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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição Sopro Luminar, Quinta da Cruz, 2025-2026. © Filipe Braga


Vista da exposição Sopro Luminar, Quinta da Cruz, 2025-2026. © Filipe Braga


Vista da exposição Sopro Luminar, Quinta da Cruz, 2025-2026. © Filipe Braga


Daniel Blaufulks, Uma Viagem a São Petesburgo (1998) - exposição Sopro Luminar, Quinta da Cruz, 2025-2026. © Filipe Braga


Jorge Molder, Uma Taxidermia de Papel, 1989 (à esquerda) - exposição Sopro Luminar, Quinta da Cruz, 2025-2026. © Filipe Braga


Vista da exposição Sopro Luminar, Quinta da Cruz, 2025-2026. © Filipe Braga

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ARQUIVO:


COLECTIVA

SOPRO LUMINAR




QUINTA DA CRUZ - CENTRO DE ARTE CONTEMPORÂNEA
Quinta da Cruz rnRua de São Salvador
3510-072 Viseu

18 OUT - 21 FEV 2026


 

 

A luz é a possibilidade única de percepção e experiência visual do mundo. A luz é direcional, isola, realça e guia o olhar. Na esfera da arte, foi sempre um elemento central. Desvela figuras, paisagens e narrativas, mas também sentidos e emoções. Se nos frescos e mosaicos antigos, a luz era sobretudo simbólica, caso da luz divina e eterna, desde o Renascimento que foi compreendida e estudada enquanto fenómeno científico e ótico. Seguiu-se a técnica do chiaroescuro, preconizada por nomes tais como Caravaggio, mediante a qual tudo se opera entre luz e sombra. Depois, com artistas como Turner, as formas dissolveram-se em reflexos e cores. Já os impressionistas situaram a luz no eixo da sua pintura, sendo em torno dela e a partir dela que a obra emerge.

Mas a luz ganhou uma renovada importância com o surgimento da fotografia, técnica dela integralmente dependente. O próprio conceito fotografia tem origem no grego photos, luz, e graphein, escrever, donde, escrever com luz. A luz é, portanto, determinante, tanto na pintura como na fotografia. As duas práticas intersetam-se desde que a fotografia se inscreveu no campo artístico e ameaçou conquistar a primazia da representação. Aliás, como nos explica o curador Miguel von Hafe Pérez, a fotografia acusa a pretensão de se relacionar com a pintura. Destacando-se a fotografia de retrato podem, inclusivamente, encontrar-se traços pictóricos em fotografia de rua, género correspondente a uma tradição moderna e a um distinto paradigma desenvolvido a partir dos anos 80.

É justamente desse cruzamento entre as duas práticas e da sua relação com a luz, que von Hafe concebeu a exposição “Sopro Luminar”, na Quinta da Cruz – Centro de Arte Contemporânea, em Viseu, inaugurada a 18 de outubro 2025 e passível de ser visitada até ao próximo dia 21 de fevereiro. A mostra é organizada em parceria com o CAV - Centro de Artes Visuais de Coimbra, do qual von Hafe é curador e programador cultural. O projeto dessa instituição alinha-se com os reconhecidos Encontros de Fotografia no apoio e na disseminação da criação artística nacional e na descentralização da cultura, valores que urge assinalar como prementes. Refira-se que os Encontros de Fotografia, iniciados em 1980, em Coimbra, promovem a fotografia moderna e contemporânea portuguesas com o fito da sua inscrição no contexto internacional, detendo uma das coleções mais relevantes do país e contando com alguns nomes estrangeiros. A esse valioso espólio pertencem as obras que compõem a presente exposição.

“Sopro Luminar” convida o público a refletir sobre a luz. Ao visitá-la, reconhecemos o papel da luz na fotografia como elemento técnico vital que determina o aparecimento da imagem e o modo como se revelam formas, espaço e profundidade. Simultaneamente, observamos a luz como construtiva de narrativas e significados, moldando sentidos e experiências. Esta abrangência do campo fotográfico traduz-se e desdobra-se numa exposição também ela vasta e plural, orquestrada pelo curador com uma invulgar sensibilidade e um nítido entendimento do que é a prática fotográfica e do lhe que é possível.

Ao longo da exposição apresentam-se várias fotografias documentais e realistas representativas de Portugal, das suas paisagens, sobretudo urbanas, e dos seus contextos sociais, realizados por encomenda por parte dos Encontros da Fotografia. Mencione-se, como o faz o curador, que um dos âmbitos mais valiosos do projeto em questão é incentivar fotógrafos, portugueses e estrangeiros, a trabalhar o território nacional. Tal foi o caso de Bernard Plossu, de nacionalidade francesa, com interessantes e intrigantes capturas reunidas na série “Lisboa” (1988). Serve também de exemplo “Sul” (1996), de Paulo Nozolino, um notável e tocante retrato do submundo.

Na exposição encontramos também algumas incursões ao estrangeiro, nomeadamente por Daniel Blaufuks em “Uma viagem a São Petesburgo” (1998), com duas fotografias de inebriantes detalhe, cor e dimensão. Mencione-se também André Principe e os registos da sua viagem de Lisboa a Tóquio, por terra e por mar, em “Smell Tiger Precedes Tiger” (2008). Ainda além-fronteiras, há uma das imagens mais valiosas da exposição e que o próprio curador entende tratar-se de uma referência particularmente direta à pintura, da série “Tel-aviv” (2008-2010), de José Pedro Cortes. A fotografia impele-nos para a intimidade de uma mulher, judia e ex militar, combatente voluntária em Israel. Por meio de intensos contrastes, luminosos e cromáticos, e da ausência de uma integral definição, a fotografia de Cortes situa-se entre o fotográfico e o pictórico, o universo do real e o do sonho.

Com efeito, várias outras fotografias exibidas nas galerias da Quinta da Cruz situam-se em terrenos mais subjetivos e interpretativos. Poderão destacar-se as nove fotografias de Julião Sarmento, da série “Quatre Mouvements de la Peur” (1978-95), na qual repetições de imagens ambíguas existem entre presença e ausência, real e imaginário, problematizando o tempo e a experiência. Também a apontar, “Uma Taxidermia de Papel” (1989), de Jorge Molder, onde vida, morte e expressão são convocadas pela figura animal.

Assim, a exposição confronta-nos com diferentes tipos de imagens, construções visuais e histórias. Demonstra e enaltece o modo como até as imagens representativas e enquadradas em específicas categorias da fotografia se expandem, não se encerrando aí. Embora em “Sopro Luminar” se sublinhe a valorização da luz na construção da imagem fotográfica, não se trata somente de mais um encontro de fotografias, mas de uma proposta curatorial com a qual Miguel von Hafe Pérez explora e desvenda diferentes possibilidades dos campos visual e interpretativo e os seus referentes e ramificações na História da Arte. Simultaneamente, a mostra resgata-nos do que o próprio curador enuncia enquanto a “banalidade imagética que nos assalta diariamente”. Com efeito, vivemos numa inédita saturação de imagens e a atual exposição, pela sua indiscutível excelência, recorda-nos do potencial da fotografia, da imagem, da arte, enfim, do próprio olhar.

 

 

Constança Babo
(Porto, 1992) é crítica de arte e membro da AICA Portugal. É doutorada em Arte dos Media e Comunicação pela Universidade Lusófona, mestre em Estudos Artísticos - Teoria e Crítica de Arte, pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, e licenciada em Artes Visuais – Fotografia, pela Escola Superior Artística do Porto. Realizou, igualmente, os cursos Curating New Media Art e Redefining Museums: Curatorial Theory and Practice for a New Era, no Node Center – Curatorial Studies Online, e Questions of Judgement, na Universität der Kunst Berlin. Foi research fellow no projeto internacional BEYOND MATTER, no Zentrum für Kunst und Medien Karlsruhe, e colaborou como investigadora no projeto MODINA, na Tallinn University. Também publica artigos científicos.
 

 



CONSTANÇA BABO