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© Julia Ugelli
O Museu do Design inaugurou, em 17 de dezembro de 2025, “Alexandre Farto aka Vhils. Selected Editions. 2008–2024”, uma exposição organizada pelo MUDE e pela Vhilstudio, sob a curadoria de Pedro Ferreira, que apresenta um lado menos conhecido do artista português, prestigiado internacionalmente por suas intervenções urbanas. Até 1 de março de 2026, o primeiro piso do museu acolhe 73 edições limitadas, oferecendo ao público um percurso pelo universo experimental de Vhils, que vai muito além das fachadas de cidades e muralhas descascadas.
Longe da escala monumental que tornou o seu nome famoso, a mostra concentra-se na edição, espaço onde o artista investiga materiais, técnicas e processos com rigor apurado e liberdade poética. Entre serigrafias, gravações, esculturas e objetos tridimensionais, cada obra configura um laboratório de experimentação, onde papel, cerâmica, pedra e produtos industriais se encontram em combinações inéditas. O percurso não é cronológico, as obras são organizadas em núcleos que permitem leituras sensíveis e surpreendentes, destacando a relação de Vhils com o gesto artístico e o trabalho conjunto com outros criadores.
A exposição evidencia também o diálogo do artista com a memória e com a identidade em transformação. Fragmentos de cidades, lembranças de espaços e rostos desvanecidos emergem nas superfícies trabalhadas, refletindo a tensão entre o global e o local, o momentâneo e o duradouro. Toda edição transforma-se em testemunho da capacidade de Vhils de tornar acessível a todos uma expressão visual originalmente urbana e grandiosa.
No leque de trabalhos de cenografia, cartazes escavados à mão e peças corroídas por lixívia, o visitante é confrontado com a materialidade da criação: técnicas que revelam camadas, sombras e relevos, que exploram o suporte como espaço de arquivo e resistência. Há também colaborações, registros de murais efêmeros, livros, objetos e vídeos que conectam o design à arte contemporânea, incluindo algumas edições realizadas em parceria com outros artistas, como Bordalo II e Joana Vasconcelos, oferecendo múltiplas frentes de observação e reflexão.

© Julia Ugelli
“Alexandre Farto aka Vhils. Selected Editions. 2008–2024” convida o público a atravessar quase duas décadas da prática de Vhils, compreendendo o lugar central da edição em sua obra, em que pesquisa, repetição e invenção convergem. O artista não apenas reproduz: ele destrói, reconstrói e expõe níveis de sentido, como um arqueólogo urbano que transforma restos e resíduos em imagens poéticas.
No MUDE, o espectador é chamado a perceber o contraste entre o que se esconde e o que se revela, a acompanhar a evolução de um gesto que transforma paredes em poesia visual, agora transposto para um espaço museológico, íntimo e acessível. Em meio a procedimentos, materiais e tempos, a exposição reforça que, para Vhils, a arte é simultaneamente experiência, inovação e memória: um trajeto sensível que atravessa fronteiras físicas e criativas, aproximando as pessoas da essência de sua prática.
Por Julia Ugelli