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PROGRAMA COMEMORATIVO DO CENTENÁRIO DE JÚLIO POMAR

2026-01-09




Um prémio de pintura, exposições em Portugal e no estrangeiro, a par de lançamentos editoriais, fazem parte do programa comemorativo do centenário do nascimento de Júlio Pomar (2026-2028), anunciou o Atelier-Museu do artista plástico, em Lisboa.

Um dos eixos centrais das celebrações do pintor - cujos cem anos do nascimento se cumprem no sábado - vai ser o lançamento do "Prémio de Pintura - Centenário de Júlio Pomar", no valor de 5.000 euros, dirigido a artistas que desenvolvem trabalho no campo da pintura.

Entre os principais destaques expositivos está a antológica "A Cola não faz a Colagem", com inauguração prevista para abril, oferecendo uma leitura alargada e crítica do percurso do artista. Está também prevista uma exposição itinerante internacional intitulada "Centenário de Júlio Pomar", organizada pelo Camões - Instituto da Cooperação e da Língua, em parceria com o Atelier-Museu, que levará a obra do artista a diversas embaixadas portuguesas e a outros equipamentos culturais em vários contextos internacionais, de acordo com a organização.

O programa integra também a exposição "Pintura - Pintura: Júlio Pomar e Gabriel Abrantes", agendada para setembro, promovendo um confronto entre duas gerações e linguagens artísticas no campo da pintura.

A programação expositiva fora de portas, que a entidade tem vindo a desenvolver, contemplará, já em janeiro, a mostra "Robertos. Desenhos de Júlio Pomar", patente no Museu da Marioneta, em Lisboa, onde serão revelados pela primeira vez estes trabalhos do artista, indica a organização.

No plano da reflexão e do debate, estão previstos um ciclo de conversas sobre arquivos, promovido pelo Banco de Arte Contemporânea e pelo Atelier-Museu Júlio Pomar, bem como um ciclo de conversas dedicado à relação entre "Arte e Inteligência Artificial", com o objetivo de aprofundar questões atuais da criação artística.

As comemorações incluem ainda vários lançamentos editoriais, entre os quais "Parte Escrita IV: Relatórios de Bolseiro de Júlio Pomar e outros documentos", reunindo os relatórios enviados pelo artista à Fundação Calouste Gulbenkian durante o período em que foi bolseiro em Paris, assim como o lançamento do volume III do "Catálogo Raisonné (Pintura) de Júlio Pomar", e uma performance da Companhia de Teatro Cão Solteiro.

Num texto sobre as celebrações, a diretora do Atelier-Museu Júlio Pomar, Sara Antónia Matos, recorda a obra de um artista "sempre em transformação, que atravessou décadas, e cuja vida e legado o tornaram numa das figuras mais incontornáveis da arte portuguesa do século XX e XXI".

"A celebração de um centenário, especialmente no contexto de figuras como Júlio Pomar, é um marco de extrema importância cultural, social e histórica, desde logo porque comemorar a arte e os artistas significa, na atualidade, mais do que nunca, agir contra a destruição da memória, da história, das sociedades, da beleza, da vida", sustenta a curadora e investigadora.

No centenário de Júlio Pomar, "símbolo de longevidade intelectual, festeja-se não apenas o tempo decorrido, mas a herança cultural que sobrevive ao indivíduo e estimula as gerações futuras a relançar o seu legado de liberdade e de resistência", sublinha a curadora.

Neste âmbito, o programa de 2026 "permitirá às novas gerações conhecerem obras fundamentais do seu património artístico, possibilitará ´repensar´ o artista no seu contexto histórico, avaliando o modo como a sua obra influenciou a modernidade e como continua a dialogar com o presente, catalisando a publicação de novos estudos, a realização de exposições antológicas e programas complementares multidisciplinares".

Sara Antónia Matos recorda ainda o percurso de Pomar, desde o neorrealismo, como uma figura da contestação e da crítica ao regime, alargando o seu mundo artístico através de colaborações que pareciam "inconciliáveis, unindo polos antagónicos, aproximando cultura erudita e cultura popular".

O Atelier-Museu abriu as portas ao público a 05 de abril de 2013 com uma coleção de cerca de 400 obras, nele depositada pela Fundação Júlio Pomar, doação reforçada em 2014, e, em 2023, quando esta entidade cessou atividade, passou o depósito do seu acervo para propriedade da Câmara Municipal de Lisboa, "para desenvolvimento e consolidação do trabalho do museu", refere ainda a diretora.

Também foram lançadas mais de 30 publicações, e, por vontade do próprio Pomar, em 2015 foi instituído o Prémio de Curadoria de Arte Contemporânea com o seu nome, e criada uma bolsa de residências em Nova Iorque que, em alguns casos, conferiu aos artistas nomeados a sua primeira experiência de internacionalização, recorda a diretora.

Júlio Pomar morreu com 92 anos e mais de 70 de carreira, "tendo trabalhado diariamente no seu atelier, tornando a arte presente na vida do dia-a-dia, o que é patente em várias obras públicas, e particularmente na Estação Alto dos Moinhos, do Metropolitano de Lisboa", refere.

"Não chegou a ver a descoberto as pinturas censuradas do Cinema Batalha, no Porto, mas elas estão cá - em 2026 e para o futuro - para nos fazer lembrar que, em muitas circunstâncias, a luta pela liberdade e pela democracia resistem às formas de opressão mais vis", comenta a responsável, recordando que Pomar foi detido pela PIDE e esteve quatro meses preso.

Júlio Pomar instalou-se em Paris em 1963 e foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian de 1964 a 1966, vivendo e trabalhando entre a cidade francesa e Lisboa até à data da sua morte, em maio de 2018, na capital portuguesa.