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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição. © Constança Babo


ODO NTI (2013-2018), Ibrahim Mahama. © Constança Babo


Clamor (2006), Allora & Calzadilla. © Constança Babo


My Private Sky (2001), Børre Saethre. © Constança Babo


Tractor (2003-2005), Charles Ray e Concorde L449-19 (1997), Wolfgang Tillmans. © Constança Babo


Venice Fountains (2007), Bruce Nauman. © Constança Babo


Lili (stay) put (1996), Mona Hatoum. © Constança Babo

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BEFORE TOMORROW – ASTRUP FEARNLEY MUSEET 30 YEARS




ASTRUP FEARNLEY MUSEUM OF MODERN ART
Dronningensgate 4 Box 1158
0107 Oslo, Norway

22 JUN - 03 DEZ 2023

Antes de amanhã, no Astrup Fearnley Museet, Oslo

 

A exposição Before Tomorrow assinala o trigésimo aniversário da coleção do Astrup Fearnley Museet. Fundado em 1993, é reconhecido enquanto o maior museu de arte contemporânea de Oslo e um dos mais prestigiados da Escandinávia. Na presente mostra, um conjunto admirável de obras preenche os dois edifícios da instituição, os quais, por sua vez, em frente um ao outro como dois veleiros invertidos, constituem belos exemplares da arquitetura contemporânea nórdica.

O acervo a partir do qual emerge a atual exposição conta com um impressionante número de aquisições, mais especificamente, mais de mil e quinhentas. Foi criado em 1960 pelo fundador do museu, Hans Rasmus Astrup, e continuamente cultivado pelo próprio, até ao seu falecimento, em 2021. A presente ocasião é, inclusivamente, também anunciada como um tributo ao colecionador. Tratando-se de uma das mais importantes coleções de arte contemporânea dos países escandinavos, apresenta-se sob a forma de uma mostra surpreendente, plástica e esteticamente estimulante e inequivocamente valiosa.

Contam-se obras particularmente distintas tais como When It Stops Snowing (2010) de Mark Bradfort, a par de outras populares, caso de I Feel Love (1994-1995), de Damien Hirst, e outras, menos conhecidas a nível internacional, como Livet (Kols), do conceituado artista norueguês Per Inge Bjørlo. São, com efeito, inúmeros os artistas de renome. Destaque-se Ibrahim Mahama, com a obra ODO NTI (2013-2018), especialmente representativa do seu notável trabalho artístico, no qual são privilegiados temas tais como a migração, a globalização e a economia global. O artista recorre sobretudo a têxteis, madeira e elementos urbanos e, no caso desta obra, a sacos de transporte de cacau do sudoeste asiático para o Gana, materiais com os quais constrói imponentes peças de grande escala.

Das obras de maiores dimensões desta exposição, refiram-se duas instalações, largamente divergentes, sobretudo a nível estético: Clamor (2006) de Allora e Calzadilla, uma caverna ou bunker de pedra que funciona como cabine de som para pontuais ativações sonoras e performances, e My Private Sky de Børre Saethre, exibida pela primeira vez em 2001, neste mesmo museu, e recentemente adquirida para a coleção. Esta última obra, inspirada no cinema, mais especificamente no género ficção científica, instala um ambiente tão cativante quanto bizarro. Como é recorrente no trabalho de Saethre, trata-se de um cenário inusitado em torno da figura de um animal, neste caso um unicórnio – na verdade, um cavalo selvagem embalsamado na Islândia – que reencaminha para o universo da encenação e da cultura cinematográfica.

A exposição desta extensa e heterogénea coleção nas galerias do Astrup Fearnley concretiza-se de forma inteligente, dinâmica e estimulante, não se erigindo por ordem cronológica ou temática. Assinale-se que o próprio Hans Rasmus Astrup procurava destacar os artistas, ao invés de períodos históricos ou tendências estilísticas, princípio e metodologia que contribuíram para o definir enquanto um dos colecionadores mais “ousados e influentes do mundo”.

Before Tomorrow determina-se por relações dialéticas e, convocando Wittgenstein, jogos de família, que se revelam e confirmam no decorrer de uma observação e de uma visita atentas e dedicadas. Cruzam-se práticas artísticas e plásticas, técnicas, materiais e media, bem como inúmeras gerações e nacionalidades. Revisitam-se obras e, mediante o seu reenquadramento e a sua recontextualização, são incentivadas novas leituras, também impulsionadas por inesperados vínculos entre as peças. Note-se ser precisamente por constelações, elos e relações que se define a arte contemporânea.

As obras encontram-se, partilham o espaço e dialogam umas com as outras, como ocorre entre Tractor, de Charles Ray (2003-2005) e uma série de fotografias de Wolfgang Tillmans, Concorde L449-19 (1997). Embora o primeiro artista seja reconhecido por uma singular abordagem filosófica à escultura, sustentando-se em formas e conceitos do comum, e o segundo seja um dos mais relevantes fotógrafos dos dias de hoje, aclamado pelo modo como explora o potencial da prática fotográfica, ambos convocam e abordam a produção, a indústria e os progressos técnicos e mecânicos humanos. Aproveite-se para acrescentar da prática fotográfica, evidenciada na exposição, nomes tais como Nan Goldin, Jeff Wall e Tomas Struth.

Entretanto, surgem ligações mais curiosas, nomeadamente entre Bruce Nauman e Mona Hatoum. Do primeiro, de quem se apresenta um total de três obras, indique-se Venice Fountains (2007), constituída por duas fontes com moldes de gesso do rosto do artista dos quais escorre água que, ao embater nas pias, introduz um elemento sonoro. Deste trabalho irónico e provocador dos cânones da arte, transita-se para um objeto que, em oposição, caracteriza-se por uma dureza e uma profundidade que, em potência, sensibilizam e inquietam, algo recorrente na obra de Hatoum. Com o título Lili (stay) put (1996), a instalação pertence a um corpo de trabalho escultórico que a artista tem vindo a desenvolver desde o final da década de 80, na sua maioria com grades, grelhas e outras demarcações espaciais que, enquanto objetos e construções, simbolizam os sistemas de controlo da sociedade e convocam problemáticas tais como a discriminação, a misoginia e a prisão, problemática esta da qual a obra em questão é exemplo.

 

Michael Jackson and Bubbles (1988), Jeff Koons. © Constança Babo

 

Conexões mais diretas são estabelecidas, nomeadamente, entre a icónica escultura Michael Jackson and Bubbles (1988), de Jeff Koons, artista devoto à pop culture e ao comercial, e a fotografia que critica e se apropria dessa mesma obra, Michael (1974), de Louise Lawler que, quase antagonicamente à primeira, questiona e debate as condições da produção, da circulação e da apresentação da arte.

Por tudo isto e contemplando a exposição como um todo, considera-se essencial elogiar, tanto quanto a própria coleção, a curadoria de Solveig Øvstebø e Owen Martin, o curador e diretor-chefe e o curador residente, respetivamente. O louvável trabalho de ambos reativa obras, reposicionando-as no presente, ao mesmo tempo que expõe importantes referências da produção artística atual. Assim, escapa a uma certa tendência contemporânea de fixação ora no passado, ora no futuro, situando-se, com efeito, no hoje, ou seja, justamente, no tempo antes de amanhã.

 



Constança Babo
 

(Porto, 1992) é candidata a doutoramento em Arte dos Média na Universidade Lusófona, com bolsa FCT, e integra o ICNOVA. Tem como área de investigação os novos média e a curadoria. É mestre em Estudos Artísticos - Teoria e Crítica de Arte pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto e licenciada em Artes Visuais - Fotografia pela Escola Superior Artística do Porto. Tem publicado artigos científicos e textos críticos. Colabora enquanto research fellow no projeto internacional Beyond Matter, iniciado pelo Hertz-Lab do ZKM. 



CONSTANÇA BABO