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EXPOSIÇÕES ATUAIS


© Bruno Lança.


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ARQUIVO:


JOSÉ PEDRO CROFT

CAMINHOS CRUZADOS




MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA DE ELVAS
Rua da Cadeia
7350-146 Elvas

05 FEV - 03 JUL 2022

José Pedro Croft: um apelo à apropriação

 


O Museu de Arte Contemporânea de Elvas apresenta até ao próximo dia 3 de julho “Caminhos Cruzados”, uma exposição das sessenta obras de José Pedro Croft pertencentes à coleção António Cachola, reunidas desde 1997 até aos dias de hoje. Ali cruzam-se imagens de colour fields, linhas bem vincadas, contrastes de branco e negro em fundos de texturas ásperas, símbolos ainda não reconhecidos pelo coletivo e principalmente, uma série de planos que abrem espaços, que se refletem sobre outros, que se curvam e que se cortam para desvendar outros mais além. Mas, não podemos percorrer inúmeras salas, entre objetos e quadros do abstracionismo geométrico, sem cair na tentação de lhes atribuir significado. De que falam estas obras afinal, se nenhuma tem título Não deve ser esta a questão correta, mas sim, o que é que eu vejo nelas sem lhes atribuir mensagens transcendentais e concentrar-me unicamente na imagem da sua materialidade. Olho para trinta desenhos pintados de um pequeno paralelepípedo-quase-cubo, encerrados cada um deles numa moldura à parte. Vejo vincos, vejo os alçados do objeto, as suas perspetivas, a sua forma reduzida a pequenos planos e vejo quebradas sombras registadas de forma assumidamente simbólica. Mas, não são símbolos. Ainda não são símbolos, porque, aguardam pela ativação da nossa memória. Estes trinta desenhos gritam a preto e a vermelho-sangue pela nossa apropriação. As coisas e as obras só começam a ser dignas de si mesmas quando são apropriadas por um olhar demorado que lhes dá significado, senão não seriam coisas ou obras, porque apesar de termos olhado para elas, cairiam no esquecimento.

 

© Bruno Lança.

 

E aqueles quadros azuis? São meros campos de uma mistura de azul-ultramarino com azul-prussiano ou são toda a profundidade que eu lhes dou? E aquelas circunferências mais além? Não parecem representar nem o mundo, nem a roda, nem um simples botão escuro. Não pretendem representar nada e são apenas o contorno de um ponto em tamanho grande, opondo as cores neutras num fundo de textura de granito. Mas logo momentos depois, elas passam a ser todo o dinamismo que eu vejo nelas.

As obras tridimensionais exigem, porém, um maior esforço de apropriação para lá dos limites da perceção visual, pois solicitam o envolvimento de todo o corpo para um melhor exercício das faculdades da mente. Olho para duas cadeiras espalmadas sobre as pontas de um enorme paralelepípedo branco que assenta na horizontal sobre elas mesmas. Ao primeiro impacto, sugerem a surdez, talvez a própria alienação, mas lá está, a escultura exige muito mais esforço da nossa parte. Há que avançar até ela e explorar todos os graus do seu volume. Afinal, as costas das cadeiras dialogam obsessivamente uma com a outra pelo interior desse enorme sólido geométrico que agora vemos destapado nas pontas. Na verdade, as cadeiras são surdas para o mundo exterior, mas são obcecadas pela sua relação frontal no interior.

Noutra sala, olho para uma estrutura metálica de forma pentagonal, inclinada, donde saem tampas de vidro. Não é difícil de ver nela uma cápsula espacial concentrando em si todas as dimensões do tempo como uma escultura cronocrata. E que porque faz Croft tantos armários sem portas? Uns são inclinados de fundo espelhado para que possamos ver o nosso próprio chão na dimensão exata do nosso céu. Outros são adossados às paredes, de fundo espelhado para que nos possamos ver, ver o outro, ver o desconhecido, o sinistro, o fugaz e a surpresa. E são sempre altos e espaçosos para que possamos caber neles em segurança, uma vez lançados nesse fascinante mundo de enigmas. A geometria de José Pedro Croft sofre vertigens deleuzianas, porque dos seus vários espelhos, encontramos o reflexo, a cópia, o desdobramento, o indício e o simulacro na esguelha do infinito. Ele é o feiticeiro do universo que segue as suas depuradas leis com os seus pontos, as suas linhas e os seus planos, tal qual um Kandinsky de versão enxuta. As suas esculturas podem percorrer um tampo de uma mesa pelo fundo de um contrabaixo, até às elipses da via Láctea, e da mesma maneira voltar ao contrabaixo e à mesa sem qualquer subterfúgio ou atrito. Sempre cumprindo o respeito pelas leis.

Em “Caminhos cruzados” há uma escultura, que é aquela que mais alto fala. Na verdade, ela não fala nada, eu é que me apropriei dela. Olho para um plano branco, feito à escala humana, mas, instalado numa sala muito ampla. Ele cai esticado na vertical para tocar o solo suavemente, sem qualquer embate, ao ponto de se encaracolar na sua margem. Vejo leveza, aonde não há leveza. Vejo uma enorme folha de papel massajando o chão, aonde um plano pesado é sustentado discretamente por um banco na sua retaguarda. Croft é assim, transforma a ideia orgânica de uma folha A4, numa escultura dinâmica que o meu corpo atraí, a minha visão capta e a minha mente apropria.

Percorrer a exposição “Caminhos Cruzados” não é tarefa fácil, porque nenhuma peça é dada de mão beijada. Não há títulos, não há legendas. Cabe a mim e a si que a visitamos, fazer das peças, as nossas peças, apropriarmo-nos delas visualmente, para que tenham alma e nos façam sorrir. Afinal, está (quase) tudo na nossa mente!

 



NUNO LOURENÇO