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SNAPSHOT. NO ATELIER DE...




Conferência-performance 'De Submisso a Político – O Lugar do Corpo Negro na Cultura Visual', 2017-2021. Festival Feminista de Lisboa, Maio de 2019. Espaço VALSA © Ngola Quest


Melissa Rodrigues © Maria Côrte-Real


Conferência-performance 'De Submisso a Político – O Lugar do Corpo Negro na Cultura Visual', 2017-2021. Evento Dia D da Diferença com curadoria de Filipa Oliveira, Outubro de 2019. Casa da Cerca, Alma


Vídeo-instalação 'MEDITERRÂNEO', co-criação com o artista visual Miguel F. Exposição Unearthing Memories – InterStruct Collective – RAMPA, Porto 2019


Performance 'Cabelo', co-criação com o Coletivo Chá das Pretas, 2017 - Rosa Imunda, Porto © Vera Carmo


Performance 'Cabelo', co-criação com o Coletivo Chá das Pretas, 2017 - Rosa Imunda, Porto © Vera Carmo


Fotogramas da vídeo-performance 'CORONAS IN THE SKY, Not a Manifesto! An Essay on Afrofuturism and Liberation', 2020 – Berlin/Porto


Fotogramas da vídeo-performance 'CORONAS IN THE SKY, Not a Manifesto! An Essay on Afrofuturism and Liberation', 2020 – Berlin/Porto


Fotogramas da vídeo-performance 'CORONAS IN THE SKY, Not a Manifesto! An Essay on Afrofuturism and Liberation', 2020 – Berlin/Porto


Fotogramas da vídeo-performance 'CORONAS IN THE SKY, Not a Manifesto! An Essay on Afrofuturism and Liberation', 2020 – Berlin/Porto


Fotogramas da vídeo-performance 'CORONAS IN THE SKY, Not a Manifesto! An Essay on Afrofuturism and Liberation', 2020 – Berlin/Porto


Fotogramas da vídeo-performance 'CORONAS IN THE SKY, Not a Manifesto! An Essay on Afrofuturism and Liberation', 2020 – Berlin/Porto

Outros registos:

HElena Valsecchi



Diogo da Cruz



José Costa



Maria Bernardino



Tânia Geiroto Marcelino



Xavier Ovídio



André Alves



Adrian Conde Novoa



Samuel Silva



Rui Castanho



James Newitt



Mariana Gomes



Daniel Fernandes



Diana Carvalho



Giammarco Cugusi



Rita Senra e João Pedro Trindade



Catarina Domingues



Cristina Regadas



LIONEL CRUET



Pedro Vaz



Luís Nobre



Joana Taya



Angel Ihosvanny Cisneros



Rodrigo Gomes



Ludgero Almeida



Francisco Sousa Lobo



Letícia Ramos



Valter Vinagre



Andrés Galeano



João Pedro Fonseca



Pedro Proença



Tiago Baptista



António Guimarães Ferreira



João Seguro



Isabel Madureira Andrade



Fernando Marques Penteado



Virgílio Ferreira



Antonio Fiorentino



Alexandre Conefrey



Filipe Cortez



João Fonte Santa



André Sier



Rui Algarvio



Rui Calçada Bastos



Paulo Quintas



Miguel Ângelo Rocha



Miguel Palma



Miguel Bonneville



Ana Tecedeiro



João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira



João Serra



André Gomes



Pauliana Valente Pimentel



Christine Henry



Joanna Latka



Fabrizio Matos



Andrea Brandão e Daniel Barroca



Jarosław Fliciński



Pedro Gomes



Pedro Calapez



João Jacinto



Atelier Concorde



Noronha da Costa



Pedro Valdez Cardoso



João Queiroz



Pedro Pousada



Gonçalo Pena



São Trindade



Inez Teixeira



Binelde Hyrcan



António Júlio Duarte



Délio Jasse



Nástio Mosquito



José Pedro Cortes




MELISSA RODRIGUES

CATARINA REAL


 

 

Melissa Rodrigues (Cabo Verde, 1985) é artista, activista, arte-educadora... e vai-se desdobrando por entre projectos colectivos e interdisciplinares que relacionam arte, experimentação e activismo. Numa altura em que - tal como em todas as outras alturas, sublinho - é urgente discutir o Portugal que é racista - o único que existe - convidei a Melissa a não só conversar comigo como a conduzir-me pelo seu percurso que tem como centro o activismo feminista negro, que se espraia por toda a sua actividade.

 

Por Catarina Real 


 

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MR: Em todo o meu trabalho há intersecções, todas as áreas onde actuo se ligam, existe uma interdependência entre todas elas. Vejo-me sobretudo como activista porque acaba por ser uma das mais antigas e contínuas actividades que tenho.
O meu percurso no activismo iniciou-se ainda na minha adolescência, primeiro ligada a questões sociais e económicas e posteriormente através colaboração com alguns colectivos. Quando vim para o Porto, em 2014, integrei o NADA. A partir daí comecei a ingressar sobretudo no activismo antirracista. Até aí a minha militância era mais abrangente, não me focava numa área ou temática. A partir de certo momento senti necessidade de me focar no activismo antirracista e interliga-lo com o activismo feminista, que é o que faço hoje. Não descuro as outras questões que me atravessam, enquanto pessoa e cidadã, mas acabei por criar este recorte.

 

CR: A circunscrição torna-se mais eficaz?

 

MR: Senti a necessidade de o fazer, mas não sei se será mais eficaz.
Eu estava num momento de grandes interrogações face a mim mesma e senti a necessidade de estar mais próxima de pessoas e colectivos que teriam um entendimento mais próximo do meu quanto a certas questões. Muitas coisas que aconteceram na minha vida pessoal estão relacionadas com o facto de ser uma mulher negra, e como estava focada noutras questões, não conseguia perceber o quanto estas duas características eram importantes na minha definição identitária. Agora compreendo a sua centralidade. Não negligencio todas as outras facetas do activismo - do direito à habitação à emigração - porque todas elas se atravessam. Se pensarmos numa questão estrutural percebemos esse atravessamento, e aí poderemos entrar em discussões relacionadas com o capitalismo ou o neo-liberalismo. Ser negra, mulher, ter ou não ter casa, direitos laborais, tudo está interligado.

O NADA foi uma experiência de activismo e experimentação artística, com outras cinco pessoas com que me cruzei no Porto. Organizamos um festival, onde ligamos o artístico ao activismo. Chegamos também a fazer uma intervenção no Nos Primavera Sound, onde nos interessavam pensar as migrações através das plantas. Portanto a história do meu activismo é muito lato, muito abrangente [riso].

Depois do NADA, quando já estava inscrita no activismo feminista antirracista, consegui a identificação de que andava à procura, encontrei o eco de toda a inquietação que tinha dentro de mim, das questões que não entendia, ou que tinha o privilégio de não ter de entender.
Senti a certa altura necessidade de me enfrentar, e aí foi importante estar rodeada destas pessoas com quem me identificava tão proximamente, tão intimamente. Precisei dessa intimidade, e aí entrei dentro de um activisimo feito a partir do lugar mais íntimo. O activismo antirracista feminista é um lugar de intimidade, um lugar de um outro conhecimento, de uma outra criação, uma outra forma de perspectivar o lugar a partir do qual existo. Isto representou um corte com muitas coisas que fizeram parte do meu percurso e me fizeram crescer. Um corte de transformação, no sentido de abertura.

Actualmente faço parte do NARP, e temos um trabalho activista que vai desde a criação de conversas, encontros, leituras de poesia, formação política... Integro também o InterStruct Collective. Temos uma prática artística colectiva que questiona a história da construção colonial das cidades e do seu legado.

 

CR: O que mudou fruto dessa transformação?

 

MR: Muitas coisas.
Muitas vezes, pela escola política que tive e porque em Portugal só agora se fala sobre racismo, eu tentava compreender certos aspectos da minha vida sobre uma perspectiva social ou económica. Quando introduzo o factor racial, consigo-o relacionar com o social e com o económico e começo a ter uma outra perspectiva das coisas. Até aí nunca conseguido aprofundar certos acontecimentos da minha vida.
Para além disso, trouxe-me o conhecimento da minha própria história. E isso tornou-se mais importante do que saber para onde vou. A construção que sou hoje é importante, mas vem de trás, os nossos caminhos são antigos.
Quando entro neste lugar de compreender quem são estas mulheres negras, esta escritora negra, esta pensadora negra, e o que elas têm a dizer, quando as ouço, entro numa transformação efectiva: entro num outro lugar. É uma total ruptura, ao mesmo tempo um lugar de esperança, de força. Dá-me capacidade para enfrentar o mundo. Sei e sinto que não estou só. E isso mudou a minha vida.

 

CR: Voltando atrás numa coisa... dizias que agora já há discurso sobre o racismo em Portugal. Mas o que há, para além de parco, é tendencioso. Ou no mínimo muito muito antigo, muito atrasado. Pergunto-te, como activista, como te relacionas com esse discurso?

 

MR: Concordo.
Para mim é muito importante que haja debate sobre racismo em Portugal, mesmo de forma tímida.
Quando falamos estamos a reconhecer que existe um problema. Claro que estamos numa sociedade onde o discurso oficial é o da negação, da glorificação do passado. O que ouvimos dizer é que há racismo, mas pontual e não estrutural.
Obviamente que discordo desse discurso: há racismo, é estrutural, vem de há muito tempo atrás e nunca nada foi feito por parte dos diferentes poderes para que alguma coisa fosse alterada.
O que o Movimento Negro em Portugal faz é criar outros discursos, cria discursos a partir da realidade e de factos. Não só no íntimo e particular - que também é político - mas ao nível estrutural. Pensando na sociedade, nas instituições.
Temos capacidade de falar, temos lugar de fala, e então construímos o nosso discurso.
Os espaços de cuidado interno são muito importantes, mas esse espaço de comunicação com o exterior - com o Outro, que deste vez não somos nós [riso] - essa comunicação é muito importante, e acontece através da educação, através de conversas, conferências, palestras, através destas pequenas mudanças de presença de activistas negros e negras, por exemplo, na academia.
Isto acontece também através do papel importante que os activistas racializados em Portugal têm, através do pequeno lugar de visibilidade que temos. Sentimos a responsabilidade e necessidade de comunicar. Em todos os lugares onde estamos representados, esse trabalho de comunicação é feito. E é aí que se exigem mudanças, seja onde estivermos.
Somos porta-vozes destes questionamentos e reivindicações.

 

CR: Como vês a perspectiva de mudança?

 

MR: Este não será o melhor dia para esta resposta... [considerando as ameaças de morte a três deputadas e a membros da SOS Racismo]
Eu acredito na perspectiva de mudança e acredito que a mudança há-de acontecer.
Como activista aprendi a ter uma forma de pensar a longo termo: o que fazemos é para as próximas gerações. As coisas vão demorar a mudar se, por parte de quem detém o poder, não houver essa vontade. Ao mesmo tempo estarem a existir estas conversas, e ver que há cinco anos atrás não aconteciam, pelo menos com esta expressão, ver que não estamos a deixar que a comunicação social ou os partidos determinem quando se deve falar sobre racismo... é esperançoso. Estamos constantemente a falar sobre racismo, deixou de ser um tópico pontual na discussão pública.
Se Portugal tem uma história que fala do seu passado de uma forma gloriosa, porque não falar do outro lado do passado? Se nas mentes de muitas pessoas essa glória ainda está presente, porque não mostrar o quanto está presente ainda o outro lado do passado? Nós, activistas antirracistas, estamos determinados que vamos falar sobre isto sempre, porque estamos a falar de poder, e então estamos a reivindicar também o poder de existência e de inscrição, estamos a mexer com a estrutura. E isso não é fácil, mas também não é novo.
Eu sou nova nisto, seis sete anos, mas o Movimento Negro em Portugal, e as reivindicações das pessoas racializadas em Portugal, já existem há muito tempo. Fala-se como se estas lutas tivessem surgido agora. Sempre houve resistência e nós queremos tornar presente e evidente essa resistência contínua.

 

CR: No teu percurso, e nas tuas participações, há sempre uma relação com a educação e com a prática artística. Vês distinção?

 

MR: Não faço essa distinção. Não deixo de ser activista quando trabalho nos serviços educativos, estou continuamente a comunicar perspectivas e pontos de vista que muitas vezes não são partilhados.
O facto de estar ligada às Ciências Sociais, e ser formada em Antropologia também é importante, porque acabo por juntar o meu conhecimento enquanto artista, ao meu conhecimento enquanto antropóloga e activista. Estou sempre a juntar tudo, sou sempre todas estas coisas ao mesmo tempo.
Levo sempre as minhas questões para o meu trabalho, seja ele que trabalho for.

Continuando o meu percurso... No Porto houve também o Chá das Pretas, importantíssimo. Mulheres negras de diferentes idades e proveniências juntavam-se para tomarem chá e conversarem. O Chá das Pretas era um momento de carinho, de espiritualidade, de cuidado.
Apercebíamo-nos nessas conversas, que muitas vezes acabavam em lágrimas e abraços, que por mais diferentes que as nossas vidas pudessem ter sido até aquele momento, todas elas eram atravessadas pelo racismo, todas as nossas histórias eram comuns.
E isso contribui para a minha compreensão da minha vida, que muitas vezes preferi ler à luz de outras questões que não o racismo. Eu sou de uma família cabo cabo-verdiana, imigrada em Portugal, onde não se falava de racismo. Ou quando se falava era muito pontualmente. Não falávamos de nós enquanto pessoas racializadas, não falávamos de nós enquanto família racializada a viver no subúrbio de Lisboa. Então o racismo era uma coisa que existia mas que só acontecia com algumas pessoas que nós conhecíamos, era como se não acontecesse connosco.
O Chá das Pretas fez-me entrar noutros pontos de vista, considerando a luta antirracista. O Brasil está noutro lugar, comparando com Portugal. Falo de um outro tempo, de linhas temporais diferentes. E estas mulheres que pertencem a esse tempo do futuro, no que diz respeito a estas questões, partilharam muito comigo do que é a sua experiência enquanto militantes feministas negras no Brasil.

 

CR: O que é que queremos do lugar onde o Brasil já está?

 

MR: As cotas raciais. Temos de falar mais sobre racismo. Não podemos continuar a ter medo de falar. E temos necessariamente de abandonar o discurso negacionista.
Nesta linha, acho também que o discurso negacionista não deveria estar presente no Parlamento, e que esse discurso não pode continuar a ter espaço. Certos discursos não podem passar impunes, certas manifestações não deveriam poder existir, assim como certos partidos, com um discurso manifesto que é anticonstitucional. No Brasil existem leis, e mesmo com a dificuldade de aplicação que também há, vão sendo aplicadas. Existem leis específicas como, no caso da violência doméstica, a lei Maria da Penha. Em Portugal parece que constantemente falamos de uma constante impunidade. Nós estamos cansados. Eu estou cansadíssima, porque constantemente temos de discutir as mesmas coisas, e o delírio colectivo de que “Portugal não é racista” não nos faz avançar.
Se existisse, por parte do poder político, vontade efectiva de mudar as coisas - de cotas a criminalização efectiva do racismo - muita coisa podia mudar.

No Brasil há vozes académicas negras, e estas ganham dimensão e visibilidade. E projectam a a sua voz, o que não acontece em Portugal. Eu nunca tive nenhum professor negro. Há jornalistas a escreverem sobre estes temas, mas nenhum é negro. É importante a representatividade, é importante haver pessoas não-brancas nos órgãos de comunicação social, na assembleia, nas universidades. Em todos os lugares da sociedade. Porque estas pessoas têm qualificações para estar em todos os lugares. É percebendo-o que conseguimos perceber o quanto o racismo se alastra e quase não o vemos.
Não interessa pensar se Portugal é mais ou menos racista do que outros lugares, interessa apenas admitirmos o nosso racismo estrutural e caminhar para colmata-lo. Há coisas a mudar, claro!, a lei da nacionalidade mudou agora, e estas são pequenas-grandes mudanças.

Há uma história da minha infância, que utilizo numa das minhas performances, em que uma criança branca me apontou o dedo e me chamou preta. Isto não acontecia com frequência, o racismo era velado. Há muitas questões da minha vida que fizeram com que não tivesse de pensar no racismo no meu dia a dia, sobretudo porque sou negra de pele clara. Diziam-me que não gostavam de pretos, mas que gostavam de mim, diziam-me que era uma preta bonita, uma preta bem educada. Não ouvia o lado oposto, tinha sempre este atenuar, um elogio - na perspectiva das pessoas que o diziam. Era extremamente violento. Na minha vontade - enquanto criança e adolescente - de fazer parte, de ser integrada, tentava não ver, não pensar e não questionar.

Foi muito importante para mim viver três meses em Salvador da Bahia, no Brasil. Aí visitei o Movimento Negro de Salvador, numa sessão de leitura de poesia. O que se seguiu foi um momento de ruptura na minha vida. Estar na Bahia já era uma experiência, sentia-me em Cabo Verde - as cores, edifícios, cheiros, tudo me remetia para a minha infância - mas essa noite, onde se leu um poema sobre o cabelo negro, foi um punhal. O poema descrevia a história do cabelo e do corpo das mulheres negras, e foi algo que me atingiu com muita força e que ficou presente.
Aos 22 anos tive o meu momento de revelação. E depois, na transição de Lisboa para o Porto senti ainda mais necessidade de me inscrever no activismo feminista negro. Quando vim para o Porto não via muitas pessoas negras e as pessoas diziam-me que não havia muitas. Até que me apercebi que não, eu é que não estava a vê-las. O problema era meu, que estava fechada no meu contexto no centro da cidade. A minha noção do Porto começou também a ser alargada quando comecei a tirar-me do meu lugar, para perceber onde existia esta diversidade racial e cultural.

 

CR: Queres falar um bocadinho sobre o teu último projecto, fruto da tua residência forçada em casa? [À altura desta entrevista, num período de desconfinamento. Falávamos ainda do primeiro confinamento.]

 

MR: Até há pouco tempo tinha muita dificuldade em pensar em mim enquanto artista. Questões de vocabulário, talvez. Aqui no Porto fiz a pós-graduação em Performance nas Belas Artes, e nos meus trabalhos relaciono sempre a questão da Antropologia. Vou buscar conteúdos da antropologia; raça, eugenia, construção de imagem... Este trabalho chama-se CORONAS IN THE SKY, Not a Manifesto! an essay on Afrofuturism and Liberation e é uma vídeo-performance realizada durante uma residência artística no ZK/U Berlin no âmbito do Magic Carpets Creative Europe Platform, a convite da curadora alemã Lotta Schafer. A Lotta teve acesso ao meu trabalho através do podcast “Vocal About It” disponibilizado online, organizado pela Sara - uma mulher negra residente em Bruxelas - em que ela fala de questões como as que agora estamoa a referir. Convidou-me para esta residência, dentro do projecto Magic Carpets, que trabalha com artistas emergentes oriundos de quinze países europeus diferentes. O Magic Carpets tem depois várias parcerias, no caso alemão, com um espaço artístico que é o ZK/U Berlim, que tem um trabalho com a comunidade.
Eu cheguei a quinze de Março a Berlim, e voltei passados quatro dias. Já tinha sido declarada pandemia quando fui, mas decidi ir na mesma, uma vez que já tinha um contracto de trabalho assinado e viagem comprada. Decidi voltar porque Berlim ia estar em quarentena e Portugal decidiu fechar as fronteiras, e não havia perspectiva de elas abrirem antes da minha volta programada. O trabalho previsto alterou-se e passei a trabalhar em minha casa, no Porto. Para mim a questão da não produtividade não se aplicou, para mim a quarentena foi o oposto. [riso] Em Berlim iria trabalhar com associações e colectivos de mulheres afro-alemãs e focando-me na história colonial e racial da cidade. Iria ser um trabalho de relação do corpo com a arquitectura. A partir do caminhar ia sentindo as histórias, vibrações e marcas da cidades. Ia construir a teia de relações com estas mulheres, a partir desse caminhar, o meu e o delas. E criar uma espécie de mapa destas vivências destas mulheres negras. No Porto o projecto passou a ser muito mais solitário, em que me foquei em pensar o Afro Futurismo, que já estava presente no projecto inicial. Escrevi muito e decidi que o meu trabalho ia ser um poema, um poema muito longo, que é activista, e é sobre tudo e mais alguma coisa. [riso]
É um manifesto Afro Futurista. É um grito feminista. Sou eu. [riso]
Então este grito, que este poema é, concretizou-se, na parte visual, numa performance visual. Há outras narrativas que criadas em cima do próprio texto. Estas outras imagens vivem por vezes em tensão, por vezes em harmonia com o texto, que em si também tem tensão e harmonia. Isto era tudo o que estava a sentir durante o confinamento.
E, claro, o trabalho fala de todas as minhas leituras. A metodologia de trabalho dentro das Ciências Sociais faz-me pesquisar muito e relacionar muitos temas, e sobrepor muitos temas. E foi o que fiz, criando relações e imagens. É um trabalho de muita apropriação, que foi intencional, e tem a ver com esta ideia de poder. Interessava-me colocar o dedo nas diferentes feridas. Estou-me a apropriar de coisas que não poderiam ser minhas, mas que agora são, estou a inverter a lógica do saque. Estou a saquear. Isso interessou-me, a apropriação de tudo e mais alguma coisa. Conversas com amigos, coisas que lia nas redes sociais, letras de músicas, textos. Tudo caiu no poema, através das muitas interligações que fui criando. Foi importante também poder trabalhar a parte visual com pessoas da minha intimidade, pessoas racializadas. Com um homem negro brasileiro, o Dori; a Lola, uma mulher negra brasileira; a Claire, uma mulher negra inglesa; a Desirée, uma mulher negra alemã; e a Jade, uma mulher indígena brasileira. Poder colaborar com estas pessoas fez sentido para mim. Estávamos a criar aquilo que faz sentido para mim, o tal cuidar de que falava. Cuidarmo-nos enquanto comunidade.