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EXPOSIÇÕES ATUAIS


¿De qué casa eres?, de Ana Perez-Quiroga. Mupi Gallery, 2021. Fotografia: Mariana Vitale


¿De qué casa eres?, de Ana Perez-Quiroga. Mupi Gallery, 2021. Fotografia: Mariana Vitale


¿De qué casa eres?, de Ana Perez-Quiroga. Mupi Gallery, 2021. Fotografia: Mariana Vitale


¿De qué casa eres?, de Ana Perez-Quiroga. Mupi Gallery, 2021. Fotografia: Mariana Vitale


¿De qué casa eres?, de Ana Perez-Quiroga. Mupi Gallery, 2021. Fotografia: Mariana Vitale

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ARQUIVO:


ANA PÉREZ-QUIROGA

¿DE QUÉ CASA ERES?




MUPI GALLERY
Rua Passos Manuel 178rn4º andar
4000-382 Porto

17 JUN - 21 JUL 2021


 

 

 ¿De qué casa eres? de Ana Pérez-Quiroga (1960) revela-nos a importância e o poder das imagens e dos objetos comuns enquanto veículos que promovem a reflexão sobre questões prementes da atualidade e cuja visita é indispensável. Atraídos pelo tríptico retro iluminado, peça de mobiliário urbano destinada a conter informações e publicidade, deparamo-nos com três obras que aparentemente distantes partilham uma mesma dimensão sociopolítica, promovendo uma reflexão sobre o discurso estético, poético e político associado às imagens. Integrando o ciclo expositivo Poético ou Político? com curadoria de João Baeta, ¿De qué casa eres? de Ana Pérez-Quiroga transporta-nos para outros países, para uma outra época e para um acontecimento da História recente ligado à Guerra Civil Espanhola. À semelhança de George Santayana que afirmou, Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo, a artista recorda através das imagens que ocupam os três mupis da galeria, um passado não muito longínquo para que o mesmo não seja esquecido, mantendo-o vivo na nossa memória: o exílio de crianças republicanas espanholas durante a Guerra Civil de Espanha (1936-1939). O projeto investigativo de cariz autobiográfico, que a artista iniciou em 2016 e ao qual acrescenta novos leituras, homenageia a história da sua Mãe, uma das 2895 crianças, que durante a Guerra Civil Espanhola foram enviadas para a União Soviética, os chamados Los Niños de Rusia.

 

Servindo-se dos mupis como molduras de grandes dimensões e em plena interação com a estrutura Ana Pérez-Quiroga apresenta-nos imagens como se de spots publicitários se tratassem e cujos signos e seus significados desejamos ler. Numa clara alusão e homenagem à Mãe, e acreditamos que a todas as Mães, a artista apresenta-nos numa caligrafia infantil, como infantil é também o traço que acompanha o desenho que lhe serve de fundo, a palavra mamã. Qual criança que oferece um desenho à mãe, a artista oferece-nos esta imagem, a mesma que numa anterior exposição surgia gravada na parede à altura de uma criança – denunciando o seu autor – ganha agora uma nova dimensão, uma outra visibilidade, preservando as marcas do seu traçado na parede. Da inocência pueril e de um retorno à infância a artista transporta-nos para o imaginário revolucionário de causas e lutas. Pintada numa tela de algodão a palavra de ordem ¡VIVA! República, apresenta um duplo sentido e leitura, ao mesmo tempo que nos remete pelas cores vermelha e roxo à bandeira republicana espanhola. À medida que observamos a expressão ¡VIVA! República – República ¡VIVA! deixamo-nos conduzir pelo espírito de lutas e de perseverança, que a artista habilmente resgata para o presente, para que o mantenhamos vivo e sobretudo para que não o esqueçamos. O resgate para o presente de um dos eventos de fragmentação do período da Guerra Civil Espanhola, materializado num trabalho de raiz sociopolítica, no qual História e autobiografia se cruzam, atinge uma dimensão pessoal na imagem apresentada no último mupi. Partindo da narrativa de memória familiar, Ana Pérez-Quiroga apresenta-nos o desenho pintado de um dos objetos trazidos pela mãe aquando do seu regresso a Espanha: uma pregadeira esmaltada. Dezanove anos depois da partida para o exílio na União Soviética em 1937, aos quatro anos de idade, a mãe da artista regressa a Espanha em 1956, com 24 anos e licenciada em medicina.

A partir do conteúdo da mala de viagem da mãe, Ana Pérez-Quiroga cria um arquivo (sentimental) com desenhos de uma seleção dos objetos trazidos da Rússia. Para além da investigação histórica em fontes literárias e documentais, a artista recorre a estes objetos desenhando-os, servindo-se do traço como gesto de intimidade e ao mesmo tempo como processo de investigação e de registo de bens que podemos interpretar como fonte de um trabalho científico. Não deixa de ser curioso, e com certeza nada inocente, a escolha da artista em apresentar no mupi uma pregadeira, adereço de adorno normalmente utilizado na zona do peito, e que ostenta ao centro o signo da pomba da paz. Se por um lado a escala da imagem do objeto ampliado promove um rompimento com a sua vertente mais íntima, por outro lado o fato de ter sido um adereço selecionado e trazido pela mãe da artista, da União Soviética para Espanha, revela-nos a importância do mesmo enquanto adereço que nos serve também como autorretrato. A significância do objeto que, entre outros, vieram na mala remete-nos também para a própria ideia de mala enquanto casa, que por sua vez se relaciona com o título da exposição ¿De qué casa eres? pergunta comum entre os niños e niñas quando se encontravam durante a sua estadia na Rússia e mesmo depois, quando regressaram a Espanha. A expressão comporta uma dimensão de identidade e de pertença - quem somos, a quem e onde pertencemos, a que família, género – que carateriza o universo artístico de Ana Pérez-Quiroga e que nos lança numa reflexão sobre estas temáticas, numa análise de pós-memórias que agora materializadas na Mupi Gallery como imagens propagandísticas adquirem uma nova dimensão.

 

 

 

 

Mafalda Teixeira
Mestre em História de Arte, Património e Cultura Visual pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, estagiou e trabalhou no departamento de Exposições Temporárias do Museu d’Art Contemporani de Barcelona. Durante o mestrado realiza um estágio curricular na área de produção da Galeria Municipal do Porto. Atualmente dedica-se à investigação no âmbito da História da Arte Moderna e Contemporânea, e à publicação de artigos científicos.
 



MAFALDA TEIXEIRA