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ARQUITETURA E DESIGN




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BÁRBARA SILVA


16/02/2021 

 

 

Viagem a Casablanca, Março 2014

 

 

Josef Albers, Graphic Tectonic, 1941.

 

 


Imaginemos a existência de um lugar desenhado por uma grelha emocional, traçada por um conjunto de regras que se perderam no tempo. Onde as ruas, inundadas pelo ruído das pessoas e pelo intenso calor do meio-dia, se encontram e terminam junto ao mar. Onde todas as coisas têm autorização para provocar emoções, comover e fascinar. Onde cada objecto tem a tonalidade ténue da areia do deserto, que muda, cada vez que as nuvens se pintam de uma cor diferente.

Em cada cidade há algo que conecta tudo e, ao mesmo tempo, há algo que tudo distancia, devido a múltiplas influências. Casablanca é uma rede apertada de ruas, atravessadas por um fio de ar que adoça a violência da luz e do calor. Uma grelha que remete ao tema do labirinto, onde cada espaço nos é revelado através de uma sucessão de movimentos inconscientes. É então quando surgem seres anacrónicos, fantasmas, memórias e medos pertencentes ao mundo labiríntico. Aquele mundo que tanto seduz arquitectos e pensadores, como sendo um sistema insaciável de direcções e repetições, onde as regras parecem estar suspensas no tempo. Um sistema onde o passado está presente, onde tudo tem o mistério e o fascínio do desconhecido, onde não há limites entre o que existe e o que poderia, algum dia, existir.

É dentro desse espaço, intuitivo, inconsciente e emocional, que a arquitectura se move, até conquistar a razão, o equilíbrio e a harmonia. Sem isso arriscamo-nos a um desprendimento que roça o vazio e se aproxima do gratuito.

É preocupação do arquitecto desenhar a fusão entre um mundo imaginário e o mundo real, onde o espaço depende dos jogos de luz e de sombra, e dos caprichos do olhar. Konstantin Melnikov dizia que a luz, o ar e a água eram os únicos materiais que usava na construção das suas obras; Como se uma planta pudesse ser desenhada através de uma trama de raios de luz e fios invisíveis. E então perguntamos: o que acontece quando tentamos interpretar e conquistar uma imagem mental e transformá-la em espaço?

Fechamos os olhos, imaginamos a cena, e, mentalmente sabemos que tudo já estava lá, só precisava que alguém lhe desse forma. É aqui que o arquitecto passa de observador a interveniente, e o mundo que antes fazia parte da sua imaginação, transforma-se em algo real, algo inventado, como um vestígio das suas memórias e referências.

Falar de Casablanca é falar de movimento, de transições, de espaços sucessivos, e de relações entre interior e exterior. É observar as superfícies de luz e de sombra a desenhar o espaço em harmonia com os ritmos da vida. E novamente se coloca uma pergunta: Como desenhar um receptáculo de energia, de vida, de tempo, de percepções e direcções, onde tudo está num estado de vibração perpétua? E agora recordamos Josef Albers quando, nas suas pinturas, se referiu à necessidade de decifrar a hierarquia dos processos perceptivos, e à importância dos factores subjectivos que intervêm em todo o espaço visual.

A arquitectura deveria ser entendida como um lugar permanente por onde passam os olhares, as energias, a vida e o tempo. Onde as coisas não reagem por si mesmas, mas pelas relações que estabelecem entre elas. Mais do que definir espaços, a arquitectura define relações, direcções, e tensões, funcionando como um dispositivo de interacção entre sujeito e objecto onde a descoberta do espaço, como no labirinto, depende de uma intuição pessoal e inconsciente de si próprio.

Tal como cada palavra pronunciada provoca uma vibração interior, todo o objecto arquitectónico provoca uma ressonância à sua volta. Cabe ao arquitecto calibrar o nível de decibéis... Como se concebe uma arquitectura com a quantidade precisa de decibéis?

Voltamos ao início, e lembramo-nos de Siza, quando disse que desenhar é como uma grande jornada em espiral sem início nem fim, na qual se entra quase por acaso. É como apanhar um comboio em movimento. É necessário parar e ser oportuno na paragem. É aí que entra a razão, com os seus limites e a sua eficácia [1].

Vamos retomar a viagem?

 

 

 

Bárbara Silva
Arquitecta e curadora. Directora da NOTE - Galeria de Arquitectura em Lisboa, docente no Departamento de Arquitectura da UAL.

 

 

 

:::


Notas

[1] Morais, Carlos Campos. Álvaro Siza, Textos. Abada Editores, Madrid, 2014.