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O STAND


21/07/2021

 

 

 

O Stand é um projecto de cariz artístico, iniciado em 2019, albergado num stand de automóveis na Penha de França. Aparece como um desejo de um grupo misto, com formação artística e para-artística diversificada e com uma abrangente e também diversificada experiência de mundo - que prefere não ser publicamente identificado, embora a sua identidade não seja um segredo - de criar a possibilidade de uma maior liberdade, potência, vivências e relações alternativas às que encontram, normativamente, no sistema artístico.


O texto que se apresenta resulta de uma conversa via video-chamada realizada em Fevereiro de 2021, onde as vozes do projecto O Stand se podem encontrar unificadas - e disformes.
 
 
Por Catarina Real

 
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CR: Podemos começar com a questão do anonimato ou a dinâmica da vossa identidade colectiva.
OS: Queremos que o projecto fale por si e que não seja apresentado pelas nossas biografias. Não somos um segredo; as pessoas que trabalham connosco e que visitam O Stand sabem quem somos. 
Sim, e também assinamos os nossos e-mails. [riso] Mas a ideia é não aparecer, ou nos sobrepormos ao Stand.
 
CR: Podem apresentar uma biografia colectiva.
OS: Já estamos quase a fazer um ano de actividade oficial (se contarmos a partir da primeira inauguração), já haveria material para isso. 
Existe muito trabalho invisível anterior a esse momento inaugural.
Lançámos a comunicação d'O Stand no dia 24 de Dezembro de 2019, no entanto já estávamos a trabalhar nele há mais tempo.
 
CR: O que é que tomam como “desfrute artístico”, que eu achei uma expressão - e também um propósito projectual - maravilhoso.
OS: Essa frase fica mesmo na cabeça das pessoas. Resulta mesmo!
O Stand vem de uma vontade de voltar a um lugar inicial do pensamento artístico. O lugar onde fazemos as coisas só pelo prazer de as fazer. Na nossa formação sentimos muito essa energia, esse gozo da produção artística, que é em parte inexplicável. O objectivo d'O Stand é permitir o regresso a esse sítio. O que obriga a que nos desliguemos, por exemplo, das necessidades do mercado de arte contemporânea, porque ele acaba por nos afastar dessa energia vital. 
Queremos nunca perder a liberdade para podermos fazer o que quisermos.
 
CR: Como reacção a algum cansaço?
OS: O lugar inicial que falo é o de começar a pensar e ter consciência que há um íman qualquer para quereres fazer certas coisas, embora não saibas porquê. Há qualquer coisa dentro de nós que nos diz isso.
A referência ao cansaço encontra o seu sentido também. Há um círculo que se rege por determinadas normas, normas essas que nós sentimos a necessidade de questionar, e de fazer de outra maneira, não respondendo a certas metodologias vigentes. Queremos ter uma construção mais genuína, não pensando necessariamente no efeito das coisas, mas por gostarmos de as fazer. Sem justificações. É o que procuramos.
 
CR: O desfrute é colectivo?; ou seja, há a inclusão do público nessa energia?
OS: Sim. Só tivemos uma inauguração pré-pandemia. Escolhemos o dispositivo inauguração por várias razões e não apenas por ocuparmos um espaço comercial que tem um funcionamento regular durante o resto dos dias. Quisemos assumir esse dispositivo como um elemento de celebração e festa. Para ser um encontro, mesmo!, para estarmos a desfrutar não só do projecto mas de nós mesmas: o público, a equipa, as artistas... Toda a gente. 
A primeira inauguração que tivemos foi mesmo uma grande festa.
Agora o desfrute é diferente, porque não o conseguimos exponenciar para essa dimensão festiva que tínhamos na cabeça, apesar de acharmos que o público ainda desfruta. 
Festas, pessoas... São até palavras que neste momento agonizam! São impossíveis agora.
Uma coisa muito interessante foi percebermos, após inauguração do projecto, que as pessoas já conheciam aquele stand de automóveis, com os seus néones verdes. E é também interessante compreender essa familiaridade e características marcantes do espaço. O efeito surpresa foi o de aparecer um projecto artístico ali, e nunca esperávamos ter tanta aderência na primeira inauguração. Agora o desfrute é outro, porque tem de ser outro. Já não há aquela boémia associada, mas não deixa de ser um momento para desfrutar. As exposições duram apenas o dia da inauguração. É muito interessante que o stand comece quando O Stand termina, e vice-versa. E pensarmos também que a exposição é um dia só e que quem estiver interessado tem de estar presente, como num happening.
Uma das coisas incríveis na primeira inauguração foi compreender o quanto as pessoas estão sedentas de sair das dinâmicas instituídas do white cube e de espaços estandardizados. Uma das coisas que mais me fascinou no projecto foi mesmo experienciar esta festa, apesar de agora não ser possível. Abrimos a porta de um espaço de um concessionário de automóveis para se criar esta narrativa paralela, um novo mundo de possibilidades. E isso, por mais que exista essa componente das restrições sociais, nunca vai deixar de ter este momento de experiência, que percebemos que as pessoas procuram também. O tipo de público que nos visita e nos procura vem de muitas áreas diferentes, de um circuito mais alargado que não apenas o do sistema artístico convencional. Perceber o quanto o nosso público é mesclado fascina-nos muito. Isso também caracteriza o nosso projecto e o porquê de o fazermos. 
 
CR: Vocês têm uma linguagem digital muito bem articulada. Pensaram em usá-la de uma outra forma - nestes tempos confinados - para além de documento de um projecto-em-presença?
OS: Pensámos muito nisso quando começou a pandemia. Tivemos uma inauguração adiada com o início do primeiro estado de emergência. E custou-nos imenso. Lembro-me de, na altura, falarmos muito nessa possibilidade. Rapidamente essa vontade de ter uma maior presença on-line se esvaneceu. Até consideramos a possibilidade do 3D, ou exposições em streaming, mas a direcção desse entusiasmo não se manteve muito tempo. 
Uma coisa que nos move muito é a experiência. O que nos dá o estímulo é existir esse evento físico em que possa haver o contacto directo entre peças, artistas e público, mesmo que limitado. Por isso essas primeiras intenções de adaptação nunca andaram avante, acompanhadas de algumas questões logísticas, e de recursos, obviamente. 
 
CR: E colocaram alguma hipótese de adaptação que não a do espaço virtual?, considerando o acesso à rua de O Stand.
OS: Sim. Pensou-se em fazer uma exposição com acesso apenas pela montra. Talvez ainda não tenhamos avançado para essa possibilidade, porque fecharemos assim que possível o primeiro ciclo da nossa programação (que era suposto ter tido a duração de seis meses, embora se tenha arrastado durante doze devido às circunstâncias). Os convites foram todos feitos com imensa antecedência, então os projectos já existem há muito tempo, estavam apenas à espera de poderem ser mostrados. Por isso ainda não houve o espaço de pensarmos como poderá O Stand existir, talvez essa adaptação possa acontecer numa nova temporada de exposições, se certos condicionamentos se mantiverem. 
 
CR: Falem-me mais sobre as edições de calendários.
OS: [muitos risos]
Estamos a gostar das tuas perguntas, Catarina. Somos movidos por uma vontade que nos faz apenas reflectir sobre o que acontece mais tarde, e esta é uma parte interessante dessa dinâmica. Os calendários surgiram da vontade de marcar o ano insólito que 2020 foi. Daí o desafio lançado a alguns artistas. Inicialmente lançámos uma linha de merchandising de objectos que podem estar associadas ao universo automóvel. Como os calendários. A edição [especial] dos calendários foi a continuação dessa linha, mas mais limitada e com convites feitos a artistas, para assinalar este ano que passou. 
Há um detalhe muito curioso também: houve um engano na produção dos calendários. Acho que o podemos assumir, porque há grandes ideias que surgem precisamente de erros e enganos. Os nossos calendários, parte do conjunto do merchandising, têm uma impressão d'O Stand. Houve um erro de produção e foram-nos entregues alguns em branco. Quando estávamos em quarentena, na primeira, surgiu a ideia de activar outras artistas fora do ciclo de exposições, e pensámos que os calendários seriam o lugar perfeito para o fazer. Ter um calendário de 2020 vai ser sempre diferente do que ter um calendário de outro ano qualquer, já nem importa se o usaste, foi 2020! Daí veio a vontade de propor às artistas uma intervenção em cada calendário, utilizando estes recursos que nos apareceram por engano. É uma variação diferente do que estávamos a fazer, e é um outro formato, dirigido à venda, mas foi tudo óptimo. 
 
CR: Falavas dos ciclos de programação... Li que querem fazer uma publicação deste primeiros seis meses que se tornaram um ano: há algum formato pensado para essa aparição?
OS: Será o que nos ocupará daqui para a frente. Tendo em conta o formato do projecto, é muito importante haver um registo publicado do que aconteceu. A publicação é importante para o futuro. Queremos que seja um objecto com que nos identifiquemos, e também com que as artistas se identifiquem, e temos-lhe muito carinho, por todo o projecto ter sido fruto de uma grande resistência por parte de todos. A publicação vai ser uma celebração, também, por termos conseguido.
A publicação é o que irá reunir todos os acontecimentos, então queremos que seja um objecto cuidado e pensado dentro desta dinâmica de comunicação do projecto. Haverá fotografias de exposição, textos de exposição, eventualmente comentários posteriores... E também alguns insights do processo por parte das artistas, imagens exclusivas…
 
CR: A minha curiosidade seria a de perceber como pensam documentar a energia que tanto referem.
OS: Pois, esse será o desafio. Neste momento estamos na parte da reunião de conteúdos. Integraremos uma parte textual associada ao relato de relações de pessoas com O Stand, fora do contexto artístico e da dimensão do texto curatorial. Um registo muito pessoal, para aproximar a experiência da arte contemporânea da vida real. 
 
CR: Uma questão final provocatória e bifurcada:
Interessa-vos o trabalho de negociação entre as duplas que convidam e também a tentativa de provocarem uma desindividualização. Daqui surgem-me dois pontos, que são, por um lado, a falta de espaço que, enquanto geração, temos para “florescer” - porque somos obrigados a estar sempre em relação e em reacção -, o que muitas vezes desemboca numa falta de identidade ou na falta de espaço para o processo de construção dessa identidade (será por isso que temos cenários artísticos mundiais muito homogeneizados?). E, por outro, o questionar-vos sobre o que entendem realmente por trabalho colectivo, considerando que propõe um one night stand de colectividade.
OS: Primeiro, a salvaguarda de que este modelo está associado ao primeiro ciclo, e não sabemos ainda que mudanças haverá no futuro. 
É de facto uma one night stand de colectividade - gostei dessa expressão -, no sentido expositivo, mas nunca é apenas uma noite. O processo é o de uma negociação muito mais extensa entre todas as partes - o colectivo do projecto e as duas artistas convidadas - e iniciada muito antes da apresentação pública. Há exposições em que as artistas trabalham mais em conjunto, e outras em que trabalham menos em conjunto. Interessou-me muito a primeira questão que colocas, e respondo-te com uma pergunta: será necessário encontrar essa individualidade?
 
CR: Exacto. As perguntas não são fechadas, nem carregam uma posição. 
Temos alguma resposta para a vossa pergunta, talvez, com o aumento generalizado da ansiedade. É resultado de uma falta de estruturação de sentido, numa leitura possível.
OS: Não acho que uma coisa possa ser lida como a outra. Talvez estejamos a falar de coisas distintas, porque é verdade que estamos sempre em estímulo e muitas vezes não temos tempo para construir essa individualidade que referes, mas de facto somos todos muito mais fortes se nos construirmos uns aos outros mutuamente. É mais essa a questão ao nos posicionarmos em conjunto, mesmo com posturas e posições diferentes. Sermos capazes de as discutir, para chegar a algum ponto, o que está muito dentro da noção de negociação que foi utilizada e apresentada na primeira temporada d'O Stand. Muitas vezes esses conflitos são também resultado de uma sociedade hetero-patriarcal-capitalista em que não te é permitido posicionares-te como pessoa, mas apenas te permite fazeres o teu caminho de carreira e de postura profissional expectável. O que sinto neste projecto é que podemos estar a trabalhar individualmente, mas quando nos colectivizamos, tornamo-nos sempre mais fortes. E podemos ter uma resposta muito mais interessante quanto ao que podemos ser, ou onde ambicionamos chegar. 
Também reparámos que quanto mais cada artista tinha a sua individualidade afirmada, melhor trabalhava em colectivo. Ao trabalhar em colectivo sentem-se muito os níveis de maturidade que temos e a forma como nos sentimos connosco. Se calhar não há, efectivamente, uma coisa sem a outra. Ao nível do trabalho artístico, a questão pode-se colocar olhando para outras áreas artísticas, como o teatro ou o cinema - dos quais admiro e invejo muito o carácter colectivo - e sempre me deixou um bocadinho triste essa colectividade não ter presença na produção plástica ou visual. A assinatura sobrepõe-se. E é interessante haver um desvincular dessas assinaturas, na óptica do projecto, como um espaço para possibilitar todas - e mais algumas - experiências. 
Todo o processo de pensarmos em duplas também passa por uma experiência pessoal de cada artista e dupla. Existe um crescimento pessoal, de conhecer melhor a outra pessoa, e isso é também bastante facilitador de hipóteses futuras. A junção de duplas improváveis também faz parte do gozo, do desfrute, de podermos compreender essas relações e resultados inesperados. 
 
CR: Há algum parâmetro para escolha das duplas?
OS: É intuitivo. Vem do conhecimento prático, claro, mas de feelings, sobretudo. 
 
CR: Como bons casamenteiros. 
OS: Sim. [risos] Casamentos a sério ainda não surgiram. 
É interessante referir-se que a questão da criação artística contemporânea está muito ligada à ligação umbilical - que não tem de ser quebrada - mas que podemos questionar. O próprio mercado de arte contemporânea deseja que as artistas trabalhem individualmente, porque há uma fragilidade - até desse ponto de vista mercantil - associada. É brutal pensares que isto acaba por ser uma teoria e um fundamento da economia cultural. Se pensarmos em quantos colectivos portugueses conhecemos na arte contemporânea... São muito poucos. Há algumas duplas assinaláveis, mas muito poucos grupos de trabalho colectivo. É complicado questionares as dinâmicas autorais e, por isso mesmo, é interessante fazê-lo. Como é óbvio não estamos interessadas em renovar um modelo para mantermos as duplas, os pares, mas foi uma parte relevante neste primeiro ciclo do projecto. Pensarmos o porquê de não ter uma maior presença colectiva na arte contemporânea portuguesa parece-me essencial. 
 
CR: Se juntam dois artistas, torna-se uma dupla, e não um colectivo.
OS: O colectivo acontece quando nós nos juntamos.  
Este assunto abre-nos várias possibilidades de conversa. Quanto ao sistema de ensino, por exemplo, e de que forma o pensamento do artista enquanto entidade individual está enraizado. Não é veiculado o pensamento de que uma turma já é um colectivo. 
 
CR: Depende também muito do que entendemos como colectivo. 
OS: Falando ainda sobre colectividade; nós somos um exemplo de colectivo. No entanto, somos, ao mesmo tempo, pertencentes a universos diferentes, embora próximos. Todos eles se concentram neste projecto de forma harmoniosa. O desafio futuro será o de nos juntarmos a pessoas de outras áreas, que tragam outras leituras de mundo. O resultado disso não terá de corresponder a uma peça, a uma exposição, com um título, uma nomenclatura... 
A potência da reunião de universos diferentes como vislumbre do futuro é a nossa assumpção de que o projecto está vivo e que não há entraves ao seu crescimento, como organismo vivo. É uma construção diária, e temos de estar conscientes dessa necessidade de mudar. Tentamos desestabilizar-nos também, uns aos outros, como propósito. Há momentos de abanão, de colocar tudo em questão, num processo em que mesmo entre os três temos de resolver as nossas tensões...
Há normas de conduta que temos de seguir nas profissões que exercemos, este projecto é o espaço para as questionarmos. 
 
 
 
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