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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição Wrong Answers de Jenny Holzer, Museu de Serralves. © nvstudio / Cortesia Fundação de Serralves


Vista da exposição Wrong Answers de Jenny Holzer, Museu de Serralves. © nvstudio / Cortesia Fundação de Serralves


Vista da exposição Wrong Answers de Jenny Holzer, Museu de Serralves. © nvstudio / Cortesia Fundação de Serralves


Vista da exposição Wrong Answers de Jenny Holzer, Museu de Serralves. © nvstudio / Cortesia Fundação de Serralves


Vista da exposição Wrong Answers de Jenny Holzer, Museu de Serralves. © nvstudio / Cortesia Fundação de Serralves


Vista da exposição Wrong Answers de Jenny Holzer, Museu de Serralves. © Cortesia Fundação de Serralves


Vista da exposição Wrong Answers de Jenny Holzer, Museu de Serralves. © nvstudio / Cortesia Fundação de Serralves


Vista da exposição Wrong Answers de Jenny Holzer, Museu de Serralves. © nvstudio / Cortesia Fundação de Serralves


Vista da exposição Wrong Answers de Jenny Holzer, Museu de Serralves. © nvstudio / Cortesia Fundação de Serralves


Vista da exposição Wrong Answers de Jenny Holzer, Museu de Serralves. © nvstudio / Cortesia Fundação de Serralves


Vista da exposição Wrong Answers de Jenny Holzer, Museu de Serralves. © nvstudio / Cortesia Fundação de Serralves

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JENNY HOLZER

WRONG ANSWERS




MUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA
Rua D. João de Castro, 210
4150-417 Porto

18 JUN - 01 NOV 2026

As Ruínas da Informação

 

 

Jenny Holzer (n. 1950, Gallipolis, Ohio) é uma das figuras mais importantes da arte norte-americana surgida no final dos anos 1970. A particularidade da sua obra reside no uso da linguagem como o seu principal meio artístico. Jenny Holzer é uma artista conceptual e de arte pública que transforma a escrita em comunicação visual através de diferentes suportes, entre os quais a tecnologia electrónica e os dispositivos LED.

Wrong Answers, a primeira exposição individual de Jenny Holzer em Portugal, apresenta no Museu de Serralves mais de quatro décadas de uma prática artística centrada na linguagem. A exposição percorre obras desde os Truisms (1977-79) e Inflammatory Essays (1979-82) até esculturas em pedra, pinturas, ossos humanos e painéis LED robotizados. Holzer utiliza a palavra em diferentes suportes, deslocando-a dos circuitos habituais da publicidade, da informação e da comunicação pública.
A mostra evidencia, simultaneamente, o poder de amplificação das palavras e a sua capacidade de perder, distorcer ou ocultar significado.
Documentos governamentais censurados, fragmentos de esculturas e sinais electrónicos destruídos introduzem a questão do apagamento e da censura.
Deste modo, Wrong Answers coloca em tensão linguagem e poder, informação e manipulação, liberdade e supressão.

As modalidades artísticas utilizam meios expressivos diferentes para apresentar um conteúdo, estando esta lógica muito presente na forma tradicional de representar a realidade. Porém, o advento da modernidade – e, posteriormente da contemporaneidade, – fez com que o conceito de representação sofresse uma deslocação. No fundo, a questão é perceber o que acontece quando a cor, a linha, o som ou o movimento deixam de ser os únicos elementos de criação, se pensamos no trabalho da artista Jenny Holzer. A artista utiliza a escrita luminescente na produção de textos que configuram a própria obra com o auxílio da tecnologia LED.

Deste modo a questão deixa de ser apenas o que é representado e começa a ser também o que acontece quando a cor, a linha, o som ou o gesto deixam de ser instrumentos de representação?

 

1. Entre a Memória e o Fluxo Electrónico

Por exemplo para Kandinsky, a cor deixa de descrever objectos e passa a ter valor expressivo por si mesma; segundo Mondrian, as linhas deixam de organizar uma paisagem para constituírem a própria obra; no caso da música Schoenberg, prefere explorar os próprios os sons a continuar dependente da tonalidade tradicional e Pollock, torna o gesto e o processo de pintar em parte essencial da obra. Pretende-se com isto dizer que o que igualmente muda, sendo este um ponto importante da nossa questão, é a função representativa dos meios artísticos, ou seja, o que acontece na modernidade é a deslocação de uma arte que representa alguma coisa através dos seus meios para uma arte que começa a interrogar os próprios meios através dos quais alguma coisa pode aparecer. As técnicas de produção converteram-se no objecto estético. A obra deixa por isso de esconder o seu processo de produção daí que as pinceladas permanecem visíveis enquanto as colagens mostram os materiais utilizados da mesma forma que a montagem cinematográfica e a teatral como no caso de Brecht passam ambas a ser assumidas como linguagem. O espectador deixa assim de olhar apenas para o que está representado e passa também a olhar para como a obra foi construída.

A particularidade da obra de Holzer reside no uso da linguagem como o seu principal meio artístico. A artista americana embora pertença a um momento muito posterior relativamente aos artistas atrás referidos, trabalha mesmo assim ainda dentro das consequências dessa transformação moderna suscitada pela questão da deslocação da representação. Só que a artista, em vez de explorar a autonomia da cor, da linha ou do gesto, ela desloca a questão para a linguagem e para os dispositivos tecnológicos que a fazem aparecer.

Nos seus trabalhos com LED, por exemplo, a luz não está ali para representar uma paisagem, um corpo ou um objecto. E o texto que percorre o painel também não funciona como legenda de uma imagem. O próprio texto é a obra. Mas há algo ainda mais importante: Holzer apropria-se de uma tecnologia que, no mundo quotidiano, serve para transmitir informação — notícias, publicidade, avisos, cotações, mensagens — e transforma-a num meio artístico. Para Holzer, a escrita deixa de ser uma inscrição para se tornar uma emissão, ou seja, a palavra já não está simplesmente sobre uma superfície. É emitida pela superfície. E isso muda profundamente a relação entre texto e suporte. O papel serve de suporte ao texto mas o LED transforma o texto em luz, dispositivo, movimento e tempo passando a ter uma dimensão temporal e cinética. O texto LED não é simplesmente texto colocado num ecrã — é texto que passa a existir como luz, movimento, sequência e sinalização pública. O texto, neste caso, passa a ser o próprio meio ao retirar a arte dos seus suportes nobres (a tela na pintura) e apropria-se dos painéis publicitários urbanos para questionar o poder e a comunicação das massas.

O Whitney Museum, aliás, descreve precisamente as obras de Holzer como grandes apresentações públicas de linguagem escrita através de sinais electrónicos iluminados, cartazes, publicidade e projecções. Eu evitaria chamar Jenny Holzer de artista “techno” por que no seu caso tecnologia é sobretudo um instrumento para transformar a escrita e fazê-la circular no espaço público.

 

2. Truísmos

Na primeira sala do Museu de Serralves, o enorme rosto de Trump aparece sobre o conjunto dos Truisms (Truísmos) [1] envolvido por frases coladas nas paredes que assumem a aparência de verdades gerais. No caso de Jenny Holzer, há uma questão particularmente interessante: os seus Truisms são frases curtas que imitam precisamente esse carácter de verdades óbvias ou máximas universais. A meu ver, isto permite uma leitura particularmente interessante para a questão que temos vindo a discutir sobre representação e linguagem. Holzer coloca diante do espectador uma imagem extremamente reconhecível — quase uma caricatura do poder — mas, ao mesmo tempo, faz com que ela seja atravessada por palavras. A imagem já não pretende representar simplesmente uma pessoa; torna-se um signo de poder, de comunicação política e de fabricação da realidade. o abandono da representação não significa necessariamente o desaparecimento da imagem; significa que a imagem deixa de valer apenas pelo que representa e passa a interrogar o próprio processo através do qual a realidade é produzida, transmitida e manipulada por imagens e palavras.

 

3. Broken

Achei a melhor peça da exposição a instalação Broken (2026) que resulta num imenso conjunto de pedras partidas e placas de LED com robótica. Fez-me pensar em algumas das imagens mais alucinantes do filme Blade Runner (1982) de Ridley Scott que sugerem no caso da instalação de Holzer a visão futurista de uma sociedade colonizada em que a informação é atravessada por um fluxo electrónico de imagens que passam a grande velocidade em direcção ao vazio. No filme de Ridley Scott, a cidade não é apenas futurista; é uma cidade onde a publicidade luminosa, os ecrãs gigantes e o excesso de estímulos visuais produzem uma experiência de permanente saturação. Em muitos momentos do filme de Scott, a informação circula sem conduzir a uma verdade ou a um sentido último.

 

Jenny Holzer, Broken, 2026. Pedras partidas e placas de LED com robótica. Vista da exposição Wrong Answers no Museu de Serralves.

 

 

Na verdade, a instalação Broken parece funcionar precisamente a partir de uma tensão entre dois elementos contraditórios: por um lado, a pedra partida, que evoca ruína, memória, peso histórico e permanência; por outro, os painéis LED robotizados, associados à velocidade, à circulação incessante da informação e à obsolescência tecnológica. Entre pedras partidas e sinais electrónicos em movimento contínuo, a obra sugere uma civilização onde a memória histórica subsiste apenas como ruína, enquanto os fluxos de informação prosseguem autonomamente, indiferentes ao seu destino e ao seu significado.

Esta instalação é apresentada por Serralves como um confronto entre a proliferação dos textos electrónicos e os amontoados fragmentados de esculturas e sinais destruídos. É também a visão de um mundo saturado por signos, publicidade, imagens e mensagens luminosas que perderam qualquer centro organizador e onde há apenas fluxo. Os sinais electrónicos de Holzer caminham em direcção a um excesso de sentido que acaba por produzir ausência de sentido. Quando tudo comunica, nada consegue verdadeiramente comunicar. Holzer destruiu algumas das suas próprias esculturas em pedra para produzir fragmentos que enquadram os percursos dos LED. Isso confere à instalação uma dimensão quase arqueológica: como se estivéssemos simultaneamente perante os restos de uma civilização desaparecida e os sistemas de comunicação de uma civilização futura. A obra parece situar-se entre ruína e ficção científica.

Deste modo, a exposição revela uma obra conceptual estimulante em que o texto deixa de ser apenas suporte de uma mensagem para se tornar matéria artística e instrumento de interrogação crítica.

A mostra está patente no Museu de Serralves de 18 de junho a 1 de novembro de 2026, com curadoria de Philippe Vergne, director do Museu de Serralves.

 

 

 

Carlos França

Crítico de arte.

 


:::

Notas

[1] Em lógica e filosofia, truísmo (truism, em inglês) é uma proposição que é sempre verdadeira, mas que possui baixo valor informativo. No fundo, o truísmo é algo de conceptualmente correcto embora não acrescente conhecimento novo ou útil à discussão.



CARLOS FRANÇA