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Transparente ao Som @ Nikolai Nekh


Transparente ao Som @ Nikolai Nekh


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Transparente ao Som @ Nikolai Nekh


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Transparente ao Som @ Filipa Almeida


Transparente ao Som @ Filipa Almeida


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ARQUIVO:


ALEXANDRE ESTRELA

TRANSPARENTE AO SOM




CASA DA CERCA - CENTRO DE ARTE CONTEMPORÂNEA
Rua da Cerca
2800-050 Almada

09 JUL - 11 SET 2022

Faço círculos com o coração

 

 

Caminho com o meu pulso. Faço círculos com o coração, que vejo geometricamente vibrando dentro de mim” 
 

Maria Gabriela Llansol

 

Penso no armário de uma casa. Todos temos armários em casa onde guardamos as coisas de casa, onde as coisas de casa se guardam, onde arrumamos objectos que fazem parte da casa, onde temos um bocadinho de casa - até onde nos guardamos a nós, onde estão inscritos os nossos pertences íntimos, os nossos cheiros típicos, os nossos coleccionismos, rabiscos, ideias, lutos. 

"O armário, diz Milosz, está cheio do tumulto calado das lembranças". [1]

Quando abrimos as gavetas e portas é como se nos estivéssemos a abrir a nós - mas, de certa forma, há uma espécie de estética do escondido em que a chave serve mais para fechar do que para abrir o armário -  esse lugar “de todos os esconderijos, em que o homem, grande sonhador de fechaduras, encerra ou dissimula os seus segredos”. [2]

Alexandre Estrela veio contrariar a imagem do fechado e preferir a do aberto. 

Voltemos atrás.


O Armário é um corpo e um objecto-sujeito, um dispositivo expositivo que tem vindo a crescer numa sala da antiga escola Arte Ilimitada. Sempre com a curadoria de Benedita Pestana, nos últimos oito anos, este móvel foi alvo, corpo, palco, meio, lugar e centro de mais de quarenta intervenções de artistas. Convocando a famosa La Boîte-en-valise de Marcel Duchamp, ou a Galerie Légitime de Robert Filliou, o Armário compõe-se e decompõe-se, move-se, renasce e transforma-se. Teve a sua primeira edição em Abril de 2014, numa lógica de continuidade com o projecto anterior, A Montra, e tornou-se num espaço de referência no meio artístico, sobretudo em Lisboa. Ainda assim, o Armário continua o mesmo — sem nunca o ser — e apresenta-se sempre ao artistas como aquilo que é realmente: um móvel em madeira, com 2 metros de altura, 1,18 de largura e 0,35 de profundidade; constituído por duas portas em vidro, três prateleiras amovíveis e duas gavetas com puxadores em latão. Sempre assente na lógica do site-specific, o projeto convida artistas para desenvolverem uma obra adaptada às suas circunstâncias e morfologia. 

"...o armário era um presente de casamento, uma peça sólida de mogno vitoriano. A metade superior separava-se e era constituída por três prateleiras por trás de portas de vidro que se fechava à chave. A base era constituída por gavetas com puxadores de latão que também se fechavam à chave. Isabel tinha transformado o seu presente de casamento no “museu da família”. 

           Nicholas Shakespeare [3]

 

Em 2022 e 2023, o Armário muda pela primeira vez a sua rota e o projeto reorganiza, acopla e agrega novos sentidos aos já existentes — faz-se móvel. Aventura-se fora de portas e assume por inteiro a sua natureza móvel, mutável e viva — com desejo de caminhar e experimentar ser em novos lugares. Esta nova vida teve início em Coimbra, no átrio do Colégio das Artes, onde se apresentou com uma instalação de Gisela Casimiro. Na segunda edição desta itinerância, o Armário é decomposto e refeito pelo artista Alexandre Estrela. Antes de regressar a casa, em Junho de 2023 com uma obra de Luísa Cunha, o Armário ainda passará por Almada, Porto, Caldas da Rainha e Évora.

A peça de que venho aqui falar é a intervenção no Armário por Alexandre Estrela, Transparente ao Som , presente na capela da Casa da Cerca até 11 de Setembro.
Tendo tido início na pintura, o trabalho de Alexandre Estrela (Lisboa, 1971) é, sobretudo, uma investigação sobre a essência das imagens que se expande no espaço e no tempo através de variados suportes. Por entre instalações e vídeos, as suas peças convocam experiências sinestésicas, ilusões visuais e auditivas e sensações que funcionam como armadilhas perceptivas, fragmentando a visão em dimensões sensíveis, em direcção ao invisível e inaudível. 

 "invisibility reinforces potency"  [4]

Morada do segundo ponto da trajetória do Armário, a Casa da Cerca tem pontos em comum com o projecto, constituindo-se uma relação de proximidade e afinidade entre os dois. São ambos lugares de domesticidade e impossibilitam a lógica do cubo branco, provocando maiores desafios. Ambos os espaços expositivos são territórios sensíveis e de afecto, com uma carga energética e de passagem inundada de memória, carregada do passado e das marcas dos seus gestos — e sempre a serem presente e futuro. 

Cheguei à Casa da Cerca e entrei na capela. Era como se o Armário tivesse nascido ali, diante de mim, naquele instante — rigoroso como o rasgo límpido dos primeiros azuis da madrugada, quando a luz atravessa de repente toda a noite e reaparece, renovada e esquecida de qualquer escuridão. Senti o grande “espectáculo de nada, rompendo a pele das coisas para mostrar como as coisas se tornam coisas e o mundo mundo." [5] 

Acabado de surgir — e sentindo-o só para mim — o Armário mostrava-se e assumia-se de braços abertos, sem nunca descansar, na sua potência latejante - numa pulsação que eu ainda não tinha ouvido, mas que já pressentia; que eu não sabia de onde vinha, mas que murmurava no vento, estendendo-se pelas paredes e vitrais da capela como uma vibração que, antes de se manifestar, já se anuncia vizinha. 

”A vida circulava por ali, do fogo às portas e das portas ao fogo, traçando invisíveis círculos de calor que roçavam o meu rosto. O odor das cinzas e da madeira, arrastado pelo movimento de translação, tornava essa vida ainda mais concreta.” [6] 

Com precisão e imediatez, num espanto, pude experienciar exactamente aquilo de que João Fernandes fala numa conversa com o artista inserida no catálogo da exposição "Meio Concreto", em Serralves: "We find ourselves within a spherical situation rather than in front of a situation in perspective". [7]  

Não sentia o armário só à minha frente; mas à minha volta - e eu circundava-o, eu também estava à volta dele. Esta percepção fez-me rememorar uma ideia de Merleau Ponty presente no seu livro "O olho e o espírito". O autor diz nos :"Eu não vejo de acordo com o invólucro exterior, vivo-o de dentro, estou nele englobado. Seja como for, o mundo está à minha volta, não à minha frente ."  De repente, sou da mesma textura que o Armário e que o Mundo. Está tudo - não à minha frente mas à minha volta. Trata-se de uma união de ver e ser visto, onde me descubro confundida com a matéria. Somos seres videntes e visíveis. Somos o mútuo, o encadeamento, o dominó, numa relação de fusão com o mundo exterior: "Visível e móvel, o meu corpo pertence ao número das coisas, é uma delas, está preso na textura do mundo, e a sua coesão é a de uma coisa. Mas, posto que vê e se move, ele mantém as coisas em círculo à sua volta, elas são um seu anexo ou prolongamento, estão incrustadas na sua carne, fazem parte da sua definição plena, e o mundo é feito do mesmo estofo que o corpo." [8]  

 

Passo a passo dei a volta ao armário a primeira vez, para entrar na sua presença. Observei os reflexos que se instalavam nos vidros abertos a ecoar a visão frontal da peça. Um pano de cozinha - um dos mais simples objectos de casa que se pode encontrar num armário-  estava suspenso a meio. Nele foram impressas através da serigrafia muitas circunferências verdes, quer na parte da frente quer na parte de trás, e, de lado, as palavras “transparente ao som” - quase como se de repente o pano em si revelasse as suas propriedades sonoras.
Por não ter procurado repetir o ângulo na perfeição nas impressões serigráficas, estas circunferências criam uma espécie de efeito Moiret e lembram-me o Ambisonics (um método para gravar, mixar e reproduzir áudio tridimensional de 360 graus. A abordagem básica do Ambisonics é tratar uma cena de áudio como uma esfera completa de som de 360 graus vinda de diferentes direcções em torno do ponto central. O ponto central é onde o microfone é colocado durante a gravação ou onde o “ponto ideal” do ouvinte está localizado durante a reprodução. Além do plano horizontal, cobre fontes de som acima e abaixo do ouvinte, numa imersão circular, envolvendo o sujeito numa órbita de rotação contínua) 

Queremos quadricular a vida e alinhá-la com as linhas rectas que somos capazes de desenhar mentalmente, mas temos de adivinhar uma geometria diferente - temos de saber que o centro, no centro, somos uma casa circular - vivemos na cabana primitiva. 

"No interior, o instrumento que impõe ao ninho a sua forma circular não é outra coisa senão o corpo do pássaro. É pela acção de virar-se constantemente e de recalcar as paredes de todos os lados que ele chega a formar esse círculo."  [9] 

Somos nós, com o nosso peito e alma que escavamos e damos forma à nossa casa. A nossa cabana tem a forma da nossa presença e molde, e habitamos essa casa construída pelo próprio corpo/pássaro.

Quando o pano entra em movimento através da corrente de ar que entra pelas portas da capela, ou quando nos afastamos um pouco para trás do Armário, vemos círculos que se contaminam e se entrelaçam criando uma continuidade de si próprios no próximo — expandem-se , alargam-se, difundem-se. Um círculo deixa de ser apenas um e ganha potência e alargamento juntando-se aos outros — misturam-se e criam vários núcleos que se amparam mutuamente, círculos que trocam entre si o que fica descoberto, que evocam  esta  ideia de circularidade, de princípio e de fim, de cima e de baixo, de envolvimento cíclico - que não acaba. Nesta altura, consigo sentir os círculos a estenderem-se até ao infinito, a continuarem para lá do pano, num abandono ao destino e ao incalculado, com a certeza de que aprenderão a voar.

“É como se o mundo estivesse à minha espera, e eu vou ao encontro do que me espera." [10] 

(Clarice Lispector)

Essa ideia de inevitabilidade que nos salva, de aceitação que liberta, num voo de possibilidades que simboliza um afastamento de toda a incerteza -  de espera na esperança, de ser espera na esperança, (ou) de ser espera contra toda a esperança. De saber que, mesmo inseguros, os nossos passos chegarão lá — como os círculos, um atrás do outro, um pelo outro, um com o outro — e que também nós aprenderemos a voar.
Numa aparição e desaparecimento contínuos, testemunho a experiência do inframince de que Duchamp falava — diáfana e transparente — o possível implicando o devir, um entre cheio de possibilidades. O que é próprio do visível é ter uma dobragem de invisível, que ele torna presente como uma certa ausência.

Ser a distância ou a proximidade necessárias para testemunhar o tempo de recepção. Esperar o som do real e o som da água — ser real e ser água. 

Nas palavras do artista, a intervenção Transparente ao Som é "um ensaio sobre as propriedades acústicas do armário que parte do princípio que o algodão, tal como a seda, é transparente ao som — ao contrário do que acontece com a madeira e o vidro, que lhe são opacos." [11] 

As portas e as costas do armário abrem-se, escancaram-se - e, de repente, são lugar de passagem, são caminho, ligação, entrada; são um canal de ar, um espaço de transladação. Alexandre Estrela contraria a opacidade e dureza do Armário fechado e traz-lhes ar a passar — através do qual se movimenta o som e a luz. E não se trata, doravante, de falar do espaço e da luz, mas de fazer falar o espaço e a luz que aí estão".[12] 

Desdobrar o armário é escolher vias que nos possibilitam e não vias que nos limitam. É escolher desimpedir e potenciar.  

"Abri-lo é viver um acontecimento da brancura." [13] 

Saber ver esses lugares onde, com poucas palavras, na sua potência trémula e vibrante, nos seus veios e respirações - cabe tudo. Saber que no presente está o tempo todo. 

Que todas as coisas que do mundo estão aqui — a sussurrar baixinho, ao sabor da brisa, com a frescura de um ligeiro sopro e o mistério de um segredo por revelar.

“Os círculos no céu não serão as imagens dos círculos que correm sobre o sensível rio ao mais ligeiro sopro do vento? O mundo é um.” [14]


Qual é o espaço que o som ocupa?  A proposta talvez seja acompanhar as ondas de luz e de som que flutuam perto de nós — ou transformarmo-nos nelas. 


“(...) como estava escuro, a chama, aumentando e diminuindo de intensidade, criava maior ou menor espaço iluminado. E, nesta coincidência rara de flutuações, senti a igualdade entre chama, som e vibração. O mesmo ritmo, a mesma oscilação, a mesma criação de espaço, a mesma variedade de “tempo”, a mesmíssima combustão. Vi que as manifestações sonoras são combustões luminosas. Os sons acabam porque se queimam e, ao queimarem se, tornam-se matéria evanescente. Os sons transformam-se em fumo; este, há de ser nuvem.” [15]


Sempre a renascer, esta peça tem quase toda a vida à sua frente. 
O Armário, em Transparente ao Som, na sua curvatura e enredo, na sua respiração perene e contínua celebração de voo, lembra-me que “nada se perde, tudo ascende à nuvem sonora, pairando."[16]

 

 

 

Filipa Almeida

Nasceu em Lisboa, em 1996, cidade onde vive e trabalha. Licenciou-se em Ciências da Cultura e da Comunicação, na Faculdade de Letras. Realizou uma Pós- Gradução em Curadoria de Arte na Nova FCSH, um curso de Estética na SNBA, e está neste momento a realizar o Mestrado em Práticas Tipográficas e Editoriais Contemporâneas na FBAUL. 

 

 

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Notas:

[1] Gaston Bachelard in A Poética do Espaço, p. 249.

 [2] Ibid, p. 245

 [3] Site do Armário, disponível aqui

 [4] Alexandre Estrela Meio Concreto[catálogo], Porto: Fundação Serralves, 2013, p. 152.

 [5] Merleau Ponty in O Olho e o Espírito, Lisboa: Vega, Passagens, 1999, p. 56.

 [6] Gaston Bachelard in A Poética do Devaneio, São Paulo, Brasil: Martins Fontes, 1996, p. 187. 

 [7] Alexandre Estrela Meio Concreto[catálogo], Porto: Fundação Serralves, 2013 p.142.

 [8] Merleau Ponty, op. cit., p. 21.

 [9] Gaston Bachelard in A Poética do Espaço, p.263.

 [10] Texto de Clarice Lispector, disponível aqui

 [11] Citação de Filipa Oliveira, retirada da Folha de sala da exposição.

 [12]  Merleau Ponty, op. cit., p. 49.

 [13] Gaston Bachelard in A Poética do Espaço, p. 250.

 [14] Gaston Bachelard in A Poética do Devaneio, p.178.

 [15]  Maria Gabriela Llansol in Finita, Assírio e Alvim, p. 47, 48.

 [16]  Ibid, p. 158.

 

  
 

 



FILIPA ALMEIDA