Links

EXPOSIÇÕES ATUAIS


1. Vista de exposição Haven, James Newitt. Galeria da Boavista, 2023. © Bruno Lopes


2. Vista de exposição Haven, James Newitt. Galeria da Boavista, 2023. © Bruno Lopes


3. Vista de exposição Haven, James Newitt. Galeria da Boavista, 2023. © Bruno Lopes


4. Vista de exposição Haven, James Newitt. Galeria da Boavista, 2023. © Bruno Lopes


5. Vista de exposição Haven, James Newitt. Galeria da Boavista, 2023. © Bruno Lopes


6. Vista de exposição Haven, James Newitt. Galeria da Boavista, 2023. © Bruno Lopes


7. Vista de exposição Haven, James Newitt. Galeria da Boavista, 2023. © Bruno Lopes


8. Vista de exposição Haven, James Newitt. Galeria da Boavista, 2023. © José Oliveira


9. Vista de exposição Haven, James Newitt. Galeria da Boavista, 2023. © Bruno Lopes


10. Vista de exposição Haven, James Newitt. Galeria da Boavista, 2023. © Bruno Lopes


11. Vista de exposição Haven, James Newitt. Galeria da Boavista, 2023. © Bruno Lopes


12. Vista de exposição Haven, James Newitt. Galeria da Boavista, 2023. © Bruno Lopes

Outras exposições actuais:

ANTÓNIO FARIA

AS VIZINHAS


Centro Cultural Bom Sucesso, Alverca do Ribatejo
FÁTIMA LOPES CARDOSO

MARIA DURÃO

EVAS


Kubikgallery, Porto
SANDRA SILVA

COLECTIVA

ENSAIOS DE UMA COLEÇÃO – NOVAS AQUISIÇÕES DA COLEÇÃO DE ARTE MUNICIPAL


Galeria Municipal do Porto, Porto
CONSTANÇA BABO

TINA MODOTTI

L'ŒIL DE LA RÉVOLUTION


Jeu de Paume (Concorde), Paris
MARC LENOT

COLECTIVA

ANAGRAMAS IMPROVÁVEIS. OBRAS DA COLEÇÃO DE SERRALVES


Museu de Serralves - Museu de Arte Contemporânea, Porto
CONSTANÇA BABO

JOÃO BRAGANÇA GIL

TROUBLE IN PARADISE


Projectspace Jahn und Jahn e Encounter, Lisboa
CATARINA PATRÍCIO

JOÃO PIMENTA GOMES

ÚLTIMOS SONS


Galeria Vera Cortês, Lisboa
MADALENA FOLGADO

COLECTIVA

PERCEPÇÕES E MOVIMENTOS


Galeria Presença (Porto), Porto
CLÁUDIA HANDEM

MARIA LAMAS

AS MULHERES DE MARIA LAMAS


Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa
FÁTIMA LOPES CARDOSO

PEDRO TUDELA

R!TM0


Museu Internacional de Escultura Contemporânea de Santo Tirso, Santo Tirso
CLÁUDIA HANDEM

ARQUIVO:


JAMES NEWITT

HAVEN




GALERIA BOAVISTA
Rua da Boavista, 50
1200 Lisboa

22 JUN - 17 SET 2023

E Mare Libertas – Do Mar, a Liberdade

 

Uma pequena plataforma abandonada ao largo da costa britânica, construída pelo governo com funções militares de defesa anti-aérea no tempo da II Grande Guerra e, na altura, situada em águas internacionais, é ocupada por um casal na década de sessenta que reivindica a sua independência do Reino Unido denominando-a de Principado de Sealand. Criam bandeira, hino, constituição própria, cunham moeda e emitem selos e passaportes, repelem invasões e fazem alianças para a constituição de uma empresa com intenção de vir a ser um “refúgio” (Haven) de informação digital não regulada [1] pela jurisdição britânica - a HavenCo - e que existiu durante um curto período (2000-2004).

Estes são factos reais e o ponto de partida da investigação de James Newitt que, ao longo de três espaços na galeria, conjuga uma narrativa ambígua entre a realidade e a ficção apresentando uma proposta crítica em que a utopia e a distopia se tocam, numa reflexão também sobre a natureza humana, o poder, e o controlo da informação.

O início da investigação para o projecto Haven surgiu há mais de dez anos quanto o artista, no contexto de um outro trabalho na Austrália [2], fez uma pesquisa sobre micro-nações tendo lido o livro de Erwin Strauss How to Start Your Own Country. Nessa edição Strauss afirma que Sealand é o caso de maior sucesso de implementação de um país nos tempos modernos (Strauss, 1979/1999: 10, 25,132), apresentando na capa do livro justamente duas fotografias da plataforma Sealand (conhecida anteriormente por HM Fort Roughs ou Roughs Towers).

Na sala de entrada na exposição são dados a ver aos visitantes alguns elementos que identificam o tema de investigação de Haven, nomeadamente o livro de Erwin Strauss, e outra documentação variada incluída em duas vitrines (livros, fotografias, desenhos, esboços, textos, selos emitidos pelo principado e uma cópia da constituição de Sealand) (Imagens 1 a 4). Essas vitrines incluem também um conjunto de emails enviados pelo artista a Ryan Lackey (um dos co-fundadores da HavenCo) que, funcionando como documentação do processo de investigação, interpelam o visitante e promovem o seu envolvimento na procura não só da identidade de Ryan, mas também de respostas às perguntas formuladas pelo artista, respostas essas que nunca foram recebidas. O desconhecimento deste facto pelos visitantes (que ficam também na dúvida se essas missivas foram ou não criadas de uma maneira fictícia pelo artista) estabelece, logo à partida, um pano de fundo de uma narrativa que, de uma maneira antecipada se percebe, vai desenvolver-se entre a realidade e a ficção. Esta situação encontra outro ponto de ancoragem nas imagens expostas nesta primeira sala através da intervenção do artista sobre as fotografias por ele apropriadas da família Bates [3], deixando em aberto a identidade dos retratados pela ocultação da sua face (Imagem 5)

Do primeiro espaço passa-se para um segundo através de uma estrutura que, ao simular um bastidor para albergar os servidores do data center do Sealand, faz também a transição de uma investigação tradicional baseadas em documentos para um contexto mais abstracto e mais aberto em que o artista procura, através de meios informáticos, possíveis pistas de desenvolvimento do seu trabalho (Imagem 8).

Surge assim o vídeo Lapse, uma peça em loop constituída por imagens que passam em rápida sequência, resultado das sugestões e do diálogo de Newitt com motores de busca e algoritmos que trabalharam sobre bases de dados na internet (a partir de um conjunto de imagens que estavam na posse do artista) e que se articulam nesta peça numa exploração artística que se pode associar a um brainstorm digital.

Entre imagens que, reconhecidamente, têm a ver com o projecto e outras que só vagamente lhe podem ser associadas, é proposta uma viagem alucinante pelo mundo da informação que o visitante tenta, em vão, organizar num todo coerente (Imagem 9).

Esta “ante-câmara” do último espaço da exposição, é uma abordagem brusca e uma antevisão de um dos temas de Haven - a memória e a informação. De facto, o que o vídeo Lapse sugere não são mais do que fragmentos, lapsos, missing links, memórias vagas (de imagens vistas na primeira sala), pistas sem respostas, notas de rodapé que são levadas a texto principal, lógicas com coerências de difícil entendimento, que deixam o visitante expectante.

Na sequência da exposição, o andar superior alberga a instalação vídeo de três canais Haven, que dá o nome à exposição, e que conjuga imagens documentais, com diálogos ficcionados, animação 3D, narrativa em voz-off e factos reais (Imagens 11 e 12). Este vídeo, com cerca de meia-hora de duração, faz não só a ligação com o material visto nas duas salas anteriores, mas também problematiza a natureza da informação e do seu arquivo, abordando as questões do poder, do controlo, e da regulação da informação, especulando ainda sobre as tecnologias mais recentes e ao uso dos oceanos como repositório de informação.

O vídeo começa com uma luta de Kendo entre dois personagens, um deles é Sean Hastings, um dos co-fundadores da HavenCo, o outro é um segurança da plataforma [4], não sendo inocente esta primeira cena de disputa que, mais do que um exercício de uma arte marcial, é uma metáfora para o desenvolvimento subsequente do vídeo ao abordar duas visões distintas e dois temas sempre presentes em conflito – poder e utopia – já que a pequena plataforma de Sealand foi, não só palco de lutas pela soberania, mas também da disputa de diferentes utopias tendo por um lado o principado de Sealand, um país feito à medida pelo casal Bates e, por outro, a HavenCo, com o seu “paraiso” de informação livre de regulação, desenhado por Sean Hastings e Ryan Lackey.

Esta contenda, através de um discurso veiculado pelos detentores da Sealand e por parte da HavenCo., sucede-se ao longo do vídeo com narrativas ocasionais em voz-off de Joan Bates (esposa de Roy Bates) e a articulação fictícia de Ryan Lackey da HavenCo.

Estes diálogos têm paralelos quando se menciona a actividade económica, à margem da lei, da rádio-pirata de Roy Bates nos anos sessenta (a Radio Essex, que Bates mantinha numa outra plataforma ao largo da costa antes de ocupar a Roughs Towers) e a “internet-pirata” da HavenCo., ou as questões da “memória” no processo da eliminação gradual da informação dos servidores da HavenCo (uma salvaguarda de segurança) e a doença de Alzheimer que vitimou Roy Bates em 2012.

Neste particular é notável a sequência de propostas imagéticas e sonoras de James Newitt, com a sugestão da degradação da informação num discurso de Roy, que se torna cada vez menos inteligível, terminando com um espaço de silêncio sem imagem. No seguimento desta pausa o vídeo finaliza com uma reflexão sobre o futuro do mar como repositório de informação, numa referência ao programa Natick da Microsoft [5].

Ainda no domínio das utopias e projectos visionários no mar, o relativamente recente Seastanding Institute [6] (2008) e a ideia de seavilization (Quirk e Friedman, 2017), aponta para a ideia alternativa da criação de comunidades flutuantes em águas internacionais politicamente autónomas (com preocupações sociais e ambientais), um projecto que, de algum modo, tem uma vaga inspiração no Principado de Sealand e fez parte da investigação do artista que o documentou numa das vitrines da primeira sala.

E Mare Libertas – Do Mar, a Liberdade – continua a ser o lema do principado de Sealand, mantendo a ideia utópica de independência e autonomia muito enraizada no espírito das comunidades dos anos sessenta, mas que rapidamente foi confrontada e abalada por valores de uma sociedade em que o poder, o controlo, a economia e a vigilância não se compadeciam com “ilhas” utópicas que exorbitavam da sua esfera de domínio, fazendo da informação um dos seus mais valiosos activos e razão de disputa no início do século XXI.

Reconhecemos neste projecto um modus operandi recorrente na obra de James Newitt, em particular nos últimos trabalhos, nomeadamente com a utilização de documentação de factos reais como ponto de partida para a especulação, e a apresentação da obra sob a forma de instalação (documentos, objectos, vídeo). É disso exemplo, Delay (2018), ao incluir o vídeo I Go Further Under (2017-2018) [7], em que também questões relacionadas com poder, independência e utopia estão presentes no cenário de uma pequena ilha.

Porém, em Haven o artista expande as temáticas ao abordar questões fundamentais do nosso tempo numa visão reflexiva sobre o lugar da utopia, a informação e a sua regulação, a memória, a soberania, o poder económico e a política, o ambiente e a tecnologia, usando uma linguagem artística que se desdobra em diferentes níveis fazendo uso de mediações distintas, numa narrativa a todos os títulos exemplar, didáctica e estimulante.
Uma exposição que também é prospectiva sobre o papel dos oceanos no século XXI, para reflectir, ver e rever com tempo e disponibilidade.

 

 

 

José Oliveira
Doutorado em História da Arte Contemporânea e investigador integrado do Instituto de História da Arte (FCSH-UNL). Foi bolseiro do Centro Português de Fotografia e da Fundação para a Ciência e Tecnologia, em vários projectos plurianuais de investigação relacionados com a fotografia em Portugal, e é docente no doutoramento em “Estudos Artísticos – Artes e Mediações” na Universidade Nova de Lisboa. É curador e colaborador externo do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, tendo produzido vários textos para catálogos e exposições.

 


:::


Notas

[1] Pode fazer-se um paralelo com os paraísos fiscais no domínio financeiro.
[2] My Secession Party (2011). Ver o projecto aqui.
[3] Apelido da família que ocupou a Rough Towers e fundou a micro-nação Sealand.
[4] Minuto 21´40” na apresentação referenciada por James Newitt - Sean Hastings - The Seasteading Institute Conference 2009.
[5] Ver o projecto aqui.
[6] Ver o projecto aqui.
[7] Ver os projectos aqui e aqui.


:::


Bibliografia

QUIRK, Joe, e FRIEDMAN, Patri (2017), Seasteading: How Floating Nations Will Restore the Environment, Enrich the Poor, Cure the Sick, and Liberate Humanity from Politicians, Nova Iorque: Free Press

STRAUSS, Erwin (1979/1999). How to Start Your Own Country, Boulder, Colorado: Paladin Press



JOSÉ OLIVEIRA