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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição António Júlio Duarte: Febre, Fundação de Serralves - Museu de Arte Contemporânea. © Filipe Braga


Vista da exposição António Júlio Duarte: Febre, Fundação de Serralves - Museu de Arte Contemporânea. © Filipe Braga


Vista da exposição António Júlio Duarte: Febre, Fundação de Serralves - Museu de Arte Contemporânea. © Filipe Braga


Vista da exposição António Júlio Duarte: Febre, Fundação de Serralves - Museu de Arte Contemporânea. © Filipe Braga


© António Júlio Duarte


Vista da exposição António Júlio Duarte: Febre, Fundação de Serralves - Museu de Arte Contemporânea. © Filipe Braga


Vista da exposição António Júlio Duarte: Febre, Fundação de Serralves - Museu de Arte Contemporânea. © Filipe Braga


Vista da exposição António Júlio Duarte: Febre, Fundação de Serralves - Museu de Arte Contemporânea. © Filipe Braga


Vista da exposição António Júlio Duarte: Febre, Fundação de Serralves - Museu de Arte Contemporânea. © Filipe Braga


Vista da exposição António Júlio Duarte: Febre, Fundação de Serralves - Museu de Arte Contemporânea. © Filipe Braga


Vista da exposição António Júlio Duarte: Febre, Fundação de Serralves - Museu de Arte Contemporânea. © Filipe Braga

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ARQUIVO:


ANTÓNIO JÚLIO DUARTE

FEBRE




MUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA
Rua D. João de Castro, 210
4150-417 Porto

26 MAI - 12 NOV 2023


 


Na Galeria Contemporânea do Museu de Serralves observamos as cinquenta imagens fotográficas de António Júlio Duarte (1965) cujo impacto visual e estético do conjunto - com a sua disposição longa e aberta que se expande pelas três paredes do espaço expositivo - nos atrai de imediato, reforçado pelo jogo lumínico de tom amarelo que se assume enquanto desenho e cenografia. Concebida a partir de uma série inédita de trabalhos recentes, Febre, a primeira exposição de António Júlio Duarte em Serralves, revela-nos fragmentos da realidade do quotidiano captados pela lente do artista, numa mostra que sem narrativa, se foi estruturando, segundo o próprio, em função dos desafios e particularidades do espaço que a acolhe. Resultado de uma procura por aquilo que lhe é externo - mas que é sempre o reflexo do que sente em relação ao estado do mundo – e da vontade de querer ser surpreendido em cada imagem, as fotografias de António Júlio Duarte revelam-nos momentos, acontecimentos e situações fixados através do seu olhar. Num corpo de trabalho ligado ao real, embora cada fotografia seja uma imagem construída, uma ficção, a sua prática artística desenvolve-se a partir de estratégias documentais mediante uma abordagem subjetiva. Expondo regularmente desde a década de 90, período em que a sua produção adquire consistência e profundidade, António Júlio Duarte integra a geração de artistas que escolhem a fotografia como medium e com a qual a disciplina ascende ao patamar de trabalho artístico [1]. A atração pela imagem fotográfica, o interesse pela fotografia documental e fotografia de rua americana, o desejo de desenvolver um trabalho de perspetiva pessoal e a abertura das galerias à fotografia de autor, possibilitaram-lhe um campo de trabalho que era o caminho que queria seguir [2].

 

© António Júlio Duarte

 

Com conceito de António Júlio Duarte e Paula Fernandes, Febre, reúne uma série de trabalhos inéditos realizados em plena pandemia, no período de 2019-2022. Se em trabalhos anteriores parte de estratégias mais documentais, num trabalho de deambulação entre continentes, em Febre recorre a um processo diferente: num período em que está confinado, o fotógrafo troca o seu território de eleição - as ruas da cidade - pelo interior da casa que habita e o espaço que a circunda. [3] Limitado na sua prática, António Júlio começa a fotografar sem intenção, apresentando-nos em Febre imagens do seu quotidiano que se foram acumulando numa prática diária voltada para um espaço íntimo e privado, imagens de situações banais e de registo diarístico onde não há uma narrativa, apenas a acumulação de fragmentos [4]. A sequência ritmada e convulsiva de cenas banais da vida quotidiana sem ligação aparente, refletem o estado febril que dá título à mostra e a partir do qual a exposição se estrutura. Conduzidos pelos ritmos e saltos entre as imagens, mergulhamos na cor amarela, energética e ao mesmo tempo perigosa, que explorada pelo fotógrafo integra o espaço expositivo dentro do próprio trabalho. A crueza e imprevisibilidade das cinquenta fotografias de formatos retangulares iguais (40x60cm) revelam-nos reações intuitivas do artista num corpo de trabalho que se alimenta do acaso e surpreende o espectador. Jogos de luz e texturas percorrem as imagens, num equilíbrio perfeito entre as fotografias a preto e branco e a cores – nas quais se destacam os tons verdes e vermelhos – numa conseguida relação entre a verticalidade de algumas obras com a horizontalidade de outras. Naturezas-mortas, paisagens, retratos e fragmentos de corpos, utensílios domésticos, objetos, animais e até a presença de uma vanitas, revelam-se-nos num conjunto atemporal, onde apenas existe uma referência direta ao período pandémico: a imagem de um rosto de mulher tapado por uma máscara. Alguns dos trabalhos que compõem a exposição foram revelados em casa pelo artista através dos tradicionais processos de revelação fotográfica, tendo quase todas as fotografias sido capturadas com uma máquina familiar simples, não profissional, a Olympus Mju II Point & Shoot que lhe permitiu de forma perfeita o enquadramento delimitado do território fotografado [5]. Um dos aspecto interessantes em relação à série e respetivo processo de trabalho consiste no facto de que embora António Júlio Duarte crie uma construção mental da imagem do que quer fotografar, ao não utilizar o visor no seu enquadramento, a imagem revelada nem sempre corresponde ao que o fotógrafo espera, causando-lhe surpresa.

 

© António Júlio Duarte

 

Estendendo-se à Capela da Casa de Serralves, a exposição mergulha-nos de modo inesperado e surpreendente numa experiência imersiva proporcionada pela obra Queimado, imagem mais antiga de 2017, impressa em tecido e de grande formato (360x240 cm), que complementa o discurso construído na apresentação do museu. A fotografia feita durante a rodagem do filme Mariphasa, de Sandro Aguilar, em que António Júlio participou como ator, recebe-nos assim que entramos no espaço da Capela, impondo-nos a sua presença apocalíptica. Não se tratando de um autorretrato, observamos a imagem de António Júlio na tela, que caraterizado como se tivesse saído de um incêndio, imóvel entre os distorço e de olhar simultaneamente sério e complacente, nos evoca as imagens dos Santos Mártires. De destacar a intervenção artística de António em preparar o espaço da Capela para receber a tela, ao abrir o altar que se encontrava coberto e estabelecendo-se um diálogo curioso com a obra, cuja instalação tira partido do contexto intimista em que é apresentada e da duplicidade constituída pela transparência do tecido.

Concebida como se de uma publicação se tratasse, através da qual exterioriza e dá-nos a conhecer o seu processo de trabalho, Febre revela-nos o olhar específico e preciso de António Júlio Duarte durante um período de incertezas e de estado febril. O interesse do artista por momentos aparentemente banais, abrem campos de possibilidades de leitura em imagens que não se esgotam e que permitem ao espectador fazer a sua própria construção, mediante a visão poética do fotógrafo capaz de trazer à superfície a beleza do quotidiano.

 
 

Mafalda Teixeira
Mestre em História de Arte, Património e Cultura Visual pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, estagiou e trabalhou no departamento de Exposições Temporárias do Museu d’Art Contemporani de Barcelona. Durante o mestrado realiza um estágio curricular na área de produção da Galeria Municipal do Porto. Atualmente dedica-se à investigação no âmbito da História da Arte Moderna e Contemporânea, e à publicação de artigos científicos.

 

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Notas

[1] Que comoção? Que emoção! O poder de uma Olympus Mju II Point &Shoot. [Folha de sala da exposição]
[2] Citação da intervenção do artista no documentário da RTP, Entre Imagens. Produção: Framed Films, Realização: Pedro Macedo. Ano: 2012, 02’18’’.
[3] De acordo com o artista as fotografias foram captadas num círculo muito limitado, no qual se inclui os Açores, dentro de um território que considera doméstico.
[4] Citação da intervenção de António Júlio Duarte durante a visita de imprensa à exposição Febre, realizada no dia 6 de junho de 2023.
[5] Que comoção? Que emoção! O poder de uma Olympus Mju II Point &Shoot. [Folha de sala da exposição]

 



MAFALDA TEIXEIRA