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JUNE CRESPOMÁS GRAVESKUNSTHALLE LISSABON Rua José Sobral Cid 9E 1900-289 Lisboa 24 JUN - 05 SET 2026 Esculpir a passagem, desdobrar materiais: os más graves de June Crespo
A investigação de Crespo debruça-se sobre as relações entre corpo, arquitetura, moldagem industrial e transformação da matéria. Inscreve-se num conjunto de práticas que hoje deslocam a atenção da representação para a agência dos materiais e participa de um zeitgeist artístico atento às infraestruturas, às zonas de contacto entre o orgânico e o inorgânico e às assemblages da matéria. O seu repertório escultórico circula entre alumínio, fibra de vidro, betão, resinas, tecidos e elementos industriais, compondo corpos instáveis que evocam espaços de construção, passagem, ruína e circulação. As formas que produz expressam um estado de permanente transição: nem inteiramente orgânicas, nem plenamente industriais, assemelham-se a corpos infraestruturais. A escultura aparece como um lugar de contacto entre processos materiais e modos de ocupar o espaço, resvalando numa espécie de não lugar constante, em que é a própria matéria que cria e desfaz as possibilidades de sentido. Nessa orfandade significativa, encontramos, por um lado, a vibração quase pura das matérias e dos seus impensados encaixes. Por outro, uma aproximação sugerida aos não-lugares, aos rastros e aos resquícios: aquilo que com dificuldade se deixa moldar, que não integra um campo rápido de assimilação estética e, ao mesmo tempo, ressoa pela própria matéria, que reivindica uma inóspita e quase impossível neutralidade.
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É através da materialidade da passagem como experiência estética que eu pensaria a obra de June Crespo na Kunsthalle. Em uma parede de 12 metros quadrados, uma única obra ocupa o pequeno espaço da galeria. Trata-se de um corpo escultórico de grande densidade volumétrica, formado por condutas de ventilação e lonas de transporte. Está acompanhada por uma peça sonora denominada hyle, desenvolvida por Estanis Comella em colaboração com Crespo. A composição sonora não funciona como mero acompanhamento: ela parece emanar da própria peça, como se a embalasse ou dela emergisse, prolongando-lhe a presença para além do volume. A atmosfera é a da passagem. Tubulações de espaços de circulação, pedaços de metro, rodovias despovoadas, sinalizações angulares. Não se trata de uma passagem metafísica. Tudo é bem material em uma composição que articula partidas e recuos, superfícies e interrupções sem qualquer metafísica. Estamos diante de lona e alumínio. E não há nada a ser encontrado no interior. É sobretudo a força dos materiais que produz a atmosfera da obra, juntamente com a sua escala, que se impõe no espaço expositivo como um corpo ligeiramente deslocado, mas que ao mesmo tempo remete às dimensões colossais das infraestruturas que povoam a paisagem contemporânea. A obra faz comparecer um entre-lugar. Um pedaço de memória de circulação, sem nenhuma razão ou vontade de conduzir a qualquer destino. Indo além do paradigma ecológico que hoje organiza parte significativa da produção artística, ainda que sem abandoná-lo completamente, Crespo dirige-se para a vibração material da infraestrutura, para a eventual agência da própria matéria. Ela mesma, a materialidade, a condição da experiência. Sem intenção de narração ou representação, a escultura acompanhada da composição almeja destacar ou reorganizar os campos de ressonância entre matéria, espaço e som. Se observado o desenvolvimento da prática de Crespo ao longo do tempo, percebemos que a artista trabalha com um repertório de materiais que circula entre o industrial e o mineral, entre o fabricado e o inorgânico. São materiais dotados de peso, densidade e resistência, tensionados por elementos de leveza, equilíbrio e suspensão. Esse repertório evoca, por si mesmo, determinados espaços, trazendo ao de cima uma ressonância mnemónica através, não da forma, mas da materialidade. Nesse sentido, espaços de construção, passagem, ruína, resíduos e rastros são reformulados pelo gesto escultórico da artista, embora sem se cristalizarem numa estrutura formal plenamente estabilizada. Nesse contexto, as peças parecem carregar inolvidavelmente o peso das suas próprias origens, reconfigurando a experiência estética pela própria escolha original dos materiais. Do ponto de vista compositório, a artista aparece com um gesto, sobretudo, de trazer a presença, recusando solidificar o trabalho em significações exteriores. Ainda que cada peça pareça aspirar a ultrapassar a sua própria condição material, ela retorna continuamente a si mesma, evidenciando assim uma espécie de organismo infraestrutural em que a matéria aparece como agente sensível, sonoro e vibrátil.
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Sugeridas passagens e zonas intermédias da experiência contemporânea marcadas pelo fragmento, pelo rastro, pelo deslocamento, pela ausência de lugar e pelas infraestruturas da circulação, há também uma espécie de desabitação existencial operacionalizada pela ausência de qualquer horizonte interpretativo. Não estamos diante de uma ideia previamente concebida e posteriormente realizada através dos materiais: os materiais não são meios para um fim, mas quiçá um fim em si mesmo, determinando as possibilidades e limites do constrangimento físico entre massas, pesos, tensões e encaixes. Nesse cenário de certa autonomia dos materiais, ao lado de uma recusa de uma forma previamente fechada, ficamos a pairar entre as ressonâncias trazidas pela lona de transporte e os tubos de ventilação que o atravessam, uma vez que a relação entre matéria e forma não faz emergir uma lógica de articulação legível a partir da sua própria abertura. Essa obra aberta, poderíamos dizer, deixa entrever um mundo em que a construção e a composição se diluem em favor de uma coexistência durável, e em que a ressonância dos próprios elementos parece emergir com tanta ou mais força do que a forma, ou do que a articulação entre forma e matéria. A artista desloca, assim, a experiência para um campo onde a presença antecede a interpretação e onde a infraestrutura deixa de ser apenas suporte para se tornar acontecimento estético. O que permanece não é uma imagem memorável nem uma narrativa a decifrar, mas a persistência física de materiais. A obra afirma-se, assim, como um lugar de passagem que conduz às suas propriedades: pesada, vibrátil, opaca, atravessada, irredutível. É nessa suspensão entre presença e indeterminação que a exposição encontra a sua singularidade, deixando aberto não só um campo de ressonâncias possível, mas também a sugestiva ideia de que a relação entre matéria e estrutura aparece de forma repensada.
Mariana VarelaÉ escritora e poeta. Publicou Enigmas de Jaguar e Jasmim (2019) e Rotativa (2022) ambos pela editora Urutau. Editou a mini-revista literária Frente! e edita atualmente a revista literária Letra Lenta. Mestre em Sociologia, faz doutoramento em Filosofia e escreve artigos na Intersecção da Filosofia e da Estética. Está publicada em revistas e antologias.
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