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EXPOSIÇÕES ATUAIS


© Pedro Pina


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JORGE QUEIROZ, ARSHILE GORKY

TO GO TO. JORGE QUEIROZ | ARSHILE GORKY




FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN
Av. de Berna, 45 A
1067-001 Lisboa

29 JUL - 17 OUT 2022


 

Ao sol, – no campo, na praia, em casa – o que acontece quando fechamos os olhos? Manchas como fosfenos invadem o campo escuro de não-visão, parecendo cores, manchas, ilusões provocadas por reações da retina. Não estamos a dormir, nem acordados, mas num estado de transição, um buraco profundo onde entramos pela porta da noite.

Se abertos, os olhos percorrem as telas da mais recente exposição temporária do Museu da Fundação Calouste Gulbenkian, To go to, procurando diálogos entre as obras de Jorge Queiroz e Arshile Gorky. Percorrem contemplando, tentando discernir o que vêm; ou seguros, num sentido inverso, intimidando os espectadores que neles procuram ver. Não podemos ver pelos olhos dos outros. O sol que determina as manchas é o chão: tapete amarelo, aderente, quer marcar os nossos passos. É por isso que, num gesto curatorial, vemos colados ao piso, a dada altura, silhuetas de pessoas, onde se mostram as pernas e os pés. Tornam-nos conscientes de que nos compreendem o andar. Simultaneamente, o seu conforto convida-nos a sentar, habitar. Vejamos.

Ante Medusa de Arshile Gorky e Echoes Anonymous de Jorge Queiroz situam-se perto no espaço da exposição. Na primeira, o preenchimento de curvas e campos do quadro através de um tinta salmão que escorre, faz abrir espaços em branco onde se inserem pontos como pupilas, signos bidimensionais; na segunda, a composição sinistra, densa, mas sedutora, tenta emergir à superfície, figurando-se, mas fecha-se a resoluções como um cofre vigiado onde olhos espreitam num ou outro círculo imposto na superfície do quadro. Apesar das diferenças, será uma das situações em que o pathos dos dois artistas mais se aproxima – escolhem cores pulsantes, líquidas, quase brilhantes, situando-se à beira da figuração, mas nunca a invadindo por completo.

 

Vista da exposição, © Pedro Pina.

 

Já as oposições podem determinar-se, por exemplo, no diálogo que se pretende entre o enorme Sem Título de 2010 de Queiroz, onde um homem que escreve se faz elefante (o pavor das suas pinturas tem, realmente, algo de lynchiano) numa aguarelada composição de apagamentos, esconderijos e fluídos, e Garden of Wish Fulfillment de Gorky, feita de um impasto de quadrados, círculos e retângulos dispostos numa lógica indiscernível - o que as parece unir é, apenas, esse fechamento e a paleta cromática de amarelo, preto, branco e vermelho. Estas dissemelhanças residem algures nessa troca, no “ir para” que nos convoca o título da exposição, explicitado na folha de sala: “Como Queiroz referiu na preparação da exposição, Gorky partiu da figuração e desejou a abstração, enquanto ele próprio passou da abstração para a figuração, ainda que trabalhando na conjugação desses dois registos, criando imagens abstratas em que utiliza algumas figurações”.

Sublinhe-se aqui um dado importante – a exposição foi desenhada por um dos artistas que nela se apresenta, Jorge Queiroz. Torna-se, assim, mais do que um espaço de diálogo, um de acolhimento. O lado menos bom da exposição reside no outro lado desse acolhimento: mostram-se, maioritariamente, desenhos e não pinturas de Gorky (à exceção de alguns casos pontuais), que acabam por não nos envolver da mesma forma no trabalho do artista. Ainda assim, esta circunstância resulta oportuna, permitindo-nos um novo olhar para a obra de Jorge Queiroz, começada no desenho.

Destaca-se outra composição Sem Título, agora de 2000, algures entre o humano e o zoomórfico, onde a cabeça de uma figura em pé se vai arrastando para cima, consciência que cria e se autorrepresenta, abrindo-se, quase ao topo, o mórbido buraco de onde brotam as ideias. Nesta representação impossível, algures entre o surreal e o expressionista, Queiroz é sempre atraído por um sentido de movimento, deslize, mesmo quando convocado sob a secura do lápis de carvão – ainda que numa composição assumidamente bidimensional, há sempre algo de perturbador, cavernoso, que nos impele. É isso que faz a sua pintura resplandecer – formas e tintas que se corroem apodrecendo, homens elefante, diabos que espreitam (a belíssima Mondo). Mas, no meio desta aparente esquizofrenia, há algo de profundamente antigo na forma como Queiroz devolve, de novo, a imponência à pintura, não só na escala, como nesse fascínio, transfixação que nos instiga ao determo-nos nas suas criações descontroladas.

 

Vista da exposição, © Pedro Pina.

 

São raros os desenhos de Queiroz aqui expostos. O que vemos na sua maioria são desenhos de Gorky ao lado de pinturas de Queiroz. Ainda que atraídos por movimentos ondulantes, espontâneos, fluxos de cor, e por uma transição entre surrealismo e expressionismo abstrato - em Gorky efetivamente real, contextual, em Queiroz legada - os desenhos de Gorky não se preocupam em transgredir a fisicalidade do que são feitos, convocar urros guturais. As formas repetem-se, puxando, repuxando, como se atraídas pela espontaneidade de uma força motriz, sempre circular no traço e conteúdo – olhos, cogumelos, flores, ou pelo menos o que nos parece, habitam o único lugar onde os quadrados amolecem. A planura seca com que se compõem faz lembrar a de um mapa, cujas direções não apreendemos. Gorky é, aqui, o mapa das direções de Queiroz – uma compreensão topográfica que se compôs antes do surgimento da realidade. Premonição.

Nas compridas reticências da última parede da exposição, de uma única pintura num extremo da parede, vemos, num mórbido piscar de olho, a, também, última pintura da vida de Gorky ou, pelo menos, a que estaria no seu cavalete aquando do seu suicídio em 1948, agora intitulada Last Painting (The Black Monk). Há algo de, talvez presunçosamente, sacrificial na disposição deste quadro. Uma passagem de testemunho. 18 anos separam a morte de Gorky do nascimento de Queiroz – uma maioridade. Talvez a obra de Queiroz não tenha a mesma relevância contextual que pudesse ter se feita aquando dessa emancipação, mas isso também não lhe é, nem deve ser, importante. O testemunho passado não quer ser substitutivo, mas distante, como o olhar de um pai para um filho onde nele se revelam os trejeitos da face. Isso que lhes é comum, mas que a nenhum deles pertence, pode estar na única obra fora das suas autorias, situada à entrada da exposição. Define-se como um rosto de quem gostaríamos de saber quem era, uma face masculina de bigode, risco ao meio, fato e gravata, anónimo. Misterioso, enunciador, apostaria que o seu coração se encontra ao fundo da sala, em A Day Later, série de 5 pinturas de Queiroz realizadas propositadamente para a exposição. Apesar de numeradas, a sua ordem de disposição não é cronológica. Isto porque, se nos dispusermos exatamente no centro da sala da exposição, de frente aos pilares de betão que a sustentam, não veremos a obra do meio – é o quão central ela está. A pintura, A Day Later 5, é também ela centralizada num retângulo azul como se compreendesse um núcleo ou lugar originário (um segredo), uma pintura dentro de outra, onde figuras se distorcem sob um papel de linhas pintado. Há aqui algo de alquímico, vaporoso: do retângulo parte para cima uma ampliação abstrata da mesma imagem, fluída como um rio, misteriosa como a consciência que se vai arrastando para cima, etérea como as manchas nos olhos fechados. A união desta série de pinturas reside na composição grelhada em que operam, como o papel onde se compõe um texto, uma carta, mas nada aqui se escreve. A corrosão de formas e cores contamina tudo como uma doença, lembrando-nos dessa real impossibilidade de comunicação entre dois pintores, aqui, pelo menos, tentativa.

 



MIGUEL PINTO