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XAVIER OVÍDIO

CATARINA REAL


 

Rasto
Lastro
Sujidade
Quadrados
Repetição
Escolha
Bolor
Terra...


Surgem-me palavras amontoadas quando penso no trabalho do Xavier. É também amontoando - ideias e relações de ideias - que ele desenvolve o discurso em torno da sua prática e, por extensão, da sua vivência.
Xavier Ovídio, nascido em 1989, viveu nas Caldas da Rainha, onde começou a pintar e “espalhar a mancha”, tendo voltado a Lisboa, de onde é natural, para ingressar no ensino artístico da Escola Artística António Arroio, onde estudou Cerâmica. O percurso na Faculdade de Belas Artes de Lisboa inicia-se em Escultura, que abandona por reacção ao conservadorismo disciplinar. Conclui a licenciatura em Pintura na mesma instituição, onde ingressa no mestrado, por agora ainda não concluído. O ingresso pela Pintura permitiu-lhe uma maior abertura à lógica interdisciplinar dos seus agenciamentos.
Na hora de pensar com as mãos, opta pela matéria. Diz que “os algoritmos não me satisfazem”, e resiste a um certo desenvolvimento tecnológico que desmaterializa a prática artística. Usa, no entanto, o telefone como uma ferramenta de atenção recorrente e diária. É com ele que regista fotografias, vídeos e sons, que - juntamente, com os vários cadernos de apontamentos por onde vai registando ideias - se transformam em peças e em projectos.
A multiplicidade de relações circulares, compreende-se sobretudo pelo ritmo de andar para a frente e para trás do discurso de Xavier, oleado pelo entusiasmo e agitação. Por essa mesma razão, o texto que aqui se apresenta resulta de vários recortes da conversa estabelecida virtualmente com Xavier Ovídio, depois de muitas dificuldades de ligação.


Por Catarina Real

 

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Sou muito intuitivo quando trabalho.

 

*

Faço muitos trabalhos utilizando a tecnologia... do meu bisavô. Uso com recorrência a máquina de escrever.

*

Quando me chamam para uma exposição, nunca tenho obras feitas. Encaro cada convite para uma exposição como um novo desafio. Tenho de ler e sentir o espaço, dentro do mote da exposição e do meu trabalho em relação com o espaço e com o contexto. O próprio convite gera o que eu apresento na exposição.

*

Círculos
Apontamentos
Saltos de ideias, tentativas de organização desorganizadas
Lista de projectos por realizar
Suckers List
Works from work
Blietzgrieg
Rei - Vax : anti sistémico, correr riscos, espalhar mancha
Voltar atrás para ir para a frente
Arrastamento, tempo, retorno, palimpsesto

*

Objectos que simbolizam ideias que estabelecem entre si uma relação causal... ou narrativa.

Sim, mas essa relação estabelece-se de forma inconsciente, apesar de ir sempre escrevendo e apontando coisas soltas. Muito soltas, e com rabiscos pelo meio, e referências... Servem-me apenas para mim. É tudo bastante sintético, uso setas, faço ligações... Salto páginas, dependendo dessas ligações... É aqui [diz-nos o aqui referindo-se ao seu pequeno amontoar de cadernos] que tudo parece confuso - não para mim, mas para os outros - para mim é bastante legível e consistente; sei ler o conteúdo que aqui está, embora não saiba passar muito bem a informação que contêm.
São viagens internas separadas entre os vários cadernos. Tenho duas agendas, uma onde escrevo certas coisas, muitas vezes quando estou ao telefone, e outra, que é mais portátil. Tenho um caderno para coisas soltas, e um caderno mais pequeno, onde escrevo. Tenho sempre este caderno mais pequeno onde escrevo... Vou ao café e escrevo... É nele que parece que o pensamento se organiza melhor. Muitas vezes acho cómicas ou ridículas as coisas que escrevo, quando as volto a ler.
De um caderno passo informação para o outro, para condensar e trabalhar. Ando entre cadernos, e depois tenho na agenda um dia marcado “ORGANIZAÇÃO”, e é nesse dia que faço a ligação entre cadernos; passo coisas importantes de um caderno para o outro... Traduzo para desenhos e rabiscos pequenas ideias para projectos.

E depois, aquando dos convites, voltas aos cadernos?

Sim e não.
Nos últimos anos, não.
Volto mais ou menos.
Acabo por voltar.
Sim.

No caso da exposição colectiva no POGO [We Transfer Sandokan, patente de 7 dezembro de 2019 a 16 fevereiro de 2020] apresentei uma acção na inauguração, que repetia uma vez por semana. Todos os artistas participantes foram desafiados a pensar o ambiente corporativo; o escritório, o funcionário ou por outro lado, o bot e a rede. Na altura, o Ruy Otero - que organiza as exposições no POGO - desafiou-me a trabalhar com a máquina de escrever. Não tinha muito interesse em apresentar apenas os desenhos que tinha vindo a fazer usando a máquina de escrever e então decidi desenhar o meu próprio escritório [cada compartimento da exposição era o escritório do artista] à máquina. Portanto, vesti-me a rigor [de fato e gravata] e na peça, “Das Nove às Seis”, ia desenhando o escritório: gráficos, canecas, cinzeiro, uma paisagem... Depois da exposição abrir, a partir do momento em que senti que o escritório estava já bem composto, passei a fazer business cards com a máquina de escrever. E aí gerei outra peça.
Sempre embirrei com o lado comercial dos artistas, tenho alguma dificuldade com essas questões. Mas aí passei a ir uma vez por semana ao escritório, para desenhar business cards. O meu trabalho era ir fazer business cards. Inverti as lógicas.

Mas perguntavas-me se volto aos cadernos... quando fui convidado para esta exposição de que te falava, tinha estas ideias presentes, e elas constavam dos cadernos.
Trabalhei há uns anos numa empresa de aluguer de quartos e casas, onde era account manager do mercado italiano. Era uma start up, onde havia pingue pongue e o que mais quisesses para ser divertido, seguindo a linha “escritórios da Google”. Havia vários departamentos na empresa, eu estava nas opperations. Éramos os operários daquele departamento, só que em vez de estarmos numa fábrica, de pormos os parafusos nalguma máquina, estávamos numa fábrica contemporânea onde se manda emails e se fazem chamadas, coisas igualmente mecânicas. Escrevi muitas peças à volta desta experiência de trabalho.
Quando me despedi, comecei a ligar a vários clientes, punha o meu microfone em silêncio e punha a chamada a gravar. Reuni uma série de inícios de chamadas … “Pronto, pronto....” - era o mercado italiano. Gravei esses sons, e fiz uma mistura com alguns bugs da aplicação que usávamos para ligar aos clientes. Essa é das poucas peças que dei nome: “Suckers List”.

Tenho uma grande dificuldade em dar nome às obras, mas com esta foi imediato.

Esta peça de som fazia sentido nesta exposição e neste espaço, um armazém ao pé do rio, que têm um ar fabril. Este som estava a ser projectado para o exterior por uma corneta. Essa peça é a que saiu dos cadernos, e das minhas reflexões prévias, mas a outra partiu do convite e da sugestão de utilizar a máquina de escrever.

*

Eu viajo muito!

*


É uma espécie de processo híbrido, de recuperação de ideias dos teus apontamentos, para as relacionares com os contextos onde expões.

Sim, há esse lado de estar permanentemente “em construção”, com as mil e uma ideias que vou apontando. As oportunidades de exposição dão-me a possibilidade de voltar a elas.

Agora estou a trabalhar numa série de pinturas que comecei em 2012, que abandonei, e às quais voltei recentemente. Esta é também uma característica recorrente no meu trabalho. Voltei agora a pegar nelas e vou materializa-las, com um número específico na minha cabeça. Às vezes preciso de metas para fechar projectos, e gosto de os fechar. Tenho esse impulso de recuperar coisas [objectos, processos, dinâmicas] antigas, curiosamente com as quais já não me identifico na totalidade, mas que sinto necessidade de materializar. Sou uma pessoa bastante agitada, e entre trabalhos e outras combinações, sinto que o facto de não materializar coisas que tenho pensadas, me deixa ansioso. Voltar a este conjunto de pinturas, traz-me tranquilidade. Fico descansado por as fazer, por fechá-las.

*

Tenho várias práticas, que se interligam, embora tenha dificuldade às vezes de demonstrar a ligação. Chamo “Works from work” a várias peças que faço ou que acontecem durante os meus trabalhos de sobrevivência económica. Como o “Suckers List”. Dos tempos em que trabalhava em restaurantes tenho uma série de desenhos feitas a partir dos mesmos movimentos de limpar mesas. A partir dos trabalhos de montagens de exposição, que têm garantido a minha subsistência nos últimos anos, tenho uma série de peças fotográficas. São peças que monto durante a montagem de peças de outros artistas, com os próprios materiais de montagem. Componho, fotografo, e desfaço. E tenho uma pasta cheia desses registos. Chamei-lhes já vários nomes, entre eles, “Private View”.

*

Mais do que desorganizado, sou disperso.

*

As coisas interligam-se e eu vou estando sempre activo. Uso o telefone como uma ferramenta muito activa para registar; som, imagens, vídeos. Acumulo esses registos e depois tenho dificuldade de fazer o seu tratamento e triagem. Agora estou numa fase de filtrar coisas. A pandemia veio permiti-lo.

Nos vários processos que descreves parece que a tua matéria de trabalho primordial se torna a memória; ir atrás buscar pontas para rematar com o que acontece no presente, continuamente. O processo de assimilação de memórias dá-se pela insistência, pelo relembrar.
Parece-me que tu estudas, de alguma forma, as tuas próprias ideias.

Uso muitas referências de coisas que fiz no passado, às vezes mesmo em criança. Não tenho um registo arquivístico, mas há um lado de exploração associado a esse voltar a lembrar-me.
Dos meus onze aos quinze anos, fazia graffiti. Lembro-me de com cinco anos ter feito o meu primeiro tag. Ainda o consigo replicar. É Xavier ao contrário, em duas linhas [Rei/Vax]. Embora não tenha voltado ao graffiti, e apesar de ter sido apanhado umas vezes, acho que assimilei esse lado “anti-sistema”. Gosto de provocar, correr riscos, e espalhar mancha. Sou bastante expansivo, o que pode estar também relacionado com o facto de eu ser o quarto de seis irmãos. Parece-me que os irmãos do meio têm sempre essa vontade de mostrar a sua presença na família.

Achei que o referias no sentido da desorganização - ou algazarra até! - que é sempre maior em famílias numerosas.

Também! Até aos meus seis anos partilhava quarto com os meus três irmãos. E estava sempre tudo espalhado.

Recentemente visitei o meu pai, e encontrei umas caixas que simulavam cidades para os Playmobil e para os Legos, em que eu fazia graffitis, mas à escala dos brinquedos. A vontade de espalhar mancha pela cidade estava presente até aí, nas brincadeiras.

Isso é muito engraçado.

Construía a cidade, mas ela já tinha essa invasão de mancha.

Voltando atrás, à corneta voltada para o exterior de “Suckers List”. O som tem essa capacidade de chegar às pessoas muito facilmente, e essa invasão do som também pode ser muito associada à forma de presença do graffiti; enquanto se esperava o comboio em Santos, ouvia-se a minha peça, sem identidade ou identificação.

As coisas que estou a pensar para o futuro próximo, envolvem muito o som. Mas essas ainda não são para serem reveladas.

[Falamos um pouco sobre esses projectos segredo, conversa sobre a qual deixo apenas uma nota musical, a referência mais presente no meu imaginário: “Hey, ho! Let's go!”]

*

Sou contra todas as regras que nos estão a ser impostas.

*

Sempre que estou a trabalhar tenho folhas e telas no chão. Essa é a minha relação com a pintura; uma relação de amor-ódio. Sempre gostei de pintura, mas não gosto da idealização... da idolatração que se faz do virtuosismo da pintura. Não gosto disso. Então o que acontece muito - e isso pertence muito ao processo - é que as telas passam da parede para o chão, consoante eu goste ou não do que está a acontecer. E no chão levam com salpicos de tinta, pegadas, beatas... A determinada altura voltam para a parede. Algumas têm camadas e camadas dessa relação amor-ódio.

*

A etimologia da palavra personalidade vem de persona, que significava máscara. A tua personalidade é a tua máscara. Adaptas a tua personalidade a cada situação, és sempre uma actriz no dia-a-dia. Adaptas-te às situações. Estás frequentemente a actuar. A nossa relação com o mundo é uma relação de … Gosto de pensar o mundo como uma cenografia onde somos actores.
Os graffitis são cenografias que têm várias camadas.. E dão-nos muita informação sobre as pessoas que vivem em determinada zona. As redes sociais são outro tipo de cenografias.

*

Como é que este período pandémico afectou os teus processos de trabalho?

Foi fantástico, adorei. Já o disse no inquérito feito pelos Sara & André [Inquérito a 471 Artistas, publicado na Revista Contemporânea].
Consegui organizar-me melhor, sobretudo. Consegui realmente parar. A minha vida envolve sempre a gestão entre os trabalhos que me permitem sobreviver economicamente e o trabalho artístico, e como sou um pouco desorganizado, ando sempre a correr entre os dois. Tive a possibilidade de me dedicar apenas ao trabalho artístico e organizar ideias, considerando que não podia trabalhar no outro emprego. Acabei por poder fazê-lo, mas as duas semanas de paragem absoluta foram suficientes para me organizar.

Pude trabalhar na relação de ter o atelier em casa também. Na separação e ligação dos dois. A minha rotina começava em casa, e precisava de sair à rua e dar o meu passeio higiénico, para poder voltar a casa, mas estar a entrar no atelier.

*

Renovação, recuperar.

 


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Xavier Ovídio (n.1989) é um artista interdisciplinar português, que vive e trabalha em Lisboa. No seu trabalho, materiais e objectos conseguem produzir os seus próprios discursos e estão abertas a múltiplas interpretações através da narrativa que emerge em cada encontro. Expôs em diversos espaços em Portugal e no estrangeiro, onde se incluem o Museu João Fragoso (Caldas da
Rainha), Palacete Pinto Leite (Porto), Fundação Oriente (Lisbon), Rundum Space (Tallin), Pärnu City Gallery (Parnu) e o BBK (Osnabrück).