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JOSÉ COSTA

CATARINA REAL


12/09/2021

 
 
 
 
José Costa (Barcelos, 1991) é um artista atípico, com uma maturidade muito superior à que o seu percurso e idade podem fazer prever. E, tal como o mais antigo dos dragões do Ciclo Terramar (Ursula K- Le Guin), parece não ter ou pertencer a um tempo: é extemporâneo ou tornou-se um  contemporâneo universal. A referência à ficção científica e ao tempo não são irrelevantes. É ao imaginário da ficção científica que José recorta possibilidade que invariavelmente resultam em objectos muito simples e cuja metáfora que melhor encontro é a do nevoeiro; denso mas etéreo, simples mas mágico. E também os seus trabalhos, com o potencial narrativo de toda a ficção mas mantendo-se sóbrios, sérios, quase altivos poderia ser dito.

A sua (de)formação enquanto pintor tornou-lhe a atenção particular e, com o desenvolver da relação dos olhos com as mãos, o corpo passou a coreografar-se com informação de outros universos. Pela potência, das palavras, dos objectos e do fazer, José- artista e José-educador reúnem-se, indistinguindo-se. Como evocador de uma dinâmica geral - que concede à figura de José a mesma aura que a um guia espiritual - vem-me à lembrança o texto - escrito por José - que acompanhava a sua exposição na Mupi Gallery, “Um fora com dentro dentro” (2017), que, pela sua capacidade simultânea de síntese e potência, me impele a citá-lo na íntegra:
 
“ AM: Sempre achei que ficaria mais impressionado com os falsificadores de pinturas se eles tentassem copiar os gestos em vez das imagens. Adivinhar o movimento-zero. Essa tentativa de um gesto em potência carregava mais valor que tudo que viesse a seguir.
WT: Não tenho a certeza como funcionaria um gesto falsificado. Poderia ser um gesto mau, um gesto enganador, ou apenas um gesto que imita. Mas para isso acontecer teria de se estabelecer para cada contexto o que seria um gesto bom para depois comparar.
AM: Um gesto por si pode não ser bom ou mau. Mas o que é uma má pintura senão um conjunto de gestos maus?
WT: Talvez não seja o gesto que é mau, mas a consequência de um olhar desatento. Joseph Bell por exemplo, era um cirurgião que ficou conhecido por fazer diagnósticos surpreendentemente certeiros dos pacientes usando apenas as suas capacidades de observação e dedução. Porque um marinheiro e um soldado não caminham da mesma maneira e umas botas com lama contam uma viagem sem nenhuma palavra ser dita. Os gestos têm memórias próprias, são mais do que simples movimentos e Bell sabia disso. Arthur Conan Doyle usou-o, sem surpresa, como principal inspiração para o seu Sherlock Holmes.
AM: Um artista é então como um cirurgião que observa, ou um detective de olhares certeiros.
WT: Certeiros mas também lúdicos. Um olhar lúdico é essencial para perceber a dança da
atenção. A atenção pode ser coreografada e esse é um dos papéis do artista.
AM: A memória também tem esse poder dançante. A propósito, houve alguém imaginou um filme sobre um extraterrestre com memória absoluta que entra em contacto com seres humanos e é seduzido pela poética da lembrança. Essa empatia leva-o a tentar tudo para conseguir a capacidade de esquecer. Esse filme nunca foi feito e isso parece-me adequado, merece existir só na imaginação.  
WT: Falar de memória por vezes parece o mesmo que falar de espíritos, causa as mesmas reações e incertezas. Costumo pensar como seria uma memória pendular e tangível. Oscilava livremente entre recordações do passado e do futuro.
AM: Seria uma existência num tempo suspenso. A realidade e a abstração sobrepunham-se. É o espaço da pintura. Onde o gesto dança com a memória. ”
 
Durante o período do primeiro confinamento o Espaço Mira, “que ocupa o número 159 da rua de Miraflor”, no Porto, foi apresentando alternativas virtuais de acesso ao universo artístico, na forma de ciclo expositivo virtual que decorreu entre 1 de Abril e 9 de Maio, contando com a curadoria de José Maia e João Terras. Foi em “Fora Inverno, Já era primavera, o Verão seria glorioso”, nome do ciclo em questão, que José Costa participou, com o vídeo “Hipérbole”, ainda disponível. Também o resto do ciclo, que contou com um extensíssimo número de artistas, se encontra disponível.

“Hipérbole”, um vídeo de sete minutos e vinte e quatro segundos, leva-nos por uma viagem; as transições entre os movimentos do mar, das medusas, encantatórias como o som que nos é ofertado. Estas medusas, sobrepostas em duplo ecrã, mudam de cor, e tornam ainda mais fantasmagórico o ambiente. E, à medida que nos ambientamos a esta ambiência melódico-mágica, as imagens mudam e desaparecem as medusas dando lugar a animais terrestres, embalsamados: um prenúncio de morte iluminado dramaticamente. Será um museu, talvez. A estaticidade que nos é dada remonta a um museu, em contraste com o vivo do movimento contínuo e relaxante da medusa. Que, estranhamente, poderá ser também de museu. Como o oceanário. Teria a medusa embalsada (será possível?) encanto algum? E esses ecrãs rectângulos sobrepostos reaparecem sempre, dando-nos visões mais ou menos (contextualmente) trágicas; pequenas águas com espuma poluta, cavalos em cores vibrantes e super expostos. Aparece-nos radioactivo tudo o que é terreno, tudo o que não pertence à calmaria do oceano, onde o movimento se queda em outros scores.
Formas estranhas, já não dentro dos rectângulos ofensivos, entrecortam-se nas ondas, nos reflexos desta outra água que não parece já mar. Há nela um movimento que é de uma velocidade não tão constante; será um rio? será apenas um aproximar? Rodam, as formas, verdes, gritantes, sendo levadas não pelas ondas, mas apenas pelas imagens das ondas. Onde chegarão, desta forma? Que água é esta? O som é contínuo e é ele que nos suporta, dentro das ofensivas em forma de descontinuidades que o vídeo nos traz.

 
 
A Arte Capital colocou algumas perguntas ao José - na passagem da Primavera ao Verão de 2020 - a partir deste seu vídeo apresentado, para entrar melhor na sua prática e discurso artístico.
 
 
 
Por Catarina Real

 

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CR: A hipérbole é a figura de estilo que “corresponde ao exagero, com efeitos enfáticos, no significado das palavras ou das frases” mas também a “curva na qual é constante a diferença das distâncias de todos os seus pontos a dois pontos fixos chamados focos” (diz-nos assim o priberam). Onde se situa o espaço hiperbólico das imagens ou, por outro lado, - relacionando o teu título com o vídeo que apresentaste - é nas frases de movimento das imagens que há ênfase?
 
JC: Existe um motivo mitológico que achei interessante, o oceano cósmico. É curioso, mas não inesperado, que em tantas culturas a ideia de oceano esteja ligado à água, mas também ao cosmos. O oceano cósmico é um vácuo com inquietações, ao mesmo tempo vazio e fluído, que existe no momento de pré-existência e pré-criação de algo. E há uma relação muito próxima entre essa fluidez do oceano que está prestes a formar estruturas e o próprio acto de pensar.  Em literatura existe o stream of consciousness que ao retirar parte do filtro estrutural da linguagem pensada, tenta tornar líquida a relação entre o pensar e o escrever. Isto não significa só que a estrutura da linguagem passa a ser mais fluída, a ligação entre ideias pré-linguagem torna-se mais líquida também, criando saltos associativos mais orgânicos e inesperados. É algo em que penso bastante, a relação entre a fluidez e a estrutura, tanto no pensar como no fazer. O título Hipérbole vem de um momento diferente do trabalho, em que seria mostrado num espaço físico para um projecto organizado pela minha amiga Constança Amador. Nesse momento o vídeo existiria espacialmente acompanhado de estruturas de influência geométrica. Algo hiperbólico pode ser uma figura de estilo que significa ênfase ou exagero mas também referir-se a um tipo de geometria não-euclidiana. E o tipo de estruturas que eu planeava apresentar no projecto eram inspiradas precisamente por um modelo geométrico específico chamado hyperbolic soccer ball que ao ser repetido e expandido cria formas que remetem para corais. Hipérbole enquanto título seria a tentativa de conter em potência a relação entre a linguagem líquida, enfática, não-literal  da figura de estilo e a estrutura matemática, expansiva e previsível da geometria. Obviamente que ao passar para um espaço digital a associação espacial e estrutural se perdeu, mas senti que mesmo sem as estruturas presentes a relação sugerida pelo título continuaria a fazer sentido.
 
 
CR: A recorrente atenção aos movimento - do mar aos gestos, como se fossem unos - vai ao encontro de alguma ideia de dança generalizada? Como se tudo dançasse? Ou vês o ponto, linha ou plano, onde se opera a passagem do movimento prático (talvez o gesto) ao movimento dançado?
 
JC: Acho que posso responder construindo a partir da resposta anterior. Continuando a pensar na relação entre fluidez e estrutura podemos posicionar dança no lugar na fluidez e coreografia no lugar da estrutura. Claro que estas definições são elas próprias sujeitas a serem subvertidas e podemos desenhar coreografias que tentem anular a expectativa de uma coreografia mas o ponto de referência estrutural continua lá, nem que seja para ser subvertido. Uma ideia que ficou comigo desde que a ouvi foi dita pelo Phillipe Parreno quando descrevia o processo de instalação dos seus trabalhos como sendo coreografias da atenção. Se a atenção pode ser coreografada espacialmente através da visão e do caminhar eu sugeria que pode também ser coreografada de outras maneiras, o modo como um texto é visto numa página, um vídeo é editado ou um som ocupa um local. No limite os pensamentos também são coreografáveis, mas cada um dançaria na sua própria cabeça.
 

CR: Insistindo no movimento e na dança... sei que há um episódio histórico que te fascina - a epidemia de dança de 1518. Gostava que nos falasses um pouco mais sobre as direcções desse fascínio, porque prevejo que de alguma forma reúne focos importantes do teu pensamento.
 
JC: A epidemia de dança interessa-me da mesma maneira que outros fragmentos narrativos me interessam, porque definem campos de acção que podem ser ocupados e comparados. No trabalho um pensamento com duas pernas coloquei frente a frente a epidemia de dança e uma história de uma planta que caminha chamada socratea exorrhiza e tentei ocupar o espaço entre elas. Ao ler sobre o modo como as plantas pensam e comunicam encontrei vários paralelismos com a epidemia de dança e chamei a isso movimento sem cabeça. Esse movimento da dança e da planta que caminha estaria para lá da consciência, como um algoritmo que tivesse programado determinados padrões nos seus movimentos. Ao eliminar a questão do porquê que alguém se mexe, de repente o movimento passa a ser uma abstracção tal como os padrões dos movimentos da água ou uma fórmula matemática. Talvez seja isso que me fascina mais numa hipotética epidemia de dança, quanto mais pensamos nela mais as nossas concepções de coregrafia, dança ou movimento se vão desmontando até se tornarem outra coisa.