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RUI CHAFES

CHEGAR SEM PARTIR




MUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA
Rua D. João de Castro, 210
4150-417 Porto

20 JUL - 26 FEV 2023

Chegar sem Partir ao Museu de Serralves

 


Rui Chafes (Lisboa, 1966) chega ao Museu de Serralves, sem nunca ter verdadeiramente partido, pois a sua obra inscreve-se na memória, no tempo e no espaço. Após ter participado numa coletiva, nesta instituição, em 2005, o artista regressa com uma mostra individual que abrange os seus mais de trinta anos de carreira. Não se trata, porém, de uma retrospetiva, mas, como sugere Philippe Vergne, uma “introspetiva”. O mesmo se explica considerando que a exposição foi projetada livremente, sem ordem cronológica ou finalidade representativa do percurso profissional do artista. É, ao invés, o resultado de um exercício íntimo entre os curadores, Vergne e Inês Grosso, e Chafes, com o intuito de revelar o âmago da criação artística deste último.

A mostra intitulada Chegar sem Partir, passível de ser visitada até ao dia 15 de janeiro, distribui-se ao longo da ala direita do edifício e no parque. Deste modo, a obra de Chafes dialoga tanto com a arquitetura de Álvaro Siza, como com a natureza envolvente. Várias peças foram recuperadas e reinterpretadas e, outras, criadas propositadamente para a ocasião.

Chafes é autor de uma obra singular e atemporal. Tendo concluído a licenciatura em Escultura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa e frequentado a Academia de Arte de Düsseldorf sob a direção de Gerhard Merz, situa as suas principais referências no gótico tardio, no romantismo alemão e nas heranças de Marcel Duchamp e Joseph Beuys. É, hoje, um dos maiores artistas nacionais e enaltecido a nível mundial, o que se justifica por deter um sentido estético raro, uma invulgar virtude criativa e um rigoroso formalismo. Sendo que, assinale-se recorrendo a Grosso, a atual exposição é “tão rigorosa quanto a sua própria obra”.

O trabalho de Chafes cedo se afirmou enquanto sui generis e os materiais precários que definiram o seu início não tardaram a ser substituídos, tendo-se tornado, sobretudo, reconhecido pelo uso do ferro. Este último, preferencialmente polido e pintado a negro mate, é martelado, soldado e moldado, método a partir do qual emergem figuras singulares cujas formas orgânicas contrastam com a habitual utilização industrial da matéria que as constitui. Inúmeros exemplares desses objetos habitam, agora, o Museu de Serralves, ora fixados nas paredes, ora suspensos com uma aparente leveza, também esta contrária à sua pesada e maciça composição.

Nas galerias encontram-se esculturas site-specific, mas também um conjunto vasto de desenhos, prática constante do artista e cuja descrição “técnica mista” se atribui à utilização de matérias prosaicas tais como a tintura de iodo, o chá ou o café. No que diz respeito às obras tridimensionais, será inevitável começar por referir a que ocupa a primeira galeria, Tranquila ferida do sim, faca do não (2013/18), propícia a uma experiência particularmente desafiante e inquietante. A escuridão da sala instiga um inicial desconforto que lentamente se desvanece, à medida que a visão se adapta, assim se desvendando a instalação, processo que se cumpre numa invulgar sucessão de estímulos sensoriais.

Tais construções cénicas colocam o espectador totalmente imerso, presente e atento ao que lhe é dado, razão pela qual se encerraram todas as janelas do museu, impossibilitando quaisquer pontos de fuga do olhar. Ao mesmo tempo, é este fechamento em relação ao exterior que melhor permite testemunhar a dinâmica e a convergência entre a criação artística e a arquitetura. A obra e o espaço alimentam-se reciprocamente, num desenrolar de ações que, embora em harmonia e equilíbrio, são simultaneamente marcadas por uma contínua tensão, como é exemplo a obra que ocupa o corredor final da exposição, Medo não medo (1988/98). Tais forças contrárias são também nítidas em A não ser que te amem (1987), peça que, iluminada por um vivo azul Klein, ao mesmo tempo que, curvilínea e sinuosa, se instala como que naturalmente no espaço que lhe foi destinado e parece preparar-se para eclodir para lá do mesmo.

Destaque-se, ainda, Burning in a forbidden sea (2011), onde se conjugam o som, por meio da palavra e da melodia, com uma escultura invulgar, ameaçadora e igualmente cativante, uma entidade híbrida que aparenta ser produto tanto da técnica quanto da natureza. Diferentemente das suas anteriores exibições, a peça apresenta-se, desta vez, envolvida por uma luz verde magnética, condutora de uma inebriante atmosfera. Enquanto um todo, a instalação serve como exemplar de uma densa interação entre objeto, espaço e espectador, dinâmica que, como se vem a compreender, repercute-se ao longo da exposição.

Ademais, todas as peças desafiam e diluem dualismos tais como presença e ausência, real e espiritual, vida e morte, física e metafísica, material e imaterial, interior e exterior, claro e escuro. Este último, exercido pela luz e pela sombra, é predominante no trabalho do artista e fundamental tanto para o modo como as peças se instalam e manifestam, como para a sua recepção, percepção e experiência. Com efeito, é transversal à obra de Chafes um jogo de visibilidade e invisibilidade que, na atual exposição, manifesta-se, inclusivamente, no modo como nove esculturas se distribuem no parque, tanto em locais centrais, como recônditos e inesperados.

 

© Filipe Braga

 

Destaca-se a primeira peça, que dá nome à exposição, Chegar sem partir, de seis metros, a qual parece encontrar-se sob o efeito de um tornado, congelada no instante que imediatamente precede a sua fragmentação e disseminação no espaço. Já próximo da Casa de Serralves, Comer o coração, inaugurada na Bienal de São Paulo de 2004 e concebida em colaboração com a bailarina e coreógrafa Vera Mantero, materializa a relação entre a escultura e a performance, o objeto e o corpo. Por último, assinale-se a instalação permanente, concebida para o Passeio da Levada do parque de Serralves, intitulada Travessia, cuja principal referência é a peregrinação e, como tal, convoca a ideia de uma renovação mística e espiritual. Sob a forma de um percurso subterrâneo em penumbra, a mesma conduz a uma câmara central, iluminada somente por uma ínfima frecha de luz, mediante a qual se revela o que aparenta ser um casulo negro. Trata-se de mais uma ocasião de profunda experiência estética.

Em nota final se sugere que, sendo pautada por uma singular cadência, de ritmo definido tanto pelas figuras exibidas como pela força que entre elas se exerce, a exposição consolida-se enquanto uma só potência, transcendente, global e extremamente sensorial. Como comenta Vergne, “a exposição é uma obra de arte em si mesma”, “quase uma escultura”. Aliás, a obra de Rui Chafes é um organismo vivo, que pulsa e transforma perpetuamente tudo e todos aqueles com os quais se cruza.



CONSTANÇA BABO