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EXPOSIÇÕES ATUAIS


© Rui Apolinário


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© Espaço Mira


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© Espaço Mira


© Madalena Folgado


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© Espaço Mira


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COLECTIVA

UM MANUAL ABERTO PARA O GESTO SEMPITERNO




ESPAÇO MIRA
Rua de Miraflor n.º 159
4300-334, Campanhã, Porto

12 SET - 31 OUT 2026


 

 


Um ser estranho e informe, vestido com um pano cru, longo e maleável, começa a ganhar corpo quando se movimenta. Abre-se uma racha no topo, de onde sai uma língua rosa que se mexe e nos desconcerta. A figura desliza pela cadeira onde se encontrava sentada e começa a percorrer o chão da galeria. Do seu centro branco nascem dois braços pretos, que pisam e se contorcem em movimentos estranhos e animalescos. Ainda não sabemos o que estamos a ver, nem o que esperar daquilo que se apresenta diante de nós.

Foi assim que fomos recebidos na inauguração do projeto “UM MANUAL ABERTO PARA O GESTO SEMPITERNO”, no Espaço MIRA, no Porto. Com direção artística de Madalena Folgado, o projeto reúne artistas e comunidades numa constelação de imagens, gestos e experiências que se foram desenvolvendo ao longo de vários meses em São Miguel de Acha, em Idanha-a-Nova. Esta terra, onde a autora do projeto tem raízes, liga-se pelo adufe a uma concha, a Tridacna squamosa, na qual, há 28 séculos, em Assur, terá sido gravado o desenho de um músico a tocá-lo. [1]

Recuemos um instante. Na sala escurecida, um foco de luz incide sobre uma parede branca, onde sobressaem chaves e ferramentas enferrujadas. Só quando nos aproximamos conseguimos distingui-las melhor, embora nem assim seja inteiramente possível separar o objeto da sua sombra. A luz e a sombra andam de mão dada, como se uma não pudesse existir sem a outra. No centro, uma mesa de pés altos apresenta um naperon imaculado e um prato de louça tradicional portuguesa, onde repousa uma laranja cortada em gomos. A figura está sentada à mesa, enquanto nós — espectadores — aguardamos a sua revelação. O tecido cai, transformando-se numa saia. Surge um rosto feminino, que coloca um lenço azul escuro na cabeça e nos devolve o olhar. A figura leva os gomos de laranja à boca e ri-se. Estará a rir-se de nós, ali estupefactos, apanhados de surpresa? Rimo-nos de volta. Levanta-se e tapa a cara com o lenço. A música que ecoa pelo espaço intensifica-se, o corpo dança entre as pessoas e os ecrãs espalhados pelo chão. As imagens das duas grandes projeções atravessam o corpo da performer Alice Guerreiro, que deambula pela sala até desaparecer num quarto fechado.

 

© Espaço Mira

 

Tal como a concha, também no feminino se encontra a origem do mundo. Talvez seja por isso que surge esta figura, ao longo do projeto, tanto estranha e misteriosa quanto forte e cativante. Há qualquer coisa que permanece neste corpo, que se revela e se esconde, que se oferece ao olhar sem nunca se deixar apreender por completo. As imagens, aqui, não servem apenas para mostrar alguma coisa: acontecem entre o que vemos e aquilo que, sem sabermos bem porquê, nos afeta.

Acompanhados da paisagem sonora que enche a sala, observam-se os vídeos realizados durante as residências. Neles aparecem a casa, os campos cobertos de flores, a figura que mergulha no rio, envolvida num tecido branco que flutua à superfície da água, as conversas mudas entre as senhoras e senhores daquelas terras, os cantares e a música dos adufes. Compõem um conjunto de imagens que não se limita a documentar um lugar. Reencontrá-las agora, transformadas e em relação com outros elementos, é perceber que uma imagem não se esgota no instante em que é produzida.

A participação do Grupo de Cantares Tradicionais de São Miguel de Acha e da Comunidade Surda convoca outras formas de transmissão, em que as mãos, os movimentos e os corpos comunicam para lá da palavra. O gesto passa de uns para outros, mas nunca permanece inteiramente igual. Na inauguração, essa passagem prolongou-se para lá das imagens, num momento musical protagonizado pelas cantadoras do grupo, seguido de uma performance gastronómica com comidas típicas da região. Entre o interior e a cidade, o passado e o presente, os cantares e os sabores transportam consigo uma memória que não se limita a ser preservada; continua a fazer-se, a cada encontro, noutros lugares e através de outros corpos.

No final da exposição, uma mesa iluminada por um candeeiro de luz amarelada reúne livros, cadernos, fotografias, ramos, folhas e, como um símbolo poético, um adufe. Parece a secretária de alguém que interrompeu o trabalho por instantes, deixando tudo preparado para o retomar.

 

© Espaço Mira

 

Depois dos corpos em movimento e das imagens projetadas, encontramos aqui uma outra forma de presença, a das coisas que guardam vestígios, mas que continuam disponíveis para novas relações.

Como diz Madalena Folgado, este manual foi criado “a partir de experiências em conjunto, naquilo que de mais subjetivo (e singular) uma experiência pode objetivar” [2]. Talvez um manual aberto seja precisamente isto, um corpo de imagens em devir, entre o individual e o coletivo, que continua a transformar-se à medida que encontra quem o receba. Saí da exposição sem uma ideia definitiva, levando comigo qualquer coisa que escapa à total compreensão e que, por isso mesmo, permanece em aberto. Talvez seja mesmo sempiterno.

 

 

 

 

Leonor Guerreiro Queiroz

(Porto, 1999) é artista plástica e integra, atualmente, o Mestrado em Artes Plásticas, na ESAD.CR. Formada em música clássica (fagote) pelo Conservatório de Música do Porto e licenciada em Artes Plásticas (Pintura) pela FBAUP, expõe regularmente desde 2015 na companhia de artistas estabelecidos. Organizou projetos e mesas redondas com personalidades do meio artístico internacional, tendo desenvolvido publicações em revistas de arte e teatro. Trabalha como professora convidada na DTK - Fine Arts School in Bærum (Noruega), desde 2023 e com a artista Paulina Olowska, desde 2020 na Academia de Belas Artes de Praga. Na área da escrita curatorial colabora, desde 2024, com outros artistas e curadores, escrevendo textos de apoio a exposições e reflexões sobre as mesmas.

 

 

 

 

 

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Notas

[1] Na apresentação do projeto, Madalena Folgado parte da Tridacna squamosa, concha onde terá sido gravado o desenho de um músico a tocar adufe, para pensar uma ligação entre aquela terra, a música e o feminino: a concha como receptáculo de um feminino que não pertence a ninguém.
[2] Citação do texto de apresentação do projeto “UM MANUAL ABERTO PARA O GESTO SEMPITERNO”, da autoria da Madalena Folgado.



LEONOR GUERREIRO QUEIROZ