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Entre fevereiro de 1981 e dezembro de 1984, em menos de quatro anos, Henry, um habitante de Long Island, depois de Nova Jersey, tirou cerca de 5.500 fotografias da sua esposa Martha, nua ou a despir-se; quatro por dia em média. Nessas imagens, Martha, que aparenta ter aproximadamente 60 anos, está cada vez mais entediada, desapegada, alienada do que está a acontecer com ela, raramente olhando para a objectiva, submissa às diretrizes do seu marido. Este está particularmente interessado no busto da sua mulher, os seus sutiãs, pedindo-lhe para apertar os seios com as mãos; muitas imagens também a representam integralmente nua, em pé ou deitada, um corpo marcado pela idade, mas ainda firme. Outras são close-ups dos seus seios, mamilos e aréolas. Pelo contrário, a púbis e a vulva, assim como as nádegas, nunca aparecem em grande plano. As fotos-mamografias.

Nenhuma ternura nestas fotografias, nenhuma cumplicidade, também nenhum erotismo: apenas um voyeurismo obsessivo do corpo feminino. Estamos muito longe do trabalho amoroso de Eugene von Bruenchenheim, cheio de ternura e respeito por Marie, sempre bela e cúmplice. A palavra que vem à mente aqui é mais taxonomia repetitiva, mesmo se, em várias fotografias, Martha simule uma pose, faça caretas maliciosas ou consternadas, raramente sorri, envolve-se em letargia.

Henry organiza um escritório forrado com essas fotos de Martha nua. A maioria é a preto e branco, as provas de contacto são marcadas com post-its datando-as, mas apontando também os temas (« bent », « squeezing », « rope over bust », « kneeling »). Uma tabela de dupla entrada resume as datas e as características técnicas ou posturais das fotografias, com, num canto, os projetos futuros: no processo de fumar, mãos sobre a nuca, por trás,...
No final de 1984 ou início de 1985, Martha sufoca nesta ménage à trois com o aparelho fotográfico, e deixou o seu marido: ela recusa essa obsessão fotográfica do seu corpo, o casamento é (por esse motivo e sem dúvida por outros) um fracasso. Antes de partir, ela lança as impressões pela janela da sua casa, as fotografias cobrem o jardim e o caminho, voando ao vento.

Henry, privado do seu objeto de desejo, não pode mais que desfrutar das fotografias preservadas da sua mulher. É então, parece-me, que, de voyeur obsessivo mas banal, ele torna-se artista em sentido pleno: sublima a frustração da ausência da mulher amada para passar a uma atividade mais criativa do que simplesmente fotografar; ele cria novas formas, fantasmagóricas, a partir das suas formas reais. Martha tornou-se uma abstração, um material artístico. Primeiro concebe cerca de cinquenta colagens, montando este ou aquele detalhe da anatomia de Martha (excepto o seu rosto) para fazer composições eróticas que podemos ligar a certos surrealistas como Georges Hugnet ou Nush Éluard, ou mesmo certas imagens de André Kertesz. Nas provas de contato, destacamos quatro fotografias a cores de abril de 1981 onde, já, Henry, através de exposição múltipla, havia experimentado com a multiplicação mamaria.

 

 

Dessas colagens, ele passa para a escultura: múltiplos corpos femininos surpreendentemente doces e ternos, 17 figuras de argila com areia prateada. Sem ter o caráter sistémico de Die Puppe, estamos aqui numa veia semelhante, principalmente se nos lembrarmos que Hans Bellmer realiza essa boneca no momento em que se retirava do mundo, no seu caso face à ascensão do nazismo. Pensamos também em certas esculturas de Victor Brauner ou na Artemisa polimasta de Éfeso. É bastante fascinante ver como Henry desenvolve assim uma forma de criação artística, muito além das suas fotografias obsessivas, que podemos evidentemente classificar na categoria abrangente de arte bruta. Uma vez feito isso, ele parte para viver na floresta, como um caçador, alimentando-se de animais selvagens que captura, e desaparece.

Como sabemos tudo isto? A artista holandesa Mariken Wessels, que já realizou algumas séries em torno de fotografias encontradas, teria obtido essas fotografias, assim como outras imagens do casal, da sua casa e da cabana de Henry na floresta, de dois amigos e vizinhos do casal, que teriam recuperado o conjunto após a partida de Henry, e de quem Mariken Wessels diz ter sido vizinha quando, então atriz, habitou em Nova Iorque em 1996-97. Fez um livro de 330 páginas, com muito pouco texto (2 ou 3 páginas apenas) por ocasião da sua exposição em Haia em 2017; o livro acaba de ser reeditado pela Art Paper Editions. O livro (que ganhou o Prémio do Livro de Autor em Arles em 2016) inclui 147 provas de contato de 36 imagens cada (ou seja, 5292 fotos) em papel brilhante, a reprodução das 50 colagens e de 17 estatuetas, e de outras fotografias da infância deles, do casamento, da casa deles, do escritório de Henry, uma enigmática folha solta de Feliz Natal começando por "There he is, your son, Ma",... O título "Taking Off" pode significar tirar, retirar (o sutiã); pode também significar descolar, partir (como Martha). 

É realmente um arquivo de fotografias encontradas de maneira um tanto recambolesca? Ou é inteiramente uma criação ficcional da artista? O único indício que encontrei é o nome dos dois vizinhos que supostamente confiaram o arquivo a Mariken Wessels: Dorothy Bartlett (como ele) e Edward F. Caroll (quase como ele). Além disso o Hackettstown Heritage Center for Arts & Crafts, onde as figuras esculpidas de Henry seriam depositadas, parece não existir. Mas também a sensação de que é muito perfeito, muito bem feito. Quem sabe? Apenas este blog, no meu conhecimento, também expressou uma dúvida sobre a veracidade deste arquivo.

 

 

Marc Lenot
É desde 2005 autor do blog Lunettes Rouges, publicado pelo jornal Le Monde. Em 2009 obteve o grau de Mestre com uma dissertação sobre o fotógrafo checo Miroslav Tichý, e em 2016 doutorou-se pela Universidade de Paris com uma tese sobre fotografia experimental contemporânea. Membro da AICA, venceu em 2014 o Prémio de Crítica de Arte AICA França, pela sua apresentação do trabalho da artista franco-equatoriana Estefanía Peñafiel Loaiza.