita os interstícios dessas categorias. Um sistema que questiona a tecnologia como horizonte evolutivo a partir do natural “original”, que nos faz sentir um elo vital dessa rede extensa de forças, matérias e tempos. Como afirma o realizador, “futurity does not necessarily denote inhumanity” [2].

 

Fotografias de rodagem onde se vêem os actores Mark Persons, como Dewey, e Cheryl Sparks, como Huey.

 

Revisitando fotografias da rodagem, há uma visualização da clara junção entre humano e não humano materializada nos drones que eram manipulados por actores amputados, cujos corpos se ajustavam a uma carapaça, completando-a e animando-a mecanicamente. A escolha de actores amputados foi uma escolha deliberada do realizador, que procurava “um humano que não tivesse a forma de humano”:

“The idea was to find a human being that you could deal with as an actor but their wouldn't be necessarily shaped like a human being. Why just put a big plastic or rubber suit over a man and say that's a robot? Do something that defies an audience’s capability to understand how it was done. We wanted to be totally non-Anthropomorphic in appearance. No face, no eyes, nothing that is glaring out, nothing that's necessarily symmetrical like a human being.” [3]

O actor Bruce Dern, que interpreta Freeman Lowell, numa entrevista sobre a sua experiência durante as filmagens, fala desta naturalidade na relação entre a sua personagem e os drones : “He's looking at a box…… has no eyes, no mouth, no ears and yet it's alive, and there's something that I respond to as an actor, as a human being, and as a character in the film” [4].

 

Fotografias de rodagem onde se vêem os actores Cheryl Sparks e Larry Whisenhunt como Huey e Louie, respectivamente.

 

Os drones em Silent Running não são cyborgs, não são corpos humanos “melhorados” (até porque o que é humano não se vê), são uma outra materialidade vital feita de homem e máquina em interdependência entre si e interconectada com o sistema dinâmico onde está: a vegetação precisa do drone para viver, o drone precisa da vegetação para existir, para se produzir a si próprio. São um verdadeiro “corpo-máquina” que incorpora, se alimenta e transforma o seu ambiente.

Se a ficção científica é uma simulação criativa, um campo de experimentação e potencialidades que faz emergir a ligação entre passado, presente e futuros possíveis, Silent Running dá-nos um futuro cada vez mais contemporâneo. E o futuro, pela sua capacidade de poder ser convocado no presente, oferece à arte um campo operacional onde a potencialidade de ruptura se liga ao mesmo tempo a uma ideia de produtividade e criatividade que usa o agora para a produção do que há de vir.

 

 


Liz Vahia
Licenciada em Antropologia, pela Universidade de Coimbra. Doutoranda no programa Filosofia da Ciência, Tecnologia, Arte e Sociedade da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

 


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Notas

[1] Douglas Trumbull em entrevista à revista Fantastic Films, edição de Augusto de 1978. Citado aqui.

[2] Douglas Trumbull em entrevista à revista Castle of Frankenstein (Nº #19). Citado aqui.

[3] Transcrição de entrevista a Douglas Trumbull em "The Making of 'Silent Running'", disponível aqui.

[4] Transcrição de entrevista a Bruce Dern em "The Making of 'Silent Running'", disponível aqui.

 

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SILENT RUNNING [O COSMONAUTA PERDIDO]
de Douglas Trumbull
Estados Unidos, 1972 - 89 min

 




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