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CATARINA PATRÍCIO

FÁTIMA LOPES CARDOSO


 

 

Estudou Pintura, na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, em 2003, mas foi à procura de outros saberes para cruzar a comunicação, a antropologia, a história contemporânea e a política na sua obra. Em 2014, doutorou-se na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH), da Universidade Nova, com a tese “A Dissuasão Visual: Arte, Cinema, Cronopolítica e Guerra Indireto”. A investigação acabou por lhe despertar um forte sentido político que transformou o processo criativo. Em tempos de inquietação, Catarina Patrício inspira-se no mundo que a rodeia e vai ao passado procurar técnicas que combinam, no desenho a grafite, a colagem de imagem com a palavra - muito usada pelos dadaistas - para nos levar a pensar sobre o presente. É como se cada quadro fosse um cosmo cultural da civilização mediatizada, com força própria e que convoca à reflexão sobre o mundo em que vivemos. Ao mesmo tempo, é um convite à liberdade de interpretar, de decifrar os enigmas que estão para lá das imagens. Quase sempre no silêncio da Academia, onde combina a arte com a carreira de docente universitária e investigadora no CICANT (Centro de Investigação em Comunicações Aplicadas, Cultura e Novas Tecnologias), as ideias da artista vão-se gerando até que a libertação do tempo lhe dê oportunidade para dar vida ao papel em branco.

 

Por Fátima Lopes Cardoso


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FLC: O desenho é talvez o mais antigo método de registo do real e das ideias que surgem da ficção. É também o processo criativo com que mais te identificas. Que relação pretendes estabelecer entre o desenho e o mundo, seja ficcional ou documental?

CP: Primeiro, é importante perceber o que é o desenho, a base fundamental de todas as artes, que antecede a cristalização de uma ideia, num signo, símbolo, numa imagem. Deixo-me maravilhar completamente pela pintura do Paleolítico. E aí, encontramos não só desenho, mas também formas de cinema. O que faço é, precisamente, combinar o desenho e o cinema, de uma forma muito literal, percebendo não só o que significa enquanto técnica, mas também como linguagem. Enquanto técnica, o desenho é uma experiência temporal. Atrai-me enlentecer o gesto criativo. É muito solitário, mas é o que aprecio. Quando estou a desenhar, o tempo passa por mim sem que dê conta. É uma espécie de pausa, uma abstração do pensamento: tenho parte numa experiência estética pelo fazer e essa manualidade atrai-me. Percebo que esta tendência está claramente presente nas pinturas rupestres do Paleolítico, não só por toda a investigação já desenvolvida e tudo o que foi pensado, mas pelo que se sente ao observar essas formas de arte: não se trata apenas de uma pulsão para a comunicação, mas também para o fazer, para a contemplação, para fixar histórias.


FLC: E que impulso te leva a desenhar?

CP: No sentido da técnica, é pelo processo da paragem. Como linguagem, é pelo processo de escolha. Os nossos antepassados do Paleolítico também eram colecionadores. Não estou a louvar uma época de ouro da arte sobre outras, mas, de facto, o Paleolítico foi uma época de ouro na arte. No Neolítico, suspende-se a pintura; começa arquitetura e a era do trabalho. E é também pela possibilidade de selecionar imagens do arquivo geral, suspendê-las para retornarem à circulação, que desenho o que desenho. Geralmente, escolho-as do cinema, mas não só. Por um lado, essa vontade de combinar imagens, por outro, a vontade de travar alguma coisa, quando estou diante de um papel branco com um lápis na mão.


FLC: Essa vontade de criar pausas, numa sociedade da velocidade, sem tempo para a reflexão ou contemplação, é um ato de protesto ou optas por uma atitude pacífica?

CP: É pacífica. Mas não nego a ideia de que faço arte política, por que o é. Desde logo, pela recombinação medial entre o desenho, a palavra e a montagem, que é sempre altamente política. O protesto surge com a linguagem. A minha justaposição da imagem ou no corte não dá para escapar a essa lógica política, eventualmente, de protesto. No entanto, enquanto ato criativo, no momento de solidão no atelier, numa heterotopia, dá-se como uma dobra no tempo e no espaço, altamente pacífica, uma quase meditação.


FLC: Acreditas que serias a artista que és se não tivesses absorvido uma série de referências culturais que te acompanharam ao longo da juventude?

CP: Sempre soube que queria seguir artes porque sempre senti uma imensa vontade de contemplar, seja uma obra de arte, um belo filme, uma paisagem e até apreciar o fazer, a manualidade em si ao criar ou mesmo a consertar qualquer objeto. Mas houve um despertar mais político com a leitura. O doutoramento, na Universidade Nova de Lisboa, com uma tese orientada por Bragança de Miranda, teve um papel determinante. E até já no mestrado em antropologia. Não pelo grau, como é óbvio, mas pela metodologia de realizar um processo desta natureza, que pressupõe uma tese e a sua antítese, que envolve muitas leituras, desconstruir e desfazer ideias, estender e associar outras. Creio que a vontade de associação começou, sobretudo, já na vida académica. Nesse momento, surgiu não apenas uma artista política, mas uma pessoa política.


FLC: A propósito de associação, és professora, investigadora e artista plástica. Como é que combinas e cruzas cada uma destas atividades?

CP: O problema é só a gestão de tempo, porque sinto que são uma e a mesma coisa. A investigação alimenta-me as ideias, suscita-me procurar determinadas imagens, um processo que nem sempre é aleatório. Por vezes, dá-se a sincronicidade de um encontro espontâneo, por outras, procuro pela imagem certa que deixe transparecer qualquer ideia ou conceito, que não consigo expor em palavras. Ou nem quero. Prefiro deixar a leitura no aberto, o que é também uma estratégia política.


FLC: Como descreves o teu dia a dia criativo?

CP: Quando, por qualquer motivo, surge uma ideia - e até pode ser na preparação das aulas ou quando escrevo um ensaio -, fica cá dentro durante algum tempo. Desenha-se um mapa mental que pode levar a uma criação nova. Gosto da espontaneidade com que os estímulos aparecem de qualquer lado. Por exemplo, no outro dia passou O Acossado, de Jean-Luc Godard, na RTP. Tinha comprado, por impulso, uma edição antiga de Palmeira Bravas, de William Faulkner, uns tempos antes. Foi pela capa, porque a edição tem uma imagem gráfica muito bonita, mas também porque gosto do retrato cru, altamente descritivo da narrativa de Faulkner. Patrícia, personagem do filme de Godard, refere o livro. Apareceu-me ali fazer um cut, um encontro que prova a tal sincronicidade das ideias. Houve uma associação entre duas coisas: ter comprado um livro por impulso e, de repente, ver num filme, pouco tempo depois, a obra referida. Programar ver um filme não envolve tanto o sabor da descoberta de montagens, como acontece com o espontâneo da televisão.


FLC: A intertextualidade de diferentes elementos da cultura visual está muito presente na tua obra.

CP: Por um lado, gosto que as imagens, depois de desenhadas, me surpreendam com uma leitura qualquer, algo inconsciente. E por outro, às vezes, é intencional justapor determinadas imagens. Mas a justaposição nunca pode ser total porque não tenho nem na minha cabeça, nem no meu arquivo, a totalidade das imagens produzidas; há sempre imagens em falta. E quando aparece a certa, aí penso que esta imagem fica bem com aquela. Por vezes, a escolha é deliberada, noutras situações, é espontânea. Passo tempo a navegar nos livros ou na internet, mas não escondo o zapping na televisão. Tenho um desenho que é inspirado em John Heartfield, que é uma enorme referência para mim. É arte política do tempo do III Reich e do melhor que se criou. Temos a hiena de Heartfield e, por trás, surge uma cena do filme Persona, de Ingmar Bergman. A mensagem deste desenho é intencional, enquanto na de outras é quase inconsciente. Mas em conversa com o meu filho, de 9 anos, ele referiu que aquilo que mais o inquieta nesta obra não é a hiena enraivecida, mas sim o que a personagem do desenho estará a ver na televisão para não olhar para a hiena feroz. É mais assustador o que alguém vê na pequeno ecrã do que ter uma hiena no quarto, ainda para mais num ambiente hospitalar. A leitura do Manuel resolveu-me a ideia, era aquilo que pretendi obter com esta representação. Deixo a leitura em aberto ao observador.


FLC: Mencionas John Heartfiel, de que forma o surrealismo ou o dadaísmo te influenciam?

CP: É a questão política do movimento Dadá. O dadaísmo está na base do método de William Burroughs, que é aquele que retomo. O do Burroughs é mais potente porque condensa mais texto e imagem em cada corte do que apenas uma palavra. Os dadaistas misturavam palavras ou coisas. O Burroughs já mistura ideias, o que tem mais força. Como ele dizia, cortar o presente e, de alguma maneira, o futuro há-de escorrer.


FLC: Que materiais preferes utilizar nas tuas criações?

CP: A grafite é uma matéria muito plástica. Tem várias durezas. Posso riscar ou fazer manchas mais homogéneas. Às vezes, o carvão também entra para conseguir algumas nuances. Mas o grafite tem-me dado muito prazer trabalhar. Porquê desenho e grafite? Simplesmente, porque gosto. Caso gostasse mais de recortar fotografias, optaria por usar antes essa técnica.


FLC: Estudaste Pintura, na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa. Não deixa de ser interessante que, conhecendo todas as técnicas e expressões das artes plásticas, optas pela mais primária e ancestral.

CP: O desenho também me permite explorar a pintura e a fotografia. Também estudei Fotografia, na Alemanha, na Fachhochschule de Bielefeld, onde tive como professor Gottfried Jäger, para além da gravura. Tanto num como noutro processo ficava muito claro, porque se recorria ao preto e branco, que tinha de existir o maior espectro tonal possível. Tinha de haver um branco único e um negro único, algo que estava muito patente na gravura, pelo brilho que conferíamos no retoque antes de imprimir a chapa, como acontece na ampliação do preto e branco, em fotografia. Se nos alongarmos a olhar para os meus desenhos com proximidade, percebe-se que também existem formas de pintura, há como que pinceladas. Os esfuminhos permitem-me dar pinceladas no papel, criar zonas de luz e sombra.


FLC: Desenhar é trabalhar com a luz. Nos teus desenhos, sente-se a presença também da luz dos ecrãs, como seja o cinema e a televisão? De que forma o universo mais natural e artificial, criado pela história das artes, se cruzam?

CP: Na verdade, sempre vimos as coisas com filtros através dos ecrãs e essa leitura está nos meus desenhos.


FLC: Consideras-te uma artista política e com um forte sentido de contestação social. Como transferes esse ímpeto crítico para as tuas obras?

CP: Prefiro não descrever esse sentido de contestação das minhas obras, sobretudo, para não perder a liberdade de leitura. Vivemos num período difícil. Neste momento, o maior medo que sinto é o estrangulamento da liberdade de expressão. De facto, alimento-me da liberdade da imprensa, que está ameaçada pela capitalização dos meios de comunicação.


FLC: Participaste na ArtMadrid, contemporary art fair, em fevereiro de 2022, em Madrid. Como descreves a experiência?

CP: Foi boa. Os trabalhos foram bem recebidos. Houve, inclusivamente, em certos tours criados por alguns curadores, visitas aos meus quadros. Houve interesse por uma arte política. Senti que há interesse por esse retorno da arte política.


FLC: Sentiste que o teu trabalho tem potencial para ser mais valorizado no contexto internacional do que acontece em Portugal?

CP: Como sou muito uma artista de gabinete, não tenho essa perceção. Não só porque os trabalhos demoram a fazer, como tenho a carreira enquanto investigadora, a qual me exige tempo, apesar de me dar ideias e liberdade. Ter uma profissão e não estar dependente da venda do desenho para viver é muito importante; é a garantia da minha liberdade criativa. Por outro lado, sou mãe de duas crianças pequenas, tenho a minha família e, por isso, o processo é lento, quer seja o de fazer, como o de expor. Mas por ser lento, não significa que seja pior. Nick Cave, respondendo a alguém no blogue The Red Hand Files, disse: “Beauty can be measured by the distance it has travelled to come in to being” (A beleza pode ser medida pela distância que percorreu para chegar a ser). Quer seja pela vida que tem, pela música e constante renovação dos seus projetos, interessa-me muito o percurso e o pensamento de Nick Cave. Na verdade, é como ele respondeu. Estou bem com o que for. Realizo-me a fazer os meus desenhos, e o resto é o tempo que faz. E o processo em si exige temporalidade. Há coisas que vêm de trás, não sei de onde. Só de pensar que qualquer livro é uma pedra que temos de partir e isso leva tempo, tal como é necessário tempo para trabalhar as ideias de determinado pensador. Portanto, é esse arquipélago de ideias que vou agregando, o que leva o seu tempo, mas tudo faz parte do processo e é o que o torna belo.


FLC: Estes dois anos de pandemia afetaram o teu processo criativo?

CP: Afetaram. Não foi fácil estar a lecionar por computador com os miúdos em casa, também a ter aulas, o meu marido a trabalhar imenso. Foi pesado. Não deu para fazer quase nada. Foi mais acumular ideias à espera de saírem. Só quando os miúdos regressaram à escola é que consegui retomar o meu trabalho.


FLC: Já não deveria ser uma pergunta no século XXI, mas sentes que ser mulher-artista ainda é um impedimento para criar e ser reconhecida?

CP: Se ser mulher até pode já não ser um entrave, ser mãe é seguramente. Não só porque há outra disponibilidade para o eu-social do artista e hoje sabemos que as relações sociais são muito capitalizáveis. Eu não tenho tempo e não estou nessa. Prefiro gastar o pouco tempo livre com a minha família ou ler os meus livros. Portanto, o lado social das artes para uma mãe é difícil ou não existe. Lamentavelmente, pesa no capital simbólico de um artista. A obra deveria valer por si própria e não estar dependente se o artista é mais ou menos personage, ou se tem um capital forte em rede social.


FLC: Qual tem sido o feedback quando as tuas obras são expostas em galeria.

CP: Quem visita tem vontade de decifrar enigmas, o que faz parte da curiosidade humana. Ver ao vivo dá outro plano de pormenor que permite viajar pelo desenho, procurando um caminho no aqui e no agora do objeto.


FLC: Embora seja utópico, fica a ideia: que obra ainda gostarias de criar para te sentires uma artista plena?

CP: Felizmente, tendo sempre a considerar que a obra que estou a criar é a grande. Preciso desse enamoramento com o desenho, o qual também é um agente. Se estou a desenhar e ele não me está a devolver esse entusiasmo, desisto dele e deito-o fora. O desenho precisa de manter vivo o meu desejo de o querer desenhar. Quando o desenho está concluído e me sinto cativada por ele, ainda existe essa chama entre mim e ele, é porque vale alguma coisa. E neste momento já tenho aqui uma ideia. Por isso, refiro-me à obra como “ele”, personalizando-a. Para mim, ele é vivo, é um objeto e qualquer objeto é algo incrível. Tem a sua história e deixa a sua marca. E até já sei o quero desenhar a seguir, quando tiver um pouco de tempo.

 

 

Fátima Lopes Cardoso
Investigadora do ICNOVA e professora adjunta na Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa (ESCS), onde coordena a secção de Media e Jornalismo. Doutorada em Ciências da Comunicação, especialidade Comunicação e Artes, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH), da Universidade Nova de Lisboa, é autora da tese “A Fotografia Documental na Imprensa Nacional: o Real e o Verosímil” (2015), a ser publicada em livro este ano. Jornalista desde 1997, o interesse académico por conhecer a ontologia da imagem e, em particular, da fotografia jornalística tem levado à participação em várias conferências e colóquios em Portugal e a nível internacional sobre a temática, bem como em diversos projetos editoriais e científicos.