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ANNE IMHOFFUN IST EIN STAHLBADMUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA Rua D. João de Castro, 210 4150-417 Porto 12 DEZ - 19 ABR 2026
Ambiciosa a vários níveis, a exposição Anne Imhof: Fun ist ein Stahlbad, a primeira mostra individual da artista germânica em Portugal, em exibição no Museu de Serralves, afirma-se nas palavras da curadora Inês Grosso: como uma espécie de manifesto depurado da artista, uma síntese de vários temas que atravessam o seu trabalho nos últimos anos [1]. Em causa, ao longo da exposição, encontra-se a ideia de liberdade na época contemporânea, tema fundamental na prática artística de Imhof (1978), com particular incidência sobre a liberdade dos corpos e o modo como ideias de divertimento e lazer têm vindo a reproduzir lógicas de trabalho que contribuem para nos disciplinar e silenciar. A este propósito, sublinhemos o título da exposição Fun ist ein Stahlbad - o divertimento é um banho de aço - expressão apropriada pela artista, proveniente do quarto capítulo de Dialética do Esclarecimento, de Theodor W. Adorno (1903-1969) e Max Horkheimer (1895-1973). Redigido em 1944, durante o exilio de ambos os filósofos da Escola de Frankfurt nos Estados Unidos da América, num período em que o progresso, a ciência e a tecnologia redefiniam o quotidiano, a expressão de Adorno o divertimento é um banho de aço, sublinha como nas sociedades industriais o entretenimento e a diversão convertiam-se em formas camufladas e silenciosas de controlo, uma disciplina suave que promovia um tipo de consumo passivo e de adaptação social. A crítica dos autores à ideia de diversão enquanto produto cultural que pode atuar como mecanismo subtil de disciplina, é retomada e explorada por Imhof servindo de eixo orientador à exposição cujas obras, abordando mecanismos contemporâneos de controlo e de comportamento, tornam visíveis a persistência dessas dinâmicas no presente. A austeridade visual que domina a mostra, sublinha a noção de endurecimento a que o termo stahlbad [2] se refere, adquirindo uma presença literal e metafórica através das imponentes obras escultóricas em ferro negro que, pensadas e concebidas especificamente para a arquitetura do museu, refletem o interesse da artista pelos corpos, pela resistência e pressões que definem a vida contemporânea. À entrada da exposição, a fisicalidade do ferro impõe-se no espaço arquitetónico, ao sermos confrontados com a grandiosa estrutura monocromática negra Arena (2025) que constituída por múltiplas barreiras metálicas de contenção, formam um recinto fechado cujo acesso ao interior nos é interditado. Comuns em contextos de lazer, as barreiras metálicas – recorrentes em projetos expositivos e performativos da artista - embora desprovidas da sua função original, mantêm em Arena a mesma lógica disciplinar que as carateriza ao imporem ao visitante um percurso que condiciona o movimento do próprio corpo. Ao circundarmos a obra, envolvemo-nos numa experiência percetual e sensorial durante a qual se acentuam sensações de claustrofobia e gravidade à medida que o espaço se estreita em determinados pontos. Posicionados à altura dos olhos, painéis de aço negro bloqueiam a nossa visão evocando uma sensação de exclusão, num percurso marcado por momentos de tensão e suspensão. Aspetos que reencontramos numa pintura da artista que, ao contornarmos Arena observamos com dificuldade, num momento em que o espaço se afunila obrigando o corpo a curvar-se. Na cena retratada a artista oferece-nos um movimento suspenso dominado pela inquietude: uma onda negra – alusão à ideia de um banho de aço - cujo movimento se congela no momento da explosão. A expectativa de algo que não acontece e a invocação do corpo ausente adquirem uma nova dimensão ao admirarmos a colossal plataforma de saltos que se ergue no centro da segunda sala dedicada à exposição. Inspirada no desenho, escala e proporções da estrutura de saltos que ainda hoje subsiste no interior da Piscina Azure de Pripyat, em Chernobyl, a escultura de Imhof estabelece uma relação surpreendente de disputa e diálogo com arquitetura do museu. Em ferro negro, vertiginosa e desprovida da função designada, a plataforma convida o corpo a subi-la para a execução de um salto que não poderá ser realizado, restando-nos imaginá-lo. Invocando um estado de suspensão, a obra impõe-se como anti monumento e memória de um equipamento recreativo e de democratização de lazer que, construído na década de setenta do século XX para servir a população local e abandonado após o desastre nuclear de Chernobyl em 1987, passou de emblema de confiança institucional a testemunho de um colapso histórico que ecoa, de forma indireta, no pensamento de Adorno [3]. Na mesma sala, reforçando a dimensão austera da exposição e dando continuidade à reflexão crítica da artista sobre a crença desmesurada no progresso tecnológico e a promessa falhada de modernidade europeia de que Chernobyl é exemplo, observamos a grandiosa pintura composta por três painéis, cujos efeitos óticos, ilusões visais e tonalidades néon, retratam explosões evocativas do desastre nuclear [4]. O corpo, que até ao momento é apenas invocado e convocado na exposição, surge pela primeira vez representado em dois novos trabalhos em bronze da artista. Como uma metáfora à ideia de banho de aço, os relevos – em exibição numa pequena sala do segundo piso- retratam situações ambíguas, revelando-nos personagens andrógenas de membros superiores alongados - caraterística que encontramos nas primeiras pinturas da artista e também nos seus desenhos – cujos corpos nus se entrelaçam. A melancolia, serenidade e fragilidade que as figuras exprimem contrasta com a dureza do material em que são feitas e que congeladas na própria matéria - num estado entre o bidimensional e o tridimensional - parecem querer libertar-se do banho de aço. Momentos de suspensão e de congelamento prosseguem nas duas pinturas em exibição no último piso dedicado à mostra. Num ambiente radicalmente diferente dos anteriores, dominado pelo vazio e pelas fronteiras do espaço em branco da própria sala, observamos cenas de paisagens atmosféricas: ondas e explosões fixas no tempo. Não obstante a violência das imagens, a força e inquietude nelas latente, há também algo de bucólico e fantasmagórico que as tonalidades de branco e cinza ajudam a reforçar, imprimindo-se uma leveza que contrasta com a rigidez das esculturas em ferro negro. Numa relação direta entre o espaço interior da sala e o exterior do museu, observamos através das grandiosas janelas que se rasgam para o parque, a monumental escultura em forma de piscina Stahlbad (2025) instalada no Pátio do Ulmeiro. Convocando o imaginário de lazer e de veraneio, todas as promessas de recriação desfazem-se ao constatarmos de que se trata de uma piscina vazia, sem água. Envolta em casquilho e protegida por grades que impedem o acesso do visitante, a peça escultórica em ferro negro impõe-se no espaço como uma imensa massa negra de presença tensa e silenciosa. Elemento estruturante da exposição, Stahlbad evoca a memória das piscinas públicas que, construídas no pós-guerra europeu procuravam democratizar o acesso ao lazer e ao bem-estar comum [5]. Conservando a forma reconhecível de uma estrutura de lazer, desprovida da sua função original, em Stahlbad não há mergulhos nem diversão, apenas ausência e suspensão. Antes de chegarmos a Citizen (2025), obra que encerra a mostra, destaque para o relevo em bronze de uma bailarina, numa referência direta ao ballet enquanto prática desportiva associada à beleza, mas também à disciplina e ao endurecimento físico de um corpo “banhado a aço”; e para a série de desenhos nos quais figuram as mesmas personagens andrógenas, de membros alongados e em estados de metamorfose a que os relevos fazem referência. A última sala da exposição, mergulha-nos numa experiência imersiva e sensorial, dominada pelo som. Qual quarto com um colchão de aço, no qual não nos é permitido deitar - reforçando-se uma vez mais a ideia de endurecimento - visualizamos projetados nas paredes fragmentos da performance Doom, apresentada no início do ano em Nova Iorque, agora reconfigurados pela artista em Citizen. A obra cinematográfica de quatro canais que se estreia em Serralves, apresenta-nos performers, músicos, dançarinos e atores num cenário arquitetónico fragmentado que se dissolve num interior indefinido — descrito pela artista como uma “casa da esperança”. O gesto, a presença e a vulnerabilidade coletiva, temas centrais das performances de Imhof, traduzem-se na nova obra onde os corpos falam e dançam, ocupando um lugar de afirmação e de resistência. Colocando a escultura e a relação com a arquitetura do museu de Serralves no centro da experiência do visitante, a exposição Fun ist ein Stahlbad marca uma nova fase, mais contida e rigorosa, na prática artística de Anne Imhof. A piscina onde não podemos mergulhar, a estrutura de onde não podemos saltar e a arena onde não nos podemos sentar e assistir a um espetáculo, promovem um diálogo crítico com o presente e uma releitura desconfortável da expressão formulada por Adorno em 1944, ao constatarmos que a fusão entre o entretenimento e a disciplina se converteram num traço estrutural da vida contemporânea, que mais do que nos fazer questionar, nos silencia e vigia.
Mafalda Teixeira
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Notas [1] Cit. da intervenção da curadora Inês Grosso, durante a visita de imprensa ocorrida no dia 12 de dezembro de 2025.
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