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O seguinte guia de exposições é uma perspectiva prévia compilada pela ARTECAPITAL, antecipando as mostras. Envie-nos informação (Press-Release e imagem) das próximas inaugurações. Seleccionamos três exposições periodicamente, divulgando-as junto dos nossos leitores.

 


JOANA DA CONCEIÇÃO

O Espelho em Mim




GALERIA DA CASA A. MOLDER
Rua 1º de Dezembro nº 101- 3º andar
1249-970 LISBOA

17 MAR - 05 MAI 2023


INAUGURAÇÃO: 17 de Março das 15h30 às 18h30, na Galeria da Casa A. Molder, Lisboa


:::


Joana da Conceição (1981) é a artista da terceira exposição da segunda parte do Projecto da Galeria da Casa A. Molder.
O Espelho em Mim é o título da exposição que foi pensada e criada para este espaço.
Numa pintura, três figuras parecem observar-nos. Estão unidas por linhas, pela repetição; sabemos que são figuras porque têm olhos e as linhas parecem ser mãos numa posição muito particular. Dizem-nos que estes rostos nos observam. Electrificantes, são as cores usadas e o movimento sugerido. Se olharmos com atenção, descobrimos que estão ligadas a uma quarta, imponentemente escondida. É uma silhueta da morte, com um desenho de caveira que poderia ser também uma borboleta. Há um certo caos de cores, linhas e movimento, há inquietação. Dar a Ver é o título desta pintura e, nas palavras da artista: “Trata-se de uma representação de um continuum, e funciona como um friso, na figura de um meandro, em repetição. As três figuras vêem – são-lhes dados olhos para verem – pela figura acima delas, que está morta. Esta última é a representação de uma qualquer mulher que me precedeu e me ensinou”.


“A maior parte do tempo medito sobre a parede oposta.
É cor-de-rosa com manchas. Tenho-a olhado tanto
Que julgo ser parte do meu coração. Mas vacila.”

Esta é a parte do poema Espelho de Sylvia Plath que mais influenciou a construção desta exposição e o seu título, O Espelho em Mim. A artista como espelho, a pintura como reflexo e reflexão. Há ainda os sonhos, recorrentes, sonhos de casas em que a descoberta duma divisão, cuja existência era até então ignorada pela artista, revela-lhe a maturidade e a aceitação de não sabermos que idade temos. E ainda a luta permanente entre aquilo que somos e a percepção que os outros têm de nós. É aqui que Joana da Conceição vai ao encontro de histórias de mulheres de outros tempos, cuja transgressão, quase sempre motivada por aquilo a que a artista chama “febre de amor”, nos revela uma força que merece ser sublinhada. Ao ir ao encontro destas histórias, Joana da Conceição dá-lhes peso e continuidade, tira-as do esquecimento. Encontra nelas também um espelho que nos mostra uma sexualidade e uma inconformidade como reacção ao ambiente sufocante e injusto da passagem das suas vidas por esta terra.

À estranheza desta pintura junta-se, do outro lado da parede, aquilo que a artista vê como uma credência desconstruída. In Media Res é o titulo desta instalação. Neste “altar” de linhas curvas, que fazem lembrar os ossos da bacia, e cores atemporais, estão falsamente pousadas outras pinturas, que se destacam da parede tanto pela colocação no espaço como pela paleta usada. Encontramos também aqui pequenos elementos escultóricos que criam a possibilidade da instalação das pinturas no espaço e, ao mesmo tempo, as transformam: as linhas rosas que transformam uma das pinturas num estranho rosto. Pintura que quer sair do plano para se transformar em algo mais.
Alguns desses elementos, a que a artista chama “bichos”, são construídos em bambu e unhas falsas. Reconhecemos aqui qualquer coisa de morte, ligação que vemos todos os dias à nossa volta e da qual nos parece impossível livrarmo-nos.

A pintura de Joana da Conceição vive de um intenso diálogo entre aquilo que inspira a artista e uma forma de pintar com regras muito precisas, que passam por um jogo entre a obediência e a aceitação do corpo e das suas necessidades, e um permanente questionamento do acto de pintar. Não é uma pintura óbvia nem fácil, embora à primeira vista nos engane, talvez pela paleta de cores garridas e alegres e elementos que nos parecem familiares. Existe nestas pinturas um perfume de morte. Tal como no Espelho de Plath.


Espelho

Sou prata e exacta. Não tenho ideias preconcebidas.
Tudo o que vejo aceito sem reservas
Tal como é, inturvado por aversão ou amor.
Não sou cruel, apenas verdadeira –
O olho de um pequeno deus, de quatro cantos.
A maior parte do tempo medito sobre a parede oposta.
É cor-de-rosa com manchas. Tenho-a olhado tanto
Que julgo ser parte do meu coração. Mas vacila.
Rostos e trevas separam-nos vezes sem conta.

Agora sou um lago. Uma mulher curva-se sobre mim,
Sondando o meu âmbito em busca do que ela é realmente.
Vira-se depois para as velas ou a lua, esses mentirosos.
Vejo-lhe as costas e reflicto-as fielmente.
Ela recompensa-me com lágrimas e um agitar de mãos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
Todas as manhãs é o seu rosto que substitui as trevas.
Em mim ela afogou uma jovem e em mim uma velha
Ergue-se para ela dia após dia como um terrível peixe.


Sylvia Plath
leituras poemas do inglês
trad. joão ferreira duarte
relógio d´água
1993