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EXPOSIÇÕES ATUAIS


© Renato Cruz Santos, Culturgest


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ARQUIVO:


COLECTIVA

MISTIFÓRIO




CULTURGEST (PORTO)
Edifício Caixa Geral de Depósitos Avenida dos Aliados, 104
4000-065 Porto

10 FEV - 14 MAI 2023


 

 

Agente cultural inovador, Natxo Checa (1968) ocupa um lugar de destaque no panorama cultural contemporâneo através da criação, produção, dinamização e difusão de projetos artísticos cuja irreverência e singularidade lhe têm valido o reconhecimento e olhar atento do público e da crítica. Mediante uma prática curatorial própria e original, que contribuiu para a identidade da Galeria Zé dos Bois - da qual foi um dos catorze fundadores em 1994 - Checa revela uma maneira de ser e de conceber a atividade cultural e artística determinante para a assinatura do primeiro capítulo do novo ciclo Território, a quarta colaboração entre a Culturgest e a Fidelidade Arte, com a exposição Mistifório [1], atualmente em exibição na Culturgest Porto, depois da apresentação em Lisboa no espaço Fidelidade Arte. Trazendo para a mostra o centro nevrálgico daquilo que têm sido as suas investigações e interesses, revelando-nos o seu território curatorial de ação e investigação, Checa abraça o desafio adicional proposto por Bruno Marchand (1978) para Território, ao conceber uma exposição em que peças de arte contemporânea convivem com objetos da cultura material mais alargada da área da antropologia e etimologia, assim como filmes e documentação. Estimulando o diálogo entre objetos provenientes de lugares, idades e contextos distintos, assistimos em Mistifório à convivência de obras de grandes nomes da arte contemporânea com artefactos significantes, na construção de uma experiência que não respeita hierarquias. Fazendo jus ao conceito que dá título à exposição, a mostra assume-se enquanto território de misturas, apresentando uma miscelânea, um sortido, um fórum misto de coisas díspares [2] através das quais se estabelecem relações que não são racionais ou taxonómicas, numa referência contrária aos gabinetes de curiosidades do século XVI. Num compromisso equilibrado com as especificidades arquitetónicas do edifício, Mistifório introduz-nos num universo estético, visual e espiritual de narrativas e diálogos que se entrecruzam numa sobreposição de tempos, espaços e representações de diferentes proveniências e culturas [3], contribuindo para uma cosmovisão.

Ocupando um lugar de destaque no átrio octogonal do edifício, iluminado pela claraboia envidraçada, as quatro esculturas da série Vasos de Rua, 2021 de Pedro Henriques habitam o espaço e desafiam o observador. De formas sinuosas e distintas as peças atraem-nos pela fluidez dos seus movimentos curvilíneos, pela imponência e força visual em cujas superfícies, verdes e laranjas metalizadas, observamos a espontaneidade e rapidez dos gestos que se desenham. Em redor, à maneira de um panóptico, mais de duzentas peças - entre objetos e arte contemporânea - estendem-se pelas paredes de cada um dos braços da planta cruciforme da Culturgest. No primeiro núcleo expositivo, Natxo Checa propõe uma revisão histórica da arte portuguesa a partir da segunda metade do séc. XX, na qual inclui exemplos lusófonos como Malangatana (1936-2011) ou Paulo Kapela (1947-2020).

Ao nível do nosso olhar, mais de sessenta obras de formato doméstico - entre desenhos, pinturas, registos fotográficos e fílmicos - distribuem-se sobre uma longa e panorâmica faixa de cor verde, que se expandindo pelas paredes das duas primeiras salas, promove o encontro entre nomes consagrados da arte nacional e artistas esquecidos. Das inovadoras experiências de Ana Hatherly (1929-2015), António Aragão (1925-2008), Ernesto Melo e Castro (1932-2020 ) e José Alberto Marques (1939) no campo da poesia experimental e concreta, ao trabalho mais recente de poesia visual- da letra que é signo - de Tomás Cunha Ferreira e ao exercício literário de apropriação de Pancho Guedes por Ana Baliza; passando pelo surrealismo de Raúl Perez (1944)e desejos contingentes de Mattia Denisse (1967); da colagem de fragmentos de cartazes políticos sobre madeira de Vespeira (1925-2002), composições esquemáticas de linguagem gráfica, à manualidade do trabalho sobre papel de Thomaz de Mello (1906-1990), cuja mão e o gesto como que se materializam no desenho tautológico a tinta da china de Lourdes Castro (1930-2022). A estes nomes acrescem-se outros como Vieira da Silva (1908-1992), Paulo de Cantos (1892-1979), José Escada (1934-1980) ou Alexandre Estrela (1971), que partilhando espaço com autores desconhecidos ou esquecidos, como Carlos Ferreiro, revelam-nos a intenção do curador em estabelecer conexões entre obras e artistas heterogéneos e em quebrar barreiras entre alta e baixa arte. Ainda no primeiro núcleo destacamos a presença de três objetos que ilustram os conceitos que perpassam e a que se propõe Mistifório: o ready-made Panta Rhei, 2022, fonte cíclica cujo fluxo ininterrupto remete para uma releitura da arte portuguesa; a churinga aborígene australiana associada à espacialização oral e visual da cultura; e Espelho Convexo, 2020, cujo reflexo oferece ao observador uma antevisão, integrando-o dentro da representação/simulacro, ao mesmo tempo que revela uma realidade virtual. Dando continuidade ao caráter misto das obras em exibição, visualizamos - qual quadro projetado na parede - o filme sonoro, mas sem som, Música Negativa, 1965-77 de Ernesto Melo e Castro, trabalho de cariz político e metáfora contra a impostura do silêncio e da censura. Realizado por Ana Hatherly em 1977 tendo o autor como performer, trata-se de uma peça para os olhos e não para os ouvidos, que como refere Melo e Castro, tem a ver com a ausência de som, da física vibração do som existindo como vibrações psicovisuais. [4]

 

© Renato Cruz Santos, Culturgest

 

Seguindo o nosso percurso por Mistifório é no segundo núcleo expositivo, em exibição na terceira sala, que o rasgo curatorial de Checa, associações e hibridação atingem o seu fulgor. Qual gabinete de curiosidades ou altar carregado de artefactos, deparamo-nos com uma estante recheada de objetos culturais africanos, americanos e asiáticos, a maior parte dos quais sem autoria e pertencentes à coleção do curador: objetos antropológicos, máscaras tribais e estatuária, mapas e minerais, plumária indígena, um almanaque Batak da Indonésia inscrito sobre uma costela de bovino ou até um crânio eclesiástico. Emanando sentidos e significados diferenciados, os artefactos expostos partilham espaço com outros objetos não artísticos, assim como com alguma arte contemporânea: um almanaque tibetano do séc. XVIII; uma escultura de gesso de Egas Moniz; um fémur de hipopótamo; um molde da mão de João Vieira (1934-2009); um desenho neoconcretista de padrões geométricos monocromáticos João Ayres (1921-2001); ou um trabalho inédito de Almada Negreiras (1893-1970) que remete para o seu estudo sobre numerologia, conceitos matemáticos e mitologia grega. De modo inesperado e surpreendente mergulhamos na experiência imersiva proporcionada pela projeção fílmica, sem som, Máquina de Lavar (teste de câmara) de João Maria Gusmão + Pedro Paiva, 2014-15, sobre o núcleo de artefactos significantes. Na cadência do som seco e rítmico do projetor de 16 mm, deixamo-nos hipnotizar pelo movimento elíptico e infinito da máquina de lavar em cujo interior se apresenta uma pele de leopardo. Sobrepondo-se a referências folclóricas, tradicionais e culturais, a presença fantasmagórica do animal selvagem preso dentro da máquina não só captura a passagem do tempo, como simbolicamente a sua lavagem centrifuga a miscelânea cultural que nos é oferecida.

Estabelecendo relações diretas entre abstração geométrica, figuração e dados fisionómicos, deparamo-nos no último núcleo de Mistifório com um espaço de desenho expositivo mais depurado e à la mode da arte contemporânea, disposto no sentido da leitura das obras e criação de diálogos entre as mesmas. Do bordado abstrato sobre linho de Sarah Affonso (1899-1983), peça inédita, cujos movimentos serpenteantes parecem evocar elementos vegetalistas subaquáticos, observamos na parede oposta a ondulação do padrão ótico e vibrante resultante de mapeamento computacional de uma pintura de Bridget Riley (1931) por Alexandre Estrela. Processo digital que reencontramos na pintura de Gabriel Abrantes (1984) de uma personagem modelada a 3D cuja expressão de desconcerto parece fitar o fumador cara de batata de João Maria Gusmão e Pedro Paiva. Do absurdo e do non sense, seguimos para outra peça inédita de Almada Negreiros, uma pintura abstrata de características geométricas, e para as seis possibilidades de I Ching de Paulo de Cantos, professor e editor a quem se deve a autoria de um dos ex-líbris da exposição: O Modelo Humano, 1936, objeto didático e pedagógico. É com Arbusto, 2020, de Pedro Henriques, obra que funde prática escultórica e pictórica, que encerramos o percurso por Mistifório, numa evocação do carater ambíguo que perpassa toda a exposição, o seu sentido de liberdade, experimentação, risco e ironia, numa revelação dos territórios de interesse de Natxo Checa.

 

 

Mafalda Teixeira
Mestre em História de Arte, Património e Cultura Visual pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, estagiou e trabalhou no departamento de Exposições Temporárias do Museu d’Art Contemporani de Barcelona. Durante o mestrado realiza um estágio curricular na área de produção da Galeria Municipal do Porto. Atualmente dedica-se à investigação no âmbito da História da Arte Moderna e Contemporânea, e à publicação de artigos científicos.

 

 

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Notas

[1] Inaugurada a 11 de fevereiro, Mistifório estará patente na Culturgest Porto até dia 14 de maio de 2023.
[2] Cit. da intervenção de Natxo Checa durante a visita guiada à imprensa a 10 de fevereiro de 2023.
[3] BENE, Marco – Mistifório. Folha de sala da exposição, p.5.
[4] CASTRO, E.M – O Caminho do leve. Porto, Museu de Serralves, 2006, p. 208.

 

 



MAFALDA TEIXEIRA