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O ESTADO DA ARTE


Marlene Dumas, Waiting (for Meaning), 1988, óleo sobre tela, Kunsthalle zu Kiel, 50x70cm


Marlena Dumas, Charles Baudelaire (2020). Courtesia Marlene Dumas. Fotografia: Peter Cox, Eindhoven.


Marlene Dumas Conversations, vista do Musée d’Orsay. Fotografia: Sophie Crépy.


Marlene Dumas, Spleen de Paris, vista do Musée d’Orsay. Fotografia: Sophie Crépy.


Marlene Dumas, Lady of Uruk, 2020 óleo sobre tela, 130x110cm.

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Só podemos saudar a audácia de Marlene Dumas, que, no Musée d’Orsay (até 30 de janeiro) se confronta com o romantismo e o impressionismo. É preciso começar pela Sala dos Impressionistas no 5º andar, onde se organizam três "conversas". A mais comovente é sem dúvida aquela com o magnífico retrato da sua mulher morta por Monet, pintado na própria noite da sua morte (Monet confessou mais tarde a Clemenceau que estava um pouco envergonhado, de pintar em vez de rezar) onde um turbilhão confuso de linhas de cor em torno do rosto traduz o sentimento de tristeza desesperada do pintor, possuído por uma necessidade criativa que prevalece. A representação da mulher morta não é rara (podemos citar Hodler), mas Marlene Dumas abstrai-se disso, mostrando-nos um morto rígido, meio escondido pelo tecido, impessoal, não designado, que na verdade é Louis-Ferdinand Céline, a partir de uma fotografia (de Pierre Duverger, creio). Mas Dumas intitula esse quadro de A Morte do Autor, tema barthesiano que acrescenta uma complexidade indevida a esse confronto de cadáveres, que poderia sustentar-se por si só, apenas pelas suas próprias imagens, e não precisava dessa alusão pedante.

 

Marlene Dumas, The Death of the Author, 2003, óleo sobre tela, 40x50cm, colecção Julie van Leeuwen.

 

Mais interessante é a reflexão em torno da pintura dessa mulher negra nua, pernas pendentes, tombada exausta sobre uma cama, que foi colocada entre um Bonnard e um Toulouse Lautrec de formas similares, mas que, em Dumas, foi inspirada por uma fotografia de David Hamilton. O título, Esperando (por significado), não tem evidentemente nenhuma relação com a imagem oferecida, mas traduz ao invés a perplexidade da artista diante da pintura, e, portanto, a do espectador, "frustrada a expectativa de um significado derivado de uma imagem”. Quanto à conversa entre a Noite Estrelada de Van Gogh e a testa brilhante de Moshekwa, Dumas tem dificuldade em convencer.

Muito mais bem conseguida é a exposição no nível 2 na qual Marlene Dumas homenageia Baudelaire pelo seu bicentenário, primeiro com dois retratos (e também Jeanne Duval), em seguida ilustrando alguns dos seus poemas menos conhecidos (o brinquedo do pobre, o desespero da velha), pintando certos temas caros ao poeta (o rato, a garrafa, a vela). Nesta longa sala, no meio de uma vintena de pinturas de Dumas, é criada uma atmosfera baudelairiana, melancólica e sensual. Três grandes composições ilustram o acto artístico; intituladas a origem da pintura, o tempo e a quimera, e a feitura (The Making of), elas mostram o acto criativo ele mesmo, desenho de uma sombra ou modelagem de uma estátua.

No fim da sala, a Senhora de Uruk. Uruk é a cidade mesopotâmica onde, ao que parece, a escrita cuneiforme foi inventada por volta do 4º milénio a.C.; a Senhora de Uruk é uma estátua de pedra calcária e mármore de cerca de 3.300 a.C., uma das mais antigas representações de um rosto de mulher. São esses traços que Marlene Dumas retoma aqui para celebrar uma forma de beleza eterna, intemporal (Dumas também pintou Nefertiti). Que ligação com Baudelaire? Talvez a tonalidade baudelairiana desses versos da epopeia de Gilgamesh, o rei de Uruk desesperado com a morte do seu duplo Enkidu: "Meu deus, o dia brilha, resplandece na terra, para mim o dia é negro, a tristeza, a angústia, o desespero bem dentro de mim, o sofrimento envolve-me como um ser escolhido unicamente para lágrimas.” Um pretexto ténue, mas sagaz.

 

 

Marc Lenot
É desde 2005 autor do blog Lunettes Rouges, publicado pelo jornal Le Monde. Em 2009 obteve o grau de Mestre com uma dissertação sobre o fotógrafo checo Miroslav Tichý, e em 2016 doutorou-se pela Universidade de Paris com uma tese sobre fotografia experimental contemporânea. Membro da AICA, venceu em 2014 o Prémio de Crítica de Arte AICA França, pela sua apresentação do trabalho da artista franco-equatoriana Estefanía Peñafiel Loaiza.