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© Alípio Padilha
“Entre a lenda e a realidade, imprima-se a lenda.” – John Ford
Um homem caminha sozinho no deserto. Uma águia de rapina pousa numa rocha, e observa-o. Ele pára, olha à volta, e leva o bidão de água à boca. Bebe a última gota. Deita fora o bidão, e continua a andar. Começa uma música, são acordes de guitarra tão solitários como o homem.
É assim que a esmagadora maioria das pessoas entra – sem saber – no universo de Sam Shepard, através desta cena de cinema, e muito em especial deste Paris Texas, de Wim Wenders – vencedor da Palma de Ouro de 1984 – e que começa exactamente como começou esta crítica. O argumento é de Sam, o cowboy sensível (embora tentasse disfarçar) que amava as palavras, que as montava como num rodeio sabendo que elas podem mandar abaixo quem as tenta domar, pois para o genuíno escritor a escrita é uma luta. Foram argumentos para cinema, foram poemas, foram contos, e foram textos para teatro, como o que dá origem a esta crítica. Em 1979, e por causa da peça Buried Child, de 1978, venceu o Pulitzer de Teatro, e entre outras nomeações e prémios recebeu vários Obbie Awards, os prémios para o teatro Off-Broadway atribuídos desde 1956 pelo extinto jornal Village Voice. Sim, começou por baixo, no underground – onde sempre se sentiu bem – ao chegar a Nova Iorque em 1963 e quase de imediato imiscuiu-se no submundo das artes. Escrevo “quase” porque ainda trabalhou como ajudante de mesa no clube Village Gate – mas como se sabe, os clubes nocturnos eram excelentes locais para contactos – e antes de pousar na Grande Maçã, ou se preferirem, Grande Babilónia, tinha sido na Califórnia um jovem e genuíno “vaqueiro” ao trabalhar num rancho e estudar pecuária. No entanto, qualquer semelhança com o rapaz do campo do filme Midnight Cowboy deve ser afastada, Sam era tudo menos ingénuo. Os ingénuos morriam cedo em Nova Iorque, ele não, sobreviveu e convenceu. Em 1964 já estava a trabalhar não no Off-Broadway mas no Off-Off-Broadway, o que incluía alguns lugares pequenos e manhosos. Demasiadas vezes ausente das biografias de Sam Shepard está aquele que foi considerado o local de nascimento do Off-Off-Broadway, o Caffe Cino, do ítalo-americano Joe Cino, que abriu portas para que dramaturgos e actores pudessem usar um canto do já pequeno café para fazer mini apresentações. Sam era um deles e foi as duas coisas, dramaturgo e actor. Diz-se que o café expresso do Joe era o melhor de cidade – os americanos inventaram o Starbucks, é preciso dizer mais? De seguida teve muitas peças no palco do La MaMa Experimental Theatre Club, com o qual colaborou durante muitos anos. Se os seus textos já continham um forte apelo visual, não tardou a ser convocado para a escrita de argumentos ou guiões. O cinema é mais americano do que o teatro, existe nele alguma coisa com a qual os americanos se identificam, tanto que o tornaram numa das suas maiores indústrias a nível mundial – entretanto já batidos pela Índia e pela Nigéria em números de produção, e com a China a caminho. As pessoas tendem a esquecer que o poder da escrita é de tal ponto que em 2023 a grande greve dos argumentistas paralisou totalmente Hollywood provocando enormes prejuízos. Estavam em causa as plataformas de streaming e a regulamentação do uso da Inteligência Artificial, coisas que nos anos sessenta do Século Vinte não passariam pela cabeça de Sam e seus colegas – mas que bem poderiam passar pela cabeça e escrita de Philip K. Dick. Em 1969 faria a sua estreia como argumentista/guionista para Me and My Brother de Robert Frank e no ano seguinte para Zabriskie Point, do conceituado Michelangelo Antonioni, naquele que foi considerado um flop de tentar retratar a contracultura daquela época, mas que entretanto tem recuperado credibilidade. Nos últimos anos dessa década ainda foi músico e conheceu Patti Smith, da qual foi namorado e parceiro criativo. Ela sempre assumiu a influência dele no seu estilo de escrita. Em 1971 escreveram juntos a peça Cowboy Mouth, sobre a sua experiência no famoso Chelsea Hotel, onde na época moravam. Já antes de a conhecer, ele estava ligado à música, sendo baterista dos influentes, embora quase desconhecidos, Holy Modal Rounders, e nunca deixaria a música. Também foi actor de cinema e chegou a ser nomeado para um Óscar de melhor actor secundário pela sua interpretação em The Right Stuff, mas a sua paixão foi sempre… Adivinharam: o teatro.
© Alípio Padilha
Ao contrário de Paris Texas, aqui, neste Verdadeiro Oeste, nunca vemos o deserto. Aliás, nem sequer saímos de dentro de uma casa. Mas o deserto está lá, sentimos a poeira dele sobre Lee, na roupa amarrotada, nas botas. E nos seus modos rudes. Porquê “Verdadeiro” Oeste? Este é poeirento, é facto, e rude, cru e selvagem. Tal como Lee, não um cowboy, mas um simples pequeno ladrão e rufia: em bom calão português, um mânfio. Mas Lee não pode pagar a fava toda sozinho. A antítese dele é Austin, o seu irmão, este um argumentista a tentar vingar em Hollywood e que está em casa da mãe porque esta lhe pediu para cuidar da mesma na sua ausência, pois foi num passeio de recreio ao Alasca. Assim aproveita para conseguir ter sossego e concluir um guião. E fazer negócio. Aguarda a visita de um importante produtor de Hollywood que está interessado num seu argumento, mas a visita vai-lhe sair pela culatra, pois afinal quem primeiro o visita é Lee, vindo de uma temporada no… deserto, onde privou com os coiotes, a poeira e o silêncio. “Não sentias falta das pessoas?” – pergunta Austin. “Das pessoas?” – responde Lee, a rir. Há cinco anos que não se viam. Austin tem mulher e filhos, casa, um trabalho, e uma carreira em provável ascensão. Temos aqui “conflito”, e sem conflito não há drama (acção). A caixa de fósforos é a casa, o fósforo é Lee. E Sam ri-se, pois ele é os dois, são alter egos. O Sam “certinho” que trabalha no teatro e cinema de forma profissional, e do qual ganha o seu dinheiro, e o Sam rebelde, indomável, que se sente bem nesse circuito marginal de onde veio. Sam tem um pé em cada um e tenta o equilíbrio no seu trabalho, e nesta peça isso é explícito. Isso e mais. Se a mãe está ausente, em passeio, e pede para Austin na sua ausência não se esquecer de regar as plantas, já o pai está ausente, definitivamente, afastado ao tempo da família, e perdeu a dentadura porque se embebedou com Lee depois de vir do dentista no México – para onde caminhou a pé durante dias. O pai é alcoólico, tal como era o de Sam. Portanto, Sam não é apenas Lee ou Austin, também é o pai. O conflito. O pai na vida real morreu atropelado após sair bêbado de um bar.

© Alípio Padilha
Com todos a perder, Austin também perde algo, as estribeiras, quando Lee, percebendo que um guião é muito bem pago, intromete-se a ponto de ir jogar golfe com Saul Kimmer, o tal produtor de Hollywood, e que se deixa encantar pela lábia manhosa de Lee a ponto do seu interesse pelo argumento de Austin ser trocado por uma ideia vaga de Lee para um filme de acção. Uma ideia estúpida para mais um filme estúpido. Lee diz querer mostrar histórias, coisas da vida real, mas dada a sua inabilidade para a escrita practicamente obriga o irmão a ajudá-lo a escrever o argumento. Porém tudo descamba como só poderia descambar. Austin, confrontado com a triste história do pai, que sabe agora por Lee – tinha estado com ele mas não tinha sabido disso – e frustrado por ter sido criativamente trocado pelo irmão ladrão de televisores e afins, é levado aos seus limites, comete roubos e deseja libertar-se da “vidinha” normal e ir com o irmão para o deserto. E como na realidade não são assim tão diferentes, explode. Explodem. Quase destroem a casa, quase se matam. A mãe, ao chegar, continua ausente (tal como o pai). O olhar dela atravessa os filhos e vai para alguma coisa distante, nem sequer é um olhar para dentro, é uma ausência.

© Alípio Padilha
O final em aberto é como o espaço do deserto: Tudo é possível. O Verdadeiro Oeste, de 1980, faz parte daquela que é considerada a Trilogia da Família, sendo as outras Curse of Starving Class (1976) e Buried Child (1979). Este texto foi pela primeira vez levado a palco pelo Magic Theatre de São Francisco, onde Sam era autor residente. Em Portugal teve uma apresentação em 1992 numa tradução e encenação do saudoso António Feio.
A encenação de Rita Lello cumpre eficazmente, e é isso que se pede, pois Sam não deixa espaço para os encenadores distraírem o público do texto, da trama. É simplesmente, simples. De situações simples, pedaços da vida, ele fazia nascer diálogos, desenvolvidos na maior parte das vezes em apenas um ou dois actos. Todos os quatro em palco estão bem, mas destaco Martim Pedroso num muito convincente Lee. O cenário é interessante, mas talvez dispensável as imagens televisivas a mostrar o caos actual, em especial o provocado pelos EUA. Compreende-se a intenção, mas por vezes no teatro é melhor deixar respirar, liberar a imaginação e não querer dar tudo ao público. Nunca meter o pé num cliché. As escolhas musicais parecem fáceis e forçadas. Bastaria o silêncio. Sam também sabia que não se pode domar as palavras sem antes domar os silêncios. Absurdo e humor negro, minimalismo de cenas e diálogos, a alma selvagem de um país e do indivíduo, são características e temas deste autor.
Foi a última gota de água no deserto, mas não foi o seu fim. O homem – pai – atravessou o “seu” deserto e no fim entrega o seu filho à mãe. No carro, sozinho – novamente – chora, de felicidade. Nunca será a última gota enquanto houver lágrimas. Assim termina Paris Texas, assim termina esta crítica.
“Essa coisa do Oeste já não existe! Morreu! Faliu, Saul. E é o que lhe vai acontecer a si!” – in O Verdadeiro Oeste.
Se possível, Leonel Ventorim escreve de tudo: de romance a horóscopo, de teatro a bula farmacêutica, de poesia a epitáfio. Gosta de Jornalismo Cultural e dedica-se a espécies literárias em perigo de extinção tal como a crónica ou a crítica de teatro. Tem uma boa colecção de Jornalismo Literário, cerca de duzentas gravatas, dois gatos, e gosta de gelado de chocolate e pistáchio. Já fez muita coisa mas prefere sempre o futuro.
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O Verdadeiro Oeste, de Sam Shepard
Encenação de Rita Lello
Teatro da Trindade
23 Abril - 07 Junho 2026