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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição Mundo de Aventuras. © Francisco Pereira Gomes / Arquivo Fundação Eugénio de Almeida


Vista da exposição Mundo de Aventuras. © Francisco Pereira Gomes / Arquivo Fundação Eugénio de Almeida


Vista da exposição Mundo de Aventuras. © Francisco Pereira Gomes / Arquivo Fundação Eugénio de Almeida


Vista da exposição Mundo de Aventuras. © Francisco Pereira Gomes / Arquivo Fundação Eugénio de Almeida


Vista da exposição Mundo de Aventuras. © Francisco Pereira Gomes / Arquivo Fundação Eugénio de Almeida


Vista da exposição Mundo de Aventuras. © Francisco Pereira Gomes / Arquivo Fundação Eugénio de Almeida


Vista da exposição Mundo de Aventuras. © Francisco Pereira Gomes / Arquivo Fundação Eugénio de Almeida


Vista da exposição Mundo de Aventuras. © Francisco Pereira Gomes / Arquivo Fundação Eugénio de Almeida


Vista da exposição Mundo de Aventuras. © Francisco Pereira Gomes / Arquivo Fundação Eugénio de Almeida


Vista da exposição Mundo de Aventuras. © Francisco Pereira Gomes / Arquivo Fundação Eugénio de Almeida


Vista da exposição Mundo de Aventuras. © Francisco Pereira Gomes / Arquivo Fundação Eugénio de Almeida


Vista da exposição Mundo de Aventuras. © Francisco Pereira Gomes / Arquivo Fundação Eugénio de Almeida


Vista da exposição Mundo de Aventuras. © Francisco Pereira Gomes / Arquivo Fundação Eugénio de Almeida

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ARQUIVO:


JOÃO FONTE SANTA

MUNDO DE AVENTURAS




FUNDAÇÃO EUGÉNIO DE ALMEIDA - CENTRO DE ARTE E CULTURA
Largo do Conde de Vila Flor
7000-804 Évora

09 JUL - 28 FEV 2023

Aventuras na identidade nacional

 


Agora, que atravessamos um momento histórico de conflitos entre territórios e de demarcação de fronteiras culturais nacionais, entre reconfigurações progressistas e desmontagens castradoras, surge “Mundo de Aventuras” uma exposição de João Fonte Santa, no Centro de Arte e Cultura da Fundação Eugénio de Almeida, abrindo brechas de reflexão sobre a nossa identidade nacional. Para quem nasceu nos anos 60, como este artista, Portugal significava, ainda, um pequeno território no espaço europeu com grossos tentáculos em África e remotos paraísos asiáticos caindo um após outro, e por isso, o produto “Portugal” organizava-se num “sistema operativo” completamente distinto da sua versão encolhida conhecida pela geração de setenta em pleno processo de democratização. Isto quer dizer que esse arco temporal de 10 anos não só separou duas gerações, mas criou um hiato entre um Portugal longinquamente velho, e uma cultura imberbe, a iniciar um novo longo caminho, de volta ao que aproximadamente foi na Idade Média, como dizia Eduardo Lourenço. Por incrível que pareça as histórias das expedições em África, como a de Serpa Pinto, que só começaram a despertar interesse depois do trauma da perda do gigante paradisíaco chamado Brasil, continuaram a marcar até à geração de 60, porque foram exacerbadas pelo Estado Novo, mas que para quem tem 40 anos e menos, as ruas de Amesterdão ou de Barcelona, eclipsaram décadas de memorização das chamadas províncias do ultramar. Quem, hoje, ainda se lembra dos territórios de Dadrá e Nagar-Haveli da India portuguesa?

 

João Fonte Santa, Expedição ao interior de africa, 1884-1885 (rinoceronte).

 

Será plausível pensar que alguém de vinte anos olhará para o trabalho de João Fonte Santa como um conjunto de simples e apelativas ilustrações sobre a selva e umas vinhetas cheias de ação, mas, a questão é que independentemente do diferente grau de perceção das diferentes gerações de portugueses em relação ao enorme ponto de interrogação que aqui se coloca sobre a cultura portuguesa, o maior choque é perceber, que a linha que separa o antes e o depois de 1974 é um enorme fosso que precisa (ainda) de ser bem pensado, digerido e transformado, sob pena de nos surgir um fantasma na vertigem da próxima crise mundial ou na sequência de uma bomba discursiva na Assembleia da República sobre quem é o verdadeiro português de gema. É este o processo no qual João Fonte Santa se lançou, ao colocar em cores Popart e numa única sala do Centro de Arte e Cultura a frase “Aqui nasceu Portugal”, alusiva ao centro histórico de Guimarães. Nasceu aqui aonde? Agora mesmo, em versão moderna na Fundação Eugénio de Almeida, em Évora ou em Guimarães, na longínqua batalha de São Mamede, em 1128 quando nenhum de nós existia, ou quando se transfigurou no contacto com as agruras da região do Tete, em Moçambique? Se alguém tinha dúvida sobre o porquê da arte contemporânea, esta é uma das suas funções: inquietar-nos, pôr-nos a pensar sobre o status quo, se admitirmos encarar a angústia. Essa coisa da identidade, seja ela individual, ou coletiva, gira de facto em volta de um núcleo de símbolos, ideias, desejos, mas também de frustrações e vários tiques, que se vão reformulando entre as dimensões do tempo e do espaço. A identidade tem um núcleo, mas não é una; tem uma estrutura, mas não é fixa; tem um brilho intenso, mas não é isenta de dor. Caso contrário, Guimarães nunca teria chegado ao Algarve, e ousado chegar às costas timorenses, para chegar ao final do séc. XX e descobrir o resto da Europa, ali, bem atrás das suas costas. Quando alguém se identifica com um objeto num dado período, há também algo que fica para trás, caído no esquecimento ou revalorizado por outros.

 

João Fonte Santa, Expedição ao interior de africa, 1884-1885 (impala macho).

 

É talvez, porque, a identidade se aproxime mais da impermanência de algo que ousa viver do que de uma raiz apodrecida, que Fonte Santa utiliza cores, ampliações de vinhetas, recortes, repetições e ilustrações de álbuns de fauna - propostas estilísticas próprias da gramática visual da Popart - para contrariar o cinzentismo daquilo que foi o ideal da portugalidade durante o Estado Novo. Em termos concretos, o artista buscou como material de base as imagens dos exploradores Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens publicadas no livro “De Angola à contra-costa”, de 1886, e uma banda desenhada de um autor anónimo que ainda, em 1977, apresentava as gloriosas investidas de um herói branco nas brenhas africanas.

Se ainda não foi claro na banda desenhada, quem era enviado para a linha da frente como carne para canhão para servir os objetivos de um comando branco na retaguarda, apresentam-se na parede oposta dois papéis pintados a grafite, como se tratasse de dois caixões entre duas telas coloridas representando impalas. Caixões porque, são uma lista negra de mais de 53 africanos como Catumbo, morto de fadiga, anemia e meningite, no rio Muana, Fé-Camane, extraviado com a mala dos instrumentos em Cha-Malundo ou Gonga, morto de tísica, em Mossamedes, entre 1884-1885. Não serão eles alguns dos verdadeiros portugueses que pela pátria lutaram como diz o nosso hino? E mesmo os dezassete homens fugidos em massa, no Croque, provavelmente devido à exaustão, não serão eles também heróis, por terem aberto caminho aos outros que continuaram?

 

Vista da exposição. © Francisco Pereira Gomes / Arquivo Fundação Eugénio de Almeida

 

Por falar em hino nacional, a tela “A portuguesa” bem pode ser considerada uma obra-tese, pois detrás de uma estrutura pixelizada, uma mulher africana negra segura a bandeira da Républica Portuguesa. Esta imagem que João Fonte Santa recuperou certamente de algum arquivo, torna-se, talvez, a maior provocação desta reflexão que ele pretende implementar nas nossas mentes. Não seria suposto que a porta-estandarte da bandeira fosse, por exemplo, uma minhota? Não é suposto que a imagem da república seja a de uma mulher branca como a que se encontra em frente dos deputados em São Bento? Mas, se o principal critério é o da origem, não deveria a República fazer-se sempre representar pela imagem de uma mulher grega da Antiguidade Clássica? E se quem acolhe essa ideia política no seu seio, a defende com garras como se fosse sua, não seria essa pessoa a imagem perfeita dessa mesma ideia? Ou, se tão sem mais, sem saber toda a simbologia em torno de um sistema político ou da ideia de um país, alguém possa ter tido uma boa experiência ao ponto de querer representar-se a seu lado? Não pode esta mulher ter sentido mais a portugalidade que qualquer individuo português branco nascido no Portugal europeu que um dia não tenha aguentado mais as contradições dessa mesma portugalidade, tenha fugido para qualquer outro país, e que apesar de divorciado, chore na sua intimidade com o verso “(…) e é amar-te assim, perdidamente (…)” e sinta o cheiro a pastéis de nata em ruas estrangeiras? Mas, o mais irónico seria que essa mesma mulher tivesse sido forçada a segurar um símbolo que representasse uma opressão, sem poder recusar, que servisse a ideia de um império uno e multicultural, mas que na realidade depois de conquistada e aniquilada a sua vontade, fosse ela mesma, ou tão somente a sua cor de pele, objeto futuro de qualquer ódio ou da não menos destruidora indiferença.

Antes de tudo não se exalte! O artista propõe-lhe apenas uma reflexão, que ponha em causa as suas ideias pré-concebidas. A exposição “Mundo de Aventuras” não aponta para uma verdade fechada, ela só lhe devolve o que mais nos custa: tomar responsabilidade pela aventura do que sentimos, pensamos e somos, não necessariamente pelo lado mais agradável.

 



NUNO LOURENÇO